Domingo, 21 de Julho de 2019
ATAQUE AOS ANFÍBIOS

Sapos da Amazônia serão 'castrados' com avanço na liberação do uso de agrotóxico

A atrazina, entre os recentes defensivos aprovados pelo Governo Federal, é proibido na União Européia por oferecer risco à reprodução de anfíbios



sapo_4BB3B68C-3459-4F49-9CBF-3191AA2E3DAB.jpeg Foto: Divulgação/Marcelo Lima
29/06/2019 às 19:25

Herbicidas como a “atrazina” e o “glifosato” começaram a ser usados com maior intensidade nas plantações de Presidente Figueiredo, no norte do Estado do Amazonas, após a liberação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), no início de junho deste ano. O agrotóxico atrazina, por exemplo, “castra” rãs e impede a reprodução dos anfíbios na Amazônia, incluindo a rara perereca de vidro, descoberta no município distante 107 km de Manaus, em 2002.

O sinal vermelho sobre o aumento dos agrotóxicos no Brasil foi emitido por uma organização europeia que produz relatórios sobre o uso deles em plantações a nível mundial. A Pesticide Action Network (PAN) listou os 10 “defensivos” mais perigosos para a saúde, e a atrazina ocupa a quinta colocação no ranking, publicado em maio deste ano, já o glifosato fica na terceira posição.

“Realizamos o levantamento como base científica para alertar os governos e empresas, para que conheçam os malefícios da aplicação de agrotóxicos, que na verdade são venenos, para certos tipos de espécies, incluindo a humana”, explica Medha Chandra, diretora da PAN.

O estudo “Hermaphroditic, demasculinized frogs after exposure to the herbicide atrazine at low ecologically relevant”, feito por médicos e especialistas em tóxicos da Academia Nacional de Ciência dos Estados Unidos (PNAS), realizado em 2002, mostrou a relação entre a atrazina e anormalidades sexuais em sapos, afetando os machos na capacidade de reprodução e chegando até a alterar o sexo deles, levando ao hermafroditismo.

Os efeitos dos agrotóxicos nos sapos pode até levar a morte de determinadas espécies, conforme destaca o biólogo Domingos Rodrigues, professor associado da Universidade Federal do Mato Grosso, UFMT. “Como a atrazina afeta o sistema imune dos anfíbios, parasitas acabam se desenvolvendo com maior rapidez, e diante do avanço dos agrotóxicos nestas regiões de reprodução, o risco dobra, pois estes animais geralmente se utilizam da água, e das plantas para a reprodução”, explica Rodrigues.

Descoberta

Com apenas 24 milímetros de comprimento quando adulto, de dorso verde-claro com pontos negros, ventre transparente, íris verde-amarelada e a ponta dos dedos em “T”, a perereca de vidro foi catalogada por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa, no início dos anos 2000, na Cachoeira da Onça, na região de Presidente Figueiredo.

“Os homens não dão muita atenção para os anfíbios, os achando nojentos e que não servem para nada. Porém, desconhecem que esses animais possuem grande importância no equilíbrio do meio ambiente”, aponta Marcelo Lima, um dos primeiros biólogos  a catalogar, a perereca símbolo da estabilidade florestal. Desde lá, a espécie foi observada em outras localidades, incluindo Manaus.


Pesquisador Lucas Ferrante do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Foto: Márcio Silva

Por ser vulnerável a mudanças no ambiente e por fazer uso de mananciais de lagos e rios para ovulação, a espécie funciona como indicador da qualidade de ecossistemas. Ou seja, se algo vai mal com os anfíbios, por conta dos agrotóxicos, é um indicativo que algo vai mal com o ambiente. 

“Apesar de não existirem estudos atribuindo os efeitos da atrazina diretamente com a perereca de vidro, existe uma forte relação dos agrotóxicos de maneira geral, com os anfíbios”, e não são boas notícias, como afirma Lucas Ferrante, ecólogo do Inpa:

“Os anfíbios mais vulneráveis às ações dos agrotóxicos estão em áreas abertas, e circulam próximo às plantações contaminadas, como o ‘Leptodactylus podicipinus’, popularmente chamado de rã-goteira; Já a perereca de vidro, pode ser atingida por alterações na paisagem, muito antes da contaminação por agrotóxicos, por serem muito mais sensíveis às mudanças no ambiente”, diz.

Funcionando como indicadores da qualidade do espaço, anfíbios ocupam o topo na lista de espécies que sustentam outros ecossistemas. “Com o desaparecimento de uma espécie de anfíbio podemos esperar um surto de pragas ou surgimento de doenças endêmicas na localidade, e que podem atingir humanos”, diz Ferrante, que atua em pesquisas de ponta sobre anfíbios no Brasil e atualmente é pesquisador associado do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos Serviços Ambientais da Amazônia (INCT-SERVAMB).  

Em média, as fêmeas depositam os ovos no período chuvoso, entre dezembro e maio. Depois, os girinos rompem a cápsula do ovo, caem na água e permanecem até completarem o desenvolvimento.

Risco aos mananciais e aos humanos

A preocupação dos ambientalistas é que a água próxima das plantações, que fazem o uso de agrotóxicos, seja contaminada por conta da fácil absorção pelo solo durante os períodos chuvosos, que coincide com o período da ovulação do anfíbio afetando o habitat do animal.

Em um levantamento recente, o Sistema de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), uma organização  responsável por classificar a presença de agrotóxicos, detectou 27 deles na água coletada próxima a plantações na região metropolitana de Manaus, que inclui o município de Presidente Figueiredo.

Outro estudo sobre a atrazina, intitulado “Atrazine and Cancer Incidence Among Pesticide Applicators in the Agricultural Health Study”, publicado em 2011, demonstrou o aumento do número de casos de câncer de próstata entre trabalhadores envolvidos no processo de produção do agrotóxico. A pesquisa foi realizada por epidemiologistas do Instituto Nacional do Câncer dos EUA. 

O glifosato também apresenta ligação com o aumento dos casos de câncer, em especial o de próstata e pele. A utilização massiva de agrotóxicos com deformidades em humanos, também foram registradas por especialistas, como o aumento de casos de microcefalia ou surgimento de câncer em trabalhadores rurais expostos diariamente com estes agentes químicos.

“Em áreas do Amazonas em que o glifosato foi utilizado, nós encontramos vários animais com deformidades severas, como ausência de membros ou olhos”, o pesquisador afirma que “estas mutações são derivadas do efeito destes agrotóxicos sobre os anfíbios e isso nos indica que estes agrotóxicos também podem afetar o ser humano,” completa Ferrante.

Proibido na Europa, permitido no Brasil

Temendo retaliação do principal mercado exportador de alimentos, a União Européia, o Governo Federal havia proibido a chegada de novos herbicidas com a atrazina, por exemplo, desde que países europeus cancelaram seu uso, há 17 anos.  Países da União Européia e outros 50, incluindo Israel, proíbem o uso de ambos, desde 2003. 

Após a proibição, a Syngenta, fabricante do produto na Europa e no Brasil, pronunciou-se em nota oficial alegando ser o produto seguro e enfatizando a sua importância para os agricultores. Apesar da proibição legal em outros países, o agrotóxico passou a ser vendido em novas formas, quantidades e por número maior de fabricantes, nos países com legislação mais frouxa.  

A atrazina já é usada nas plantações, no entanto, a chegada dos novos produtos com o componente no mercado aqueceu a concorrência, e atualmente 20 litros do herbicida  podem ser adquiridos por pouco mais de R$ 200. Algo considerado improvável até 2018, onde os preços chegavam a R$ 600, pela mesma quantidade. Já o glifosato teve queda de 32% em algumas lojas de produtos agrícolas.

Ao aprovar a chegada dos novos agrotóxicos, “o Brasil derrubou uma série de importantes padrões ambientais no país”, de acordo com o relatório do Greenpeace, publicado em maio deste ano, sobre ao aumento recorde de aprovação de agrotóxicos, “pois ele [o Governo Federal] acredita que as leis ambientais e os grupos ativistas frequentemente trabalham para impedir o potencial econômico do Brasil,” conclui.

Aliado’ de produtores do AM

Cada vez mais o agronegócio vem se tornando um dos principais eixos da economia do Estado. O cupuaçu e a laranja são produzidos em diversos municípios, e somente em Presidente Figueiredo, o mercado  movimentou cerca de R$ 50 milhões só no último ano, 2018, conforme dados do Instituto de Desenvolvimento Agrário do Amazonas, o Idaam. Contudo, produtores rurais se queixam sobre a desagradável acompanhante que afeta os melhores resultados do plantio: as pragas.

Atuando como “defensivo agrícola”, os agrotóxicos com atrazina são capazes de combatê-las de maneira eficaz,  na opinião do produtor rural Marcelo Queiroz, 46, que faz uso de diversos meios para proteger a plantação de 98 pés do fruto de cupuaçu. “A gente tem muitos problemas com as pragas. O uso dos produtos ajuda, né, pra aumentar a qualidade e manter a produção em alta”, diz o agricultor. 

A praga que Marcelo se refere é conhecida como “vassoura de bruxa”, e tem sido responsabilizada pela diminuição do potencial  do município de 35 mil habitantes, em subir no ranking de maior exportador dos dois tipos de frutos no mercado mundial. Ela surge no verão amazônico, justamente na fase de formação para colheita do cupuaçu e da laranja. 


Fruto de cupuaçu com a praga vassoura de bruxa. Foto: Teresinha Albuquerque/ Embrapa

Outro organismo considerado perigoso para as plantações,  de acordo com os produtores, e que tem lançado os índices de produção da laranja em Presidente Figueiredo para baixo, é a “broca de fruto”. Trata-se de um inseto que existe naturalmente nas matas da região, e ataca o fruto quando está na fase de larva, levando até a perda total da produção.

Somente no ano de 2011 a 2015, os produtores no Amazonas perderam aproximadamente 16 mil pés de cupuaçu e laranja, segundo levantamento da Empresa Brasileira de Pecuária e Abastecimento, Embrapa, por conta da infestação da praga, que não é a única preocupação dos produtores.


Plantação de laranja no interior do Amazonas. Foto: Reprodução/Internet 

Questionado se existe um temor dos produtores com o uso dos agrotóxicos, o produtor conta que recebem uma cartilha dos governos e das empresas que fornecem os herbicidas, com instruções de segurança para serem aplicadas durante a colocação dos químicos. “Eles vêm aqui, às vezes, oferecer esses produtos. Eu compro por que preciso vender mais, mas não gosto do cheiro que tem”. O produtor rural complementa, “se existe um item de segurança que tenho que colocar é a máscara, acho que protege”, diz.

Caso houvesse uma forma de interromper a perda de receita, produtores alcançariam mercados na Ásia e na Europa, como aponta o relatório publicado em outubro passado, pelo Idaam, órgão que atende os produtores rurais no Estado.

Atualmente o município exporta menos de 1/3 da sua produção para outros países e ocupa o 15º lugar do ranking de exportadores de cupuaçu, e o 25º na produção de laranja do Brasil. Até o momento, o maior mercado de consumo são moradores da capital do Amazonas, Manaus, com pouco mais de 2 milhões de habitantes.

Questão de saúde pública

Ao todo, 1.200 agrotóxicos foram liberados pelo governo brasileiro nos últimos três anos, e este número vem crescendo. Além das preocupações com o impacto do uso de agrotóxicos sobre a biodiversidade, também há temores sobre seu impacto na saúde pública. Pois, como aponta o pesquisador Lucas Ferrante, o consumo de água ou alimentos contaminados pelos agrotóxicos afeta diretamente os seres humanos.

“O setor agrícola precisa entender que preservação ambiental também resguarda a saúde humana e isso deve ser integrado à produção de alimentos. Muitos países têm tomado medidas para banir agrotóxicos pensado na saúde das pessoas e utilizar estes venenos significa que estes países não irão comprar os produtos brasileiros por conta dos danos destes agrotóxicos sobre a saúde humana”, acrescenta Lucas Ferrante.

A Human Rights Watch revelou que os residentes rurais no Brasil estavam sendo envenenados por pesticidas pulverizados perto de suas casas. O relatório de 50 páginas da organização internacional de direitos humanos, descobriu que muitas pessoas temiam represálias se denunciassem os envenenamentos.

Enquanto segue a derrubada da floresta para dar lugar a monoculturas sem manejo sustentável, a pequena perereca de vidro e outros anfíbios da região amazônica se deparam com mais um desafio pela sobrevivência, diante da ampliação no uso de agrotóxicos, e no aumento do desmatamento na maior floresta tropical do mundo.

“As autoridades brasileiras precisam interromper essa exposição tóxica e garantir a segurança daqueles que falam contra os danos que os pesticidas causam às suas famílias, comunidades e meio ambiente”, conclui o relatório.

Até o momento, 239 agrotóxicos foram liberados pelo Governo Federal, desde o início de  2019. Um aumento de 140 % durante o mesmo período do ano anterior.  

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