Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019
TRATAMENTO

Centro de medicina indígena é opção para quem busca tratamento alternativo

Problemas emocionais, dores musculares, feridas, dor de cabeça, náusea, pedra nos rins e gastrite estão entre as doenças mais tratadas no lugar situado no Centro de Manaus



1498095_D6EFB428-29F4-4026-96E5-3F9C049CACB2.jpg Fitoterapia, o tratamento à base de plantas, dos indígenas é muito ampla e variada (Foto: Sandro Pereira/freelancer)
21/07/2019 às 08:59

Há dois anos foi inaugurado o primeiro centro de medicina dos povos indígenas no Amazonas, o Bahserikowi’i, localizado no Centro Histórico de Manaus. Embora o objetivo do espaço seja que as pessoas possam conhecer outras formas de tratamento a partir da sabedoria dos povos originários, as terapias indígenas seguem sendo encaradas como uma prática religiosa. Tanto que nenhuma delas figura entre as 29 Práticas Integrativas e Complementares (PICS) regulamentadas e oferecidas gratuitamente à população pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O coordenador geral do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi’i, João Paulo Lima Barreto (da etnia Tukano), diz que falta, além de mais pesquisas, um contato mais próximo por parte dos órgãos de saúde a respeito das técnicas terapêuticas tradicionais. “Não há um diálogo entre o poder público e os saberes dos indígenas para que haja uma integração, de fato. Isso é fruto de um processo longo de discriminação e não compreensão das práticas terapêuticas indígenas, que sempre foram colocadas numa lógica de feitiçaria, não como um conhecimento diferente, que engloba não somente a parte física das pessoas, mas o lado psicológico e espiritual. A ciência tem dificuldade de compreender esses outros saberes”, observa.



O atendimento no centro de medicina indígena é feito por um kumu (mais conhecido como pajé), que são os especialistas no conhecimento de plantas medicinais e no “bahsese”, popularmente chamado de “benzimento”, que é um conjunto de procedimentos para tratar todas as doenças. Esse é o tratamento mais recorrente no Bahserikowi’i, que custa o valor simbólico de R$ 50.

Logo na entrada da sede do Bahserikowi’i, espremido entre outros prédios históricos na rua Bernardo Ramos, ao lado do Paço Municipal, já encontramos uma prateleira repleta de medicamentos extraídos de ervas amazônicas “in natura” que, como ressalta João Paulo Lima, passaram por um benzimento do kumu, e que custam, em média, de R$ 20 a R$ 30 reais. O conteúdo dos pequenos frascos pode combater os mais diversos tipos de males de saúde, que vão de problemas estomacais a doenças de pele.

Ao contrário do que muitos podem pensar, quem mais procura as terapias oferecidas no centro são os não-indígenas, principalmente turistas, muitas vezes impulsionados pela curiosidade ou por desejar um tratamento diferente do convencional. “Para a nossa surpresa, 99% são de pacientes não-indígenas. Tivemos o caso de duas irmãs que vieram de São Paulo para se tratar aqui por orientação do médico delas. As pessoas que buscam outro modelo de tratamento já conhecem o centro indígena pela mídia ou pelas redes sociais”, disse.

Muita gente vai ao Bahserikowi’i também para saber como é um kumu, se ele usa cocar, colar, se ele faz o ritual dançando, como o pajé do festival folclórico de Parintins, mas não é bem assim. “O kumu é uma pessoa normal, que tem um conhecimento ancestral dentro dele”, explicou João Paulo Lima, que também é mestre e doutorando em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Em dois anos, o Bahserikowi’i já atendeu uma média de 2,3 mil pessoas. Problemas emocionais e psicológicos, dores musculares, feridas, dor de cabeça, náusea, pedra nos rins e gastrite estão entre as doenças mais tratadas no centro de medicina indígena.

Integrar as práticas é desafio

Uma demanda antiga dos povos originários é a criação de um hospital indígena em Manaus. Os médicos que atuam nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei) não costumam pôr dificuldade na integração entre a medicina convencional e as técnicas terapêuticas indígenas.

No entanto, um episódio envolvendo a sobrinha do coordenador geral do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi’i , João Barreto, trouxe esse debate à tona. Em 2009, a sobrinha dele quase teve o pé amputado por causa de uma picada de cobra. “Ela tinha 12 anos quando o ataque aconteceu numa comunidade do município de São Gabriel da Cachoeira (distante a 852 quilômetros de Manaus). Como o caso era grave, ela foi transferida para o hospital João Lúcio, em Manaus. Na época, a equipe médica avaliou que seria necessário amputar o pé dela”, recorda.

Foi então que a família da menina começou a mobilizar a equipe médica para não tomar essa medida e propuseram aliar o tratamento da medicina ocidental com medicina tradicional indígena, o que não foi aceita pela equipe médica. O conflito, que chegou a ser apaziguado pelo Ministério Público Federal no Amazonas (MPF-AM), terminou com a menina tendo um tratamento integrado no Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV). Em um mês ela teve alta e não teve o pé amputado.

O caso teve ampla repercussão na mídia e levantou o debate sobre a criação de uma lei estadual que assegure ao indígena o direito de ter um tratamento integrado nos hospitais públicos. “Já é possível encontrar espaços para tratamentos diferenciados aos indígenas, mas a discussão está presa nessa lógica de espaço físico, ainda não chegou no atendimento com técnicas terapêuticas indígenas. Uma coisa é um hospital indígena formado por médicos indígenas, outra coisa é termos um hospital indígena a partir da lógica dos especialistas indígenas (o kumu). Isso tem que ficar claro”, explicou João Barreto.

A respeito desse tema, a Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informou que, em relação ao tratamento indígena, alguns municípios já fazem o acolhimento mais humanizado e com a valorização da cultura e das crenças dos indígenas e ribeirinhos. Já nos hospitais públicos, está sendo feito um trabalho para “publicitar” esta forma de cuidado, informou a pasta sem dar mais detalhes de como essa conscientização vem sendo feita nas unidades de saúde do Amazonas.

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Repórter do caderno de Cidades - Jornal A Crítica

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