Sábado, 24 de Agosto de 2019
NEGÓCIOS

Amazonenses partem para Portugal a fim de estudar e estruturar novos negócios

País europeu se apresenta como centro repleto de boas oportunidades para profissionais brasileiros



show_Quiosque_acai_1B74E8B5-16B3-4BEA-8565-A6454716125B.JPG Casal Elizeu e Fernanda encontrou no grande interesse de brasileiros pelo país europeu uma oportunidade de negócio. Eles prestam assessoria personalizada (Fotos: Divulgação)
31/03/2019 às 07:40

São 15h na cidade de Braga, em Portugal, 11h em Manaus, quando o alerta de mensagem do WhatsApp dispara no telefone do amazonense Elizeu Carvalho, 44. “É mais um amigo nosso do Brasil querendo informações sobre Portugal”, comenta o administrador de empresas, que deixou Manaus há oito meses para iniciar uma nova vida em terras lusitanas.

Segundo dados da Prefeitura de Braga, entre 2011 e 2017, houve um aumento de 10,5% da população de brasileiros na cidade. Somente o Consulado Honorário de Portugal em Manaus já chegou a registrar, nos últimos meses, uma média de cinco consultas por dia sobre a migração para o país.

O contato frequente de amigos amazonenses buscando dicas e orientações sobre a mudança para Portugal chamou a atenção de Elizeu e sua esposa, a também administradora Fernanda Carvalho, 36, para um nicho de mercado promissor: assessoria para quem deseja estudar, empreender, trabalhar, ou mesmo simplesmente mudar para o país europeu.

“A procura por informações é tão grande que começamos a oferecer o serviço de receptivo que inclui desde a assessoria para emissão de documentos, legalização da imigração nos vários tipos de vistos, integração familiar, procura de escola para as crianças, consultoria para compra ou aluguel de imóvel, para compra de veículos, até assessoria na abertura de empresa. Tudo isso sempre com o suporte jurídico e contábil de profissionais locais”, explica Elizeu.

Analisando o perfil dos imigrantes atuais, Elizeu identificou que a classe média amazonense é que vem buscando oportunidades de negócios em terras portuguesas. “Hoje não existe mais o mochileiro que na década de 90 inundou Portugal. Hoje vemos que famílias estruturadas, com projetos de vida, estão buscando oportunidades de negócios em Portugal, esse é o perfil, pessoas que buscam viver legalmente no país unindo a qualidade de vida que o país oferece e as oportunidades de empreender”, destaca. 

Com base nessa análise, o administrador iniciará, no próximo mês, um trabalho de pesquisa nas juntas de freguesias e associação comercial do distrito de Braga para identificar nichos de negócios. O objetivo é montar um escritório de negócios que viabilize parcerias para empreendedores e investidores amazonenses no país.

A migração de brasileiros para Portugal é estimulada pela carência de mão de obra qualificada em terras lusitanas, sobretudo em determinadas áreas. “A falta de trabalhadores com boa formação e capacitação é uma verdade na vida de Portugal, que anseia por mão de obra jovem e qualificada em vários setores”, firma a engenheira civil Adélia Azevedo. 

Construção

No setor da  construção civil não é diferente, pois há uma carência de engenheiros, encarregados e técnicos no mercado, que se torna maior ainda quando fala-se dos profissionais de produção. “A imigração, não somente do Brasil, mas de outros países com a mesma língua-mãe, é crescente, mas não desordenada. Está cada vez mais pautada na continuidade da qualidade de vida da população local e de quem chega”, diz a engenheira. Apesar disso, o setor imobiliário já está sentindo um grande impacto, o que se reflete no aumento dos valores de venda e aluguéis de imóveis, e na escassez de produtos. “Espera-se um equilíbrio nos próximos semestres baseado nas constantes discussões privadas e, principalmente, públicas em torno desta questão”, ressalta Adélia.

Blog

“Fixei residência  em Lisboa há 3 anos.  Eu vim para fazer meu mestrado na área de Jornalismo e hoje trabalho no escritório português da empresa espanhola de comunicação Marco de Comunicación. Nesse tempo, percebi que Portugal é mais que um mercado consumidor interessante para os produtos do Amazonas. 
Na verdade, aqui é uma porta de entrada para a Europa, pois Portugal recebe pessoas de todos os países do continente, principalmente nas férias de verão, quando ingleses, alemães, franceses, belgas e holandeses (em sua maioria), ‘invadem’ as praias de Portugal, literalmente, em busca de ‘um lugar ao sol’. Países da América do Sul já perceberam isso e promovem campanhas regulares de divulgação, principalmente, de seus destinos turísticos. Recentemente, o Peru fez uma grande campanha em Lisboa. Acho que seria válido, de repente, o Governo do Amazonas pensar em algo para ‘vender’ o nosso Estado por aqui, seja no setor de turismo, da indústria, do comércio, ou mesmo no setor primário com nossos produtos regionais. A criação de um escritório do Governo do Amazonas para fomentar parcerias já seria um bom começo nesse sentido. Uma coisa eu posso garantir: Portugal vale a pena!”, Victor Affonso, Jornalista.

‘Os nomes Amazonas e Amazônia são muito fortes’

“Os nomes Amazonas e Amazônia são muito fortes no mundo inteiro e aqui não é diferente”. A afirmação é da empresária Ana Tereza Braga, 40. “Por isso fizemos questão de adicionar à nossa logomarca a frase: Original do Amazonas”, completa.

Ana Tereza é sócia da rede amazonense de pizzarias Splash, junto com o esposo João Paulo Marques, 39. Os dois já estão em Portugal há 1 ano e 8 meses e estão prestes a comemorar o aniversário de um ano da Splash na cidade de Braga, agora em abril. “O nosso modelo de negócio aqui em Portugal já atingiu a maturidade e agora vamos iniciar a fase de expansão da marca. Até o final do ano vamos abrir uma filial na cidade do Porto e depois é partir para conquistar o gosto dos portugueses na capital Lisboa”, adianta João Paulo.

Estudar sempre

Falando como empresários, Ana e João dão uma dica preciosa para quem pensa em investir em Portugal: estude. “Nem pense em vender tudo no Brasil e aventurar de qualquer jeito. Pesquise o mercado, mantenha uma base forte no Amazonas, visite várias cidades no país para ver qual se encaixa à sua realidade. Essa prospecção tem um custo inicial, mas vale a pena para reduzir os riscos do seu negócio”, orienta Ana Tereza. No mais, valem as mesmas premissas de empreendedorismo vigentes em qualquer do mundo: é preciso buscar qualificação adequada antes de iniciar o projeto empreendedor.

Saudade dos produtos amazônicos

Paralelo ao aumento da imigração de amazonenses para  Portugal, outro movimento de mercado começa a ocorrer: a busca por produtos da nossa região. “Até que ainda encontramos goma de tapioca e açaí em alguns estabelecimentos, mas não tem, nem de longe, a qualidade dos nossos produtos”, comenta o advogado Anderson Souza, 40, que atualmente mora na cidade portuguesa de Aveiro e cursa um mestrado em Direito Administrativo na Universidade do Minho, em Braga.

Na opinião da esposa de Anderson, a pesquisadora Ana Lima, 37, que faz pós-doutorado em Engenharia Elétrica na Universidade de Aveiro, produtos do Amazonas como os peixes regionais, frutas da Amazônia e as farinhas de tapioca e de mandioca, já têm um público consumidor certo em terras portuguesas.
“A comunidade amazonense e paraense é muito grande por aqui. Apesar de nos adaptarmos bem em Portugal, muitas vezes a saudade das nossas coisas bate mais forte, seja um bom peixe com farinha, ou mesmo um suco de cupuaçu. Além disso, o consumidor europeu sempre está aberto a novas experiências, principalmente gastronômicas”, disse Ana Lima.

Segundo a pesquisadora, muitos comerciantes se queixam das dificuldades de levar os produtos do Amazonas para Portugal. “Acredito que falta uma maior atenção das autoridades para promover a integração dos dois países. Acho que parcerias comerciais facilitariam tanto a entrada de nossos produtos em Portugal, quanto a exportação das mercadorias deles para o Amazonas”, opinou. 

Receba Novidades

* campo obrigatório

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.