Segunda-feira, 06 de Julho de 2020
DIA DO MEIO AMBIENTE

'Eles entregam o patrimônio natural para se perpetuar no poder', diz Marina Silva

Nesta sexta-feira (5), data que marca o Dia do Meio Ambiente, A Crítica conversou com a ex-candidata à Presidência e questionou sobre o desmatamento na Amazônia, a ‘PL da Grilagem’, os povos indígenas e os protestos contra o racismo



show_WhatsApp_Image_2018-04-21_at_09.23.41_B165F086-338C-4EB6-BE24-0EBFE0C85674.jpeg Foto: Euzivaldo Queiroz
05/06/2020 às 09:59

Após a crise ambiental desencadeada pela fala do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que sugeriu aproveitar a cobertura da mídia para “passar a boiada” e a adoção de uma série de medidas pelo MMA e suas autarquias, a ex-senadora e ex-ministra da pasta, Marina Silva, avaliou que há um movimento organizado de ataques ao meio ambiente e comparou esse movimento ao esquema de corrupção do Petrolão.

Nesta sexta-feira (5), data que marca o Dia do Meio Ambiente, A Crítica procurou a ex-candidata à Presidência e questionou sobre o desmatamento na Amazônia, a ‘PL da Grilagem’, os povos indígenas e os protestos contra o racismo.



Marina, que é internacionalmente reconhecida por sua trajetória no movimento ambientalista, conversou, por telefone, por cerca de 30 minutos com nossa equipe. Na entrevista, ela pontua que a morosidade e a burocracia levam à impunidade de infratores ambientais e denuncia a existência de grupos de interesse, que usam abusam do poder econômico em campanhas contra a proteção ambiental.

Questionada sobre os efeitos da pandemia na população indígena, Marina ressalta um processo de extermínio físico e cultural desses povos. “Os índios, com certeza, são o grupo mais vulnerável, mais ameaçado do nosso país”, sustenta.

Em outro momento, a ex-ministra se emociona ao comentar a morte de George Floyd, homem negro morto de forma brutal por um policial branco, estopim dos protestos contra o racismo nos Estados Unidos e, agora, em todo o mundo.

Confira abaixo a íntegra da entrevista:

*  *  *

A senhora é uma mulher amazônica, que viveu na pele as dificuldades de morar na maior floresta tropical do mundo. Na primeira década dos anos 2000, o Brasil conseguiu reduzir significativamente os índices de desmatamento na Amazônia. Mas essa não é a realidade agora, em 2020, quando a gente volta a ver números assustadores. A que se deve essa mudança?

Na verdade, nós temos uma situação muito preocupante na Amazônia. Nós tivemos um aumento do desmatamento que já chegou ao descontrole e agora, só para se ter uma ideia, o desmatamento na Amazônia, no mês de abril, foi o maior em 10 anos.

Nós tivemos 529 km² de área destruída, com um aumento de 161% na área desmatada em comparação com o mês de abril de 2019. Nós temos um triste recorde, que segundo a Global Forest Watch, o Brasil foi responsável por um terço da perda de floresta virgem no mundo no ano de 2019 e, para esse ano, a gente já tem uma ideia do descontrole que virou o desmatamento.

Isso se deve a um governo que desmontou a governança ambiental, que não tem nenhum compromisso com a agenda da proteção dos biomas brasileiros, que atua - e atuou - para frear a fiscalização, que o próprio presidente estava querendo interferir quando disse sobre os equipamentos que foram queimados na fiscalização do Ibama, que ‘isso não vai ficar assim’ e, logo em seguida, demitiu os servidores que estavam cumprindo as suas funções.

Isso passa um sinal para os criminosos de que não tem ação do governo, de que não haverá punição e que, portanto, eles podem continuar com a degradação.

Houve sinalização de que iria aprovar no Congresso uma medida provisória para regularizar terras griladas até 2014 e, em alguns casos, até dezembro de 2018. Isso fez com que houvesse uma corrida de pessoas ocupando áreas públicas na expectativa de titular em benefício próprio.

Na verdade, nós temos hoje o equivalente ao petrolão. No petrolão, era dinheiro da Petrobras para impulsionar campanhas, no objetivo de se perpetuar no poder. No florestão, é entregar o patrimônio natural, os recursos naturais dos brasileiros, para se perpetuar no poder.

Segundo um relatório do Mapbiomas, 99% do desmatamento no país, em 2019, foi ilegal e, desde 2005, só 1% do desmatamento irregular foi punido pelo Estado. Essa falta de punição não seria um convite para o desmatamento ilegal? Por que o Brasil não pune quem infringe a legislação ambiental?

Nós temos no Brasil, infelizmente, um processo em que os órgãos ambientais fazem a fiscalização, aplicam as multas, mas os contraventores - que não os pequenos, mas sim os grandes, porque podem constituir advogados - vão recorrendo até a última instância e, aí, há toda uma morosidade no processo de julgamento em relação a esses casos. Muitos apostam nisso.

Quando eu fui ministra do Meio Ambiente, a gente fez um esforço muito grande, usando o serviço de inteligência, usando a Polícia Federal, e conseguimos colocar na cadeia cerca de 725 pessoas envolvidas em crimes ambientais.

Isso fez com que, de fato, essa expectativa da impunidade fosse diminuída. O que ajudou muito no resultado que nós alcançamos, de reduzir o desmatamento por 10 anos, com o Plano de Controle do Desmatamento.

É preciso que haja celeridade no julgamento desses crimes ambientais.

Sobre aquele vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, onde o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu “passar a boiada”. Há uma clara interferência do Governo Federal nas políticas e nos órgãos ambientais, mas que, aparentemente, não causa a mesma comoção que a suposta interferência do presidente na Polícia Federal. Isso não indicaria que a opinião pública concorda com a política ambiental do governo Bolsonaro?

De jeito algum. Em todas as pesquisas de opinião, a população brasileira condena a destruição da Amazônia, condena a destruição da Mata Atlântica, do Cerrado e do Pantanal.

Uma coisa é a sensibilidade das pessoas, outra coisa são os grupos de interesse, que muitas vezes são estimulados a fazer uma campanha, com muito poder econômico, contra a proteção ambiental.

Mas há repúdio da sociedade a toda essa interferência. Uma série de ações na Justiça, o pedido de afastamento do ministro Ricardo Salles, a MP da Grilagem só não foi aprovada no Congresso porque houve grande mobilização da sociedade brasileira contra a essa medida.

Nós sabemos, a sociedade tem se mobilizado. O problema é que o ministro de plantão, todos eles, acabam sendo reféns dessas forças reacionárias. E quando tem um ministro que não reage contrariando essas forças, aí a situação fica fora de controle.

Mas há uma grande reação, por parte do Ministério Público, por parte da sociedade, por parte da mídia, contrária a essas atrocidades.

Na campanha presidencial, sempre perguntavam como a senhora iria convencer os parlamentares a aprovarem os projetos de um eventual governo Marina Silva. Um deputado do Amazonas, o Marcelo Ramos, que já foi inclusive seu aliado, é o relator do projeto de lei 2.633, a ‘PL da Grilagem’, que a senhora critica tanto. Como a senhora convenceria o deputado Marcelo Ramos sobre os riscos desse projeto?

Eu fui ministra do Meio Ambiente, aprovei projetos importantíssimos para criar o Serviço Florestal Brasileiro, para criar o Instituto Chico Mendes, para criar um mecanismo de interdição de áreas prioritárias para a biodiversidade que pudessem vir a ser desmatadas. Eram medidas difíceis de ser aprovadas, mas que nós conseguimos aprovar - com votação nas duas Casas - com a força do argumento.

Nós tivemos uma mobilização da sociedade quando o deputado Marcelo, junto com o Centrão e com o governo, iam apresentar o relatório deles e a sociedade tava avisando ‘olha, é isso que vai acontecer’.

Não importa as mudanças que forem feitas no relatório, quando chegar no plenário, eles vão votar tudo o que havia sido retirado. Quando ele percebeu isso, ele mesmo fez uma denúncia e recolheu o relatório.

E é isso que tem que ser feito mesmo. Na política, você é eleito para representar, não para substituir.

Não há nenhum demérito quando a opinião pública nos orienta por um caminho que é melhor, que a sociedade tá lutando do que, ao fim, levar ao plenário e a bancada ruralista e o Centrão passarem o rolo compressor e aprovar o projeto tal como o governo queria.

Eu acho que é uma vitória nossa, da luta socioambiental, e não é a primeira vez que a sociedade consegue barrar uma tentativa do Executivo com setores do Congresso.

Na agenda ambiental, a ação da sociedade, em diferentes momentos da História, em diferentes governos, foi responsável por evitar o problema maior. A chave é o diálogo, com o Congresso e com a sociedade. Quando você faz isso com princípios republicanos, com transparência, acaba prevalecendo a autoridade do argumento e não o argumento da autoridade.

Você assinou, junto com vários ativistas, cientistas, políticos e empresários, uma carta aberta com princípios para um futuro sustentável em tempos de pandemia. Nela, você sustenta que a tomada de decisões deve ser baseada em ciência. Na sua opinião, qual vai ser o papel da ciência no pós-pandemia?

A ciência tem sofrido sérios ataques no mundo inteiro e, aqui no Brasil, isso assumiu uma forma de absurdos, que nega não só a ciência, mas a própria realidade.

Quando o presidente da República ataca o prefeito de Manaus por abrir valas coletivas na intenção de esconder, como se isso fosse negar a realidade, isso é um crime de lesa-humanidade.

A ciência tem um papel fundamental. Eu sou uma pessoa de fé, mas também acredito que a ciência é um dom de Deus. Não deve haver rejeição à ciência. Quando você faz isso é um desserviço, em termos de saúde pública, em termos sociais, em termos econômicos, em termo de avanço das consciências e das consequências.

A ciência tem um papel de nos ajudar a resolver problemas e de nos ajudar a evitar problemas que não têm como ser resolvidos.

Por falar em pandemia, os povos indígenas são um dos grupos mais vulneráveis ao novo vírus e o seu partido elegeu a primeira mulher indígena deputa federal. Antes da pandemia, já se denunciavam muitos ataques e hoje lideranças indígenas falam em extermínio. Há, de fato, uma política de extermínio dos povos tradicionais?

Historicamente, os povos indígenas viveram picos de extermínio. Quando a gente olha para a História e vê que eram 5,5 milhões de indígenas e que chegaram aqui 12 mil portugueses, e hoje são mais de 220 milhões de brasileiros e apenas 850 mil índios, isso significa que nós exterminados um milhão a cada século, proporcionalmente falando.

E continua, porque o extermínio não é só físico. Hoje, eles estão ameaçados pela pandemia, pela violência, pela invasão de suas terras. Mas também existe um extermínio cultural, social e étnico.

Nos governos, em diferentes períodos, existem aqueles que ou querem eliminar ou aqueles que querem assimilar, fazendo com que os indígenas sejam aculturados.

Os índios, com certeza, são o grupo mais vulnerável, mais ameaçado do nosso país. E a resistência que tem sido feita tem um papel fundamental. Nós temos o dever moral, político, histórico e cultural de não permitir nem o extermínio físico e nem o extermínio cultural.

Como a senhora avalia o surgimento de jovens lideranças no movimento ambientalista, como a Greta Thumberg?

É uma das nossas melhores sementes. A Greta é, ao mesmo tempo, uma pérola e uma brecha.

Uma pérola porque é a vida, na sua condição mais legítima, nas escolas com as crianças e com os adolescentes, defendendo a vida de todos nós. É um tesouro.

E é uma brecha porque como essa sensibilização dos poderosos - que criaram um modelo hermético fechado que tá sufocando a sensibilidade, a vida, a criatividade, a liberdade -, a Greta surge como uma pequena brecha pela qual pode passar a esperança.

É a primeira vez na história da humanidade que as crianças e os adolescentes tão se colocando na frente do perigo. Em nenhuma situação a gente coloca as crianças na frente do perigo.

Essa sociedade está tão adoecida que a vida, ela própria, está se consumindo através das crianças e dos adolescentes.

Nesse contexto, o debate racial ganhou destaque na mídia com os protestos contra o racismo nos Estados Unidos. A senhora, enquanto mulher negra, enxerga alguma relação entre o meio ambiente e o debate racial?

Sim, porque não é sustentável uma sociedade em que seres humanos são discriminados. Não há sustentabilidade étnica, não há sustentabilidade cultural onde pessoas são discriminadas, não têm as mesmas oportunidades por causa da sua cor ou da sua etnia.

A luta em defesa da sustentabilidade no Brasil deve ser envolvida pela busca por um modelo de sociedade em que todos tenham igualdade de oportunidades.

Porque o racismo tem nos acometido estruturalmente. Porque aqueles que tiveram uma trajetória diferente não reconheceram os prejuízos que precisam ser reparados, portanto, é preciso que existam políticas afirmativas.

Esses movimentos, como o Vidas Negras Importam, são necessários. É uma atrocidade o que aconteceu com o George Floyd. É até difícil de falar. Tantas vezes dizendo que não consegui respirar. E não é a primeira vez que isso aconteceu.

É um sinal de que a população negra do mundo, a população indígena continua sendo discriminada socialmente, economicamente e, principalmente, do ponto de vista do acesso à Justiça.

Muita gente considera 2020 um ano perdido. Há alguma mensagem de esperança para essas pessoas?

Esse é um ano em que temos, talvez, a pior crise da História. A gente já vinha de uma crise, que eu chamo de crise segregatória, que já tava em curso, um sistema que já estava colapsado.

Porque a pandemia tem uma raiz na questão ambiental, já que se trata de um vírus que sai de um ser vivo pequeno, vai para um animal e contamina seres humanos. Essa é uma realidade com a qual nós vamos conviver, daqui para a frente, o tempo todo. E uma das razões para a contaminação pelo vírus pode ser a degradação.

Por outro lado, eu acredito na força criativa, positiva e livre dos seres humanos. É preciso que a gente ponha em ação agora não o pensamento mágico de que tudo vai se resolver por si mesmo, mas construir um novo normal, que priorize o que é o essencial do essencial.

Nós temos que trabalhar para que 1% não tenha uma riqueza maior que mais de 1 bilhão de pessoas. Nós temos que ter a esperança de que podemos construir um mundo onde a ecologia não é combatida pela economia, mas que as duas caminham juntas. Um mundo que seja economicamente próspero, socialmente justo, politicamente democrático, ambientalmente sustentável e culturalmente diverso.

A minha esperança reside na nossa capacidade de acreditar criando. Eu gosto muito de uma passagem bíblica que o apóstolo Paulo diz ‘não vos conformeis com esse mundo, mas inovais pela renovação do vosso entender’. Que o nosso pensamento renovado possa ajudar a mudar esse mundo.


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