Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2020
Terras indígenas

Pesquisador do Inpa contesta Bolsonaro sobre gado na Amazônia

Presidente afirmou que vai regulamentar a agricultura e pecuária comerciais em terras indígenas, no projeto que libera a atividade de mineração nessas localidades



gado20140122_0005-1_33DD139E-58BA-4A03-9716-368F22BC6320.jpg Foto: Foto: Mayke Toscano/ Secom-MT
23/12/2019 às 07:09

A proposta do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de criar gado em terras indígenas para reduzir o preço da carne no país causou reação na comunidade científica. O doutorando em ecologia, Lucas Ferrante aponta que pesquisas desenvolvidas por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) comprovam os danos ambientais e climáticos da expansão da pecuária para regiões florestais na Amazônia.

“Isso vai prejudicar o setor e aumentar ainda mais o preço da carne. A ministra da agricultura já havia defendido isso e a liberação dentro das Unidades de Conservação (UCs) também. Entretanto nós e outros pesquisadores temos estudos que contrariam tudo isso, além de apontar um tiro no pé do setor. A Embrapa tem um estudo que demonstrou que a pecuária não precisa se expandir na Amazônia, terras indígenas ou UCs, para aumentar a produção, pois existem terras ociosas em outras áreas que garantem um aumento da pecuária”, declarou o doutorando em ecologia e pesquisador do Inpa.



Na quinta-feira, Bolsonaro afirmou que pretende enviar ao Congresso Nacional projeto de lei para regulamentar a exploração comercial de gado, mineral e a agricultura em terras indígenas. O presidente chama a proposta de ‘Lei Áurea para o índio’. "O preço da carne subiu. Nós temos de criar mais bois aqui, para diminuir o preço da carne e eles (indígenas) podem criar boi", disse o presidente da República dirigindo-se a indígenas que o acompanhavam em frente ao Palácio da Alvorada.

Impactos 

Lucas Ferrante disse que coordenou dois estudos, no Inpa, que mostram que a pecuária é o cultivo mais nocivo entre todos e com impactos, inclusive, em áreas de floresta adjacentes aos pastos. “Os pastos aumentam a velocidade dos ventos na paisagem que causam mortalidade de árvores e a formação de clareiras nas florestas próximas, além de pisotear nascentes e cursos d'água causando assoreamento e afetando o abastecimento hídrico das propriedades. O estudo verificou também impacto severo sobre a fauna causando extinções de muitas espécies na área, o que entra em conflito com a proposta de unidades de conservação”, afirmou referindo-se a publicação disponível na revista international Journal By Geography.

Outro estudo, que tem como autores Ferrante e Philip Fearnside, revela que terras indígenas e Unidades de Conservação (UCs) propiciam serviços ecossistêmicos importantes que garantem a manutenção de chuvas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, inclusive, para manutenção da agricultura.

“A liberação (da pecuária em terras indígenas) consequentemente degrada essas áreas e vai impactar nesses serviços ecossistêmicos que elas propiciam. Isso é muito grave. Neste terceiro estudo discutimos como a falta de capacidade técnica tanto da Ministra Tereza Cristina quanto do Bolsonaro em garantir a sobrevivência da agricultura do Brasil por conta dessas medidas”, disse.

Lucas pondera que a simplificação do Cadastro Rural (CAR), defendida pela ministra da agricultura, pode dificultar a identificação da origem do boi e as exportações de carne bovina. “Fica difícil saber se a carne exportada está ligada ao desmatamento. Por sua vez afeta as exportações para a Europa já que os países estão pautando por medidas para conservação da Amazônia.  O preço da carne tende a subir porque vai ter o mercado internacional se fechando, vários produtores tendem a quebrar e os preços não vão diminuir”, declarou.

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