Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
PESQUISA

Estudo avalia condições de vida de moradores de rua em Manaus

Segundo pesquisa, maioria não quer deixar as ruas. Maior percentual de pessoas nessa condição está na faixa etária de 31 a 40 anos



show_show_DE_RUA_A00F272D-A968-436E-8B26-CC228F96AABC.jpg Foto: Arquivo/AC
20/09/2019 às 16:17

O que leva uma pessoa a morar nas ruas? Quais as condições de vida dessas pessoas? Um estudo científico buscou avaliar e apresentar essas questões de forma sistematizada a partir de uma investigação qualitativa voltada às condições de vida e saúde de pessoas em situação de rua na cidade de Manaus.

A pesquisa, finalizada em 2016, foi desenvolvida na época pela estudante do 5º período do curso Serviço Social, Nayara Campos,  e teve uma parte de resultados descritos no livro “(Sobre) Vivências nas ruas de Manaus”, que relata histórias, condições de vida e políticas públicas.



O projeto gerou continuidade no tema, em pesquisa enfatizando a questão da adesão ao tratamento em HIV pela população de rua, atualmente sendo desenvolvida por Lucélia Regina Araújo, aluna do 5º período de Direito,  sob a orientação da doutora em Serviço Social, Rosiane Pinheiro Palheta, da Secretaria Municipal de Saúde de Manaus (Semsa).

Diagnóstico

O estudo foi aplicado com 144 pessoas no Centro de Manaus  por meio de pesquisa de campo nas ruas, com o  apoio do Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro POP), da Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc).

Segundo Rosiane Palheta, algumas características foram observadas conforme o mapeamento: verificou-se nos resultados que, quanto ao gênero, a população em situação de rua, em sua maioria, é do sexo masculino, e  que o maior percentual de pessoas nessa condição está na  faixa etária de  31 a 40 anos. Pessoas acima de 60 anos registraram o menor número durante o período pesquisa.

A partir da análise dos dados, foi possível compreender as inúmeras estratégias de que as pessoas em situação de rua têm de lançar mão e as dificuldades que enfrentam no seu dia a dia para sobreviver. São pessoas que se encontram expostas a condições de vida precárias, sem acesso aos direitos básicos, entretanto, muitas delas optam por estar na rua por considerá-la o lugar de maior representatividade da proteção e da liberdade.

Rosiane explica que, em muitos casos, percebeu-se que a saída das ruas não é vista como em evento positivo ou não significa necessariamente melhoria de vida, pois a rua representa, por si, fonte de sobrevivência, trabalho e, sobretudo, espaço profícuo de relações sociais e estabelecimento de vínculos afetivos representativos.

“Durante a pesquisa, conversando com os moradores, muitos deles se acostumam com a vida na rua e maioria não quer sair. Quando se retira um indivíduo da rua, contra a sua vontade, há todo um processo, que muitas vezes não é o melhor caminho, quando a necessidade de reprodução de vida está vinculada à rua. São conhecidos alguns casos de moradores que foram retirados das ruas e não conseguiram se adaptar a outro estilo de vida; alguns até adoecem”, relata.

A questão das pessoas em situação de rua  na maioria das vezes está ligada a família, desemprego, conflitos familiares, dependência química, problemas psíquicos, abandono, rompimento de vínculos afetivos, dentre outros.

"A situação de rua tem um vínculo muito presente com as questões familiares, geralmente desencadeadas na infância. Em muitos depoimentos foram bem presentes situações de violência e estupro por algum membro da família, o que levou ao abandono do lar, como única forma de sair da situação de violência",  relata a pesquisadora.

Dados

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base nos últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de  2015, o Brasil tem 101 mil moradores de rua. Conforme a Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), em Manaus, a maior parte se concentra no Centro da capital amazonense  e não há dados sobre números oficiais dessa população.

Segundo Rosiane, os estudos sobre a chamada população de rua ainda são pouco conhecidos no Brasil devido à realidade de uma população itinerante, o que dificulta a contagem de maneira mais contundente, e à própria conceituação sobre o que seria o “morador de rua”.

"A percepção da população em situação de rua ainda necessita de um olhar mais atento e de políticas públicas que sejam dirigidas a este público, de maneira a minimizar a exclusão de toda ordem de que são vítimas. Sobretudo, de políticas de habitação e assistência social, que provenham abrigo e moradia àqueles que assim desejam sair das ruas", contou.

Para a estudante Lucélia Regina Araújo, que está em continuidade no trabalho, focando agora na questão da adesão ao tratamento em HIV pela população de rua, os projetos são a base para as mudanças de muitas realidades e, especialmente este, que abrange uma parte marginalizada da sociedade que também precisa de atenção e ajuda.

"Trazer maior qualidade de vida para eles futuramente através da pesquisa é o maior objetivo visado", relata Lucélia.

O trabalho foi realizado com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), por meio do Programa de Apoio à Iniciação Científica (Paic).

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