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Amazônia
PERFIS

Estudo do IBGE aponta que 90% dos municípios do AM sofrem com enchentes

IBGE divulga estudo detalhado que, entre outras coisas, mostra quais são as cidades do Amazonas que mais sofrem com as cheias dos rios e quais delas estão ou não preparadas para lidar com os problemas decorrentes do ciclo 06/07/2018 às 07:07
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Muitos municípios são invadidos pelas águas na cheia, como Manicoré. Foto: Márcio Silva
Álik Menezes Manaus (AM)

Encravado bem no meio da maior bacia hidrográfica do mundo, o Amazonas tem localidades (a maioria delas) onde o ciclo das águas dita o ritmo da vida ao redor. Isso não chega a ser novidade, mas um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) detalhou essa realidade e cravou que 90% dos municípios do Estado, ou 56 dos 62, são atingidos por enchentes ou inundações.  O pior disso é que a maioria das cidades continua sem se preparar para evitar os problemas decorrentes da subida das águas.

Os dados constam na pesquisa Perfil dos Municípios Brasileiros (Munic), que foi divulgada nessa quinta-feira (05) junto com o Perfil dos Estados Brasileiros (Estadic). Ambas as pesquisas, que são realizadas desde 1999, detalham informações sobre recursos humanos na administração pública, habitação, transporte, agropecuária, meio ambiente e gestão de riscos.

Para o chefe do IBGE no Amazonas, Ilcleson Mendes, o levantamento é importante por fornecer dados relevantes aos políticos sobre os problemas dos estados e dos municípios e, com base nessas informações, esses gestores públicos poderão atuar na implementação de planos estratégicos para solucionar ou pelo menos atenuar os problemas.  “Isso chama a atenção dos nossos gestores para que a gente possa estudar essas questões e trabalhar na implementação de planos e de uma estrutura que vise responder adequadamente com agilidade a essas populações que são atingidas”, disse.

Nos últimos quatro anos, segundo o estudo, 35 municípios do Amazonas foram afetados por alagamentos e 22 apresentaram processos erosivos acelerados entre eles: Careiro, Iranduba, Parintins, Rio Preto da Eva, Tefé e a capital amazonense e, em quatro anos, 56 municípios apresentaram enchente ou inundação gradual.  Durante o estudo, apenas os municípios de Barcelos, Itapiranga, Nhamundá, Novo Airão, Presidente Figueiredo e Urucará informaram que não houve impacto ou não souberam responder a dimensão dele.

Em casos de enchentes, dos 62 municípios, 30 cidades do Amazonas não possuem plano de gestão de riscos como instrumentos de planejamento. Entre eles: Autazes, Eirunepé, Careiro da Várzea e Tefé.

Quando o assunto é o gerenciamento de riscos de desastres decorrentes de enchentes ou inundação gradual, ou enxurradas e inundações, os municípios de Apuí, Nhamundá, Novo Airão, Pauiní e Rio Preto da Eva informaram que não possuem nenhum mapeamento de áreas de risco, programa habitacional de realocação da população, plano de contingência e sistema de alerta.

Conforme a pesquisa Munic, só a capital amazonense possui mapeamento de áreas de riscos, mecanismos de controle e fiscalização para evitar ocupação em áreas suscetíveis aos desastres e plano de contingência, quando o assunto é referente ao gerenciamento de riscos de desastres de deslizamento de encostas. Mas, ainda assim, conforme mostrou A Crítica ontem, as tragédias acontecem por aqui.

Bárbara Cobo Soares, coord. Indicadores Sociais

A coordenadora de População e Indicadores Sociais do IBGE, Bárbara Cobo Soares, explicou que os dados das duas pesquisas são fundamentais para entender como o poder público se organiza para atender essas demandas. “Entender diante das questões que são colocadas pelas cidades e pelos estados, como é que governos estaduais e municipais se organizam, em termos de planejamento, instrumento de gestão e de organização das suas secretarias, para atender, formular e implementar políticas nas áreas que são investigadas nas diversas políticas que investigamos desde 1999”, ressaltou ela, após apresentação na coletiva de imprensa realizada ontem em Manaus.

Pente fino nas gestões públicas

A Munic é uma pesquisa institucional e de registros administrativos da gestão pública municipal. Trata-se, basicamente, de um levantamento pormenorizado de informações sobre a estrutura, dinâmica e funcionamento das instituições públicas municipais, em especial a prefeitura, compreendendo também diferentes políticas e setores que envolvem o governo municipal: perfil dos gestores municipais, recursos humanos nas administrações municipais, habitação, transporte, agropecuária, meio ambiente, gestão de riscos e resposta a desastres. 

Já Estadic investiga nas 27 Unidades da Federação do País informações sobre recursos humanos, habitação, transporte, agropecuária e meio ambiente, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre o papel das instituições estaduais no contexto da democracia e da descentralização.

Fenômenos extremos no Alto Rio Negro

Enquanto o rio Negro começa a dar sinais do inicio da vazante na orla da capital amazonense, na região  do Alto Rio Negro os municípios de São Gabriel da Cachoeira e Santa Isabel do Rio Negro estão em situação de emergência devido ao alto volume de cheia do rio e não há precisão de quando a vazante iniciará.

São Gabriel da Cachoeira está com níveis mais altos do que o esperado pelos pesquisadores para esse período do ano do Serviço Geológico do Brasil (CPRM). Isso depois da região passar por uma das piores secas da última década, quando em março, o Negro chegou perto de atingir a mínima histórica de 1992, que era de 3,30m. Na ocasião, o rio chegou a atingir 4,76m, faltando 1,46m para atingir a mínima histórica.

As cotas atuais do rio, segundo a pesquisadora em Geociências do CPRM Luna Gripp, nos municípios de São Gabriel e Santa Isabel do Rio Negro, estão próximas da última grande cheia de 1976, o que indica uma cheia de grandes magnitudes.

“Em São Gabriel a gente está passando por uma situação crítica, pois os níveis estão bem mais altos do que a gente esperava para essa época do ano. As cotas, por exemplo, em Santa Isabel e São Gabriel estão próximas da grande cheia do ano de 1976, que foi histórica. O curioso é que essas duas cidades passaram por uma grande estiagem esse ano, são dois extremos no mesmo ano”, disse ela.

A pesquisadora contou que ainda não há como  dar uma previsão de quando o rio começará o processo de vazante naquela bacia porque ela é menor. “É difícil prever porque como a bacia é menor quando chove o nível dela também sobre, a resposta é mais rápida. Se continuar chovendo, ele (o rio) começa a subir e se parar de chover ele pode baixar. A gente continua o monitorando, mas não tem como prever”, ressaltou Luana Gripp.

Segundo boletim do CPRM da última sexta-feira, o rio na região do Alto está  apenas 37 cm abaixo da máxima histórica registrada em 1976. Conforme o boletim, no Porto de Manaus o rio ficou estabilizado ao longo da semana passada no nível de 28,38, mas de quinta-feira da semana passada até  terça-feira ele baixou seis centímetros.

Os dois municípios da calha do Alto Rio Negro  permanecem em situação de emergência, segundo a Defesa Civil do Estado.  Na calha do rio Madeira, Manicoré e Novo Aripuanã estão em situação de emergência por conta da cheia e aproximadamente 4.229 famílias sendo afetadas.

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