Terça-feira, 31 de Março de 2020
'Mil [quase] Mortos'

Biólogo encarna personagem contra a poluição dos mananciais de Manaus

Emerson Pontes dá vida à personagem drag queen Uýra Sodoma. Ensaios para a série fotográfica ocorreram em trecho do Igarapé do Mindú e em áreas dos bairros São Jorge e Mutirão



artista_1_B70B4475-F0EE-4276-B86A-A4B725F06FC1.JPG Emerson Pontes encarnando a drag queen Uýra Sodoma. Fotos: Matheus Belém/ Divulgação
07/07/2019 às 20:37

Foi para chamar a atenção das autoridades e da sociedade para o volume de lixo descartado em igarapés, a poluição e seus impactos que o biólogo e mestre em Ecologia, Emerson Pontes, desenvolveu a série de fotografias intitulada “Mil [quase] Mortos”. O trabalho é fruto de uma pesquisa aprofundada sobre o assunto e conta com a participação do fotógrafo Matheus Belém.

Além do cenário de sujeira que por si só já atrai olhares, a imagem é protagonizada pela personagem drag queen Uýra Sodoma, que é interpretada pelo próprio Emerson Pontes.



Segundo ele, a intenção é fazer com que as pessoas olhem “de verdade” para os igarapés, mudem seus hábitos e cobrem limpeza e ações de conscientização por parte dos órgãos municipais.

Nem sempre foi assim

“O que concluímos com a pesquisa é que todos os igarapés da cidade de Manaus estão poluídos, mas que nem sempre foram desse jeito. Eles são mais de mil e estão quase mortos por isso o nome da série ‘Mil [quase] Mortos’. Os igarapés são invisíveis, correm e cortam a cidade sem um olhar. Sua poluição tornou-se natural e cotidiana”, analisa o Pontes, que também é conhecido como “Emerson Munduruku”.

A série fotográfica “Mil [quase] Mortos” foi constituída por dois ensaios, um em cada trecho do Igarapé do Mindú. O primeiro feito em uma localidade que corta o bairro São Jorge, na Zona Oeste, e o outro, registrado no trecho que corta a feira do bairro Mutirão, este na Zona Leste da capital amazonense.

Chamando a atenção

Emerson Pontes conta que durante a encenação, as pessoas que passavam pela via percebiam a movimentação e logo paravam para registrar, o que as estimulava a interagir com o artista e, assim perceber, o problema da poluição.

“Em todas as nossas ações estamos cercados de muita gente. Já estivemos em lugares que antes de começarmos a fotos, observávamos que ninguém olhava para o igarapé. Então, quando começávamos as fotos, de repente, estávamos cercados por mais de 100 pessoas”, contou o biólogo.

“As pessoas paravam, observavam, comentavam entre si, interagiam conosco. Com isso, elas vão sendo estimuladas a pensar sobre aquilo e isto aproxima as pessoas do problema. Elas são naturalmente envolvidas pelo processo que é justamente dar visibilidade ao igarapé”, acrescentou.

Informações

Conforme explica o artista, as imagens são divulgadas com informações históricas e ambientais do lugar.

“Isso sintetiza os fatos principais e facilita o acesso da população ao conhecimento sobre a cidade; lhes incentivando à reflexão e muitas vezes lhes estimulando relembrar de como estes igarapés eram no passado”, disse, ainda.

A ideia, explica ele, é ter um amplo registro fotográfico de performances de Uýra feita dentro do maior número de igarapés da cidade.

Há a expectativa de que outras áreas também sejam registradas pela dupla. “Estamos mapeando novos lugares, pesquisando informações históricas e ambientais, preparando estratégias de divulgação do acervo de imagens que temos e planejando os próximos ensaios fotográficos”, finalizou o biólogo Emerson Pontes.

Campanha

Recentemente, uma das fotos da Série “Mil [quase] Mortos” foi utilizada pela Campanha Rios Limpos para Mares Limpos, que é realizada pela Fundação Amazonas Sustentável em parceria com a ONU Meio Ambiente. A foto virou cartazes que foram colados em vários locais com grande circulação  em Manaus.

Prejuízo de R$ 6,5 milhões em 5 meses

De janeiro a maio deste ano, a Prefeitura de Manaus estimou uma quantidade de coletada de 4.434 toneladas de resíduos provenientes dos igarapés, gerando um custo de R$ 6.562.537,51 ao cofre público municipal. A média mensal é de 886 toneladas ao valor de R$ 1.312.507,50.

Conforme a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), diariamente as equipes realizam as ações de limpeza nas margens dos igarapés e no rio, por meio de balsas e botes. Ações ocorrem na orla do São Raimundo, Panair, Manaus Moderna, Boca da Onça, Ponta Negra, Rodway, Educandos, entre outras áreas.

“A Semulsp também reforça a varrição das áreas próximas às orlas todos os dias no terceiro turno. Há também atividades de conscientização porta a porta, com os agentes de sensibilização e os ‘Garis da Alegria’ também nas feiras”, acrescentou o órgão sobre as ações de conscientização.

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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