Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
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ESPERANÇA

Interioranos, indígenas e estrangeiros dividem sonhos em comunidade

Monte Horebe, na Zona Norte de Manaus, reúne 400 índios, de 30 etnias diferentes, 250 venezuelanos e 600 haitianos, segundo levantamento da Secretaria de Política Fundiária (SPF)


02/02/2019 às 15:30

De longe pode parecer que é a gênese de mais um novo bairro de Manaus; de perto, quem põe os pés nas ruas barrentas logo percebe as singularidades abrigadas por aquele torrão de terra batida de aproximadamente 769 mil metros quadrados, chamada há quatro anos de comunidade Monte Horebe, localizada no fim da segunda etapa do Viver Melhor 2, Zona Norte da capital. Lá vivem as Marias, Bias, Delcianes, Michelles, Júlios, Raimundos, moradores mal conhecidos pelo poder público, cujas vozes, lágrimas e testemunhos, de longe, se misturam e parecem ser um só, mas no fundo apenas desejam ser enxergados mais de perto.

Horebe, no hebraico, significa montanha. A denominação perfeita da comunidade, feita de subidas e descidas íngremes, onde brotam os casebres simples, feitos de ripa, tijolos sem reboco ou toras de madeira. Moradias de cerca de cinco mil famílias inteiras, que fazem daquele lugar o refúgio de, entre os que já viviam em áreas urbanas do Amazonas, 400 índios, de 30 etnias diferentes, 250 venezuelanos e 600 haitianos, segundo levantamento prévio da Secretaria de Política Fundiária (SPF).

Horebe também quer dizer lugar desértico. Outro significado que vem a calhar, pois ali, onde falta água encanada, energia elétrica, escola, hospital, saneamento básico, as barreiras culturais e linguísticas cedem lugar a um oásis de solidariedade e generosidade mútua que unem nativos e imigrantes numa só luta e num só sonho: o de ter um pedaço de terra para chamar de seu.

As faltas que ali têm são dribladas como podem. Se não há supermercados por perto, cada morador cultiva uma espécie de hortinha coletiva. Na frente das casas é possível ver mamoeiros, bananeiras, goiabeiras, cheiro-verde, tomates, cebolas. Quem não planta faz da própria moradia um pequeno comércio ou vende gelo para aqueles que fazem da caixa de isopor uma geladeira.

No Monte Horebe é assim: um morador supre a necessidade do outro para que não precisem se locomover tantas léguas para conseguir o que precisam. “O que um vizinho não tem o outro fornece, e cada um pega o que precisa nas hortas para própria família sem cerimônia. Aqui ninguém fecha as portas nem os olhos para a necessidade do próximo”, explica Maria de Jesus Santos, 44, uma índia da etnia Kokama, mais conhecida como Bia e que é representante das comunidades Monte Horebe 1 e 2 desde que ali era só mato.


Povos de várias etnias que fogem de tragédias maiores encontraram no local um refúgio. Foto: Junio Matos

Bia é uma mulher de voz mansa e firme, natural de São Paulo de Olivença (a 1.235 quilômetros de Manaus). Veio para a capital há quatro anos em busca de dignidade, ela e os cinco filhos, quatro adultos e uma criança de oito anos. Entre as dificuldades enfrentadas acabou chegando naquele pedaço de terra, até então uma área verde do Viver Melhor 2.

“Estamos há quatro anos lutando para que o governo olhe pra gente e nos traga um pouco de dignidade. Falta de tudo aqui, a energia elétrica e a água, que é o principal, né? Porque o povo aqui quer pagar por esses serviços. Já entregamos um abaixo-assinado das famílias da comunidade pra Eletrobras. Vieram aqui, fizeram todo o mapeamento da área, mas estão esperando a liberação do governo pra entrarem aqui com os postes”, comentou.

Esperança compartilhada pela dona de casa Maria Lúcia, 54, de Itacoatiara (a 176 quilômetros de Manaus), que mora na comunidade com os quatro filhos, sendo um deles especial, como ela mesma diz. “Por causa desse meu filho tinha que ficar sempre vindo à capital pra buscar um melhor tratamento nos hospitais daqui, mas eu não tinha condições de ficar indo e voltando pra minha cidade. Decidi me mudar pra cá de vez na cara e na coragem. Com pouco dinheiro pra pagar aluguel e sem lugar pra morar, eu e minha família viemos morar aqui há quatro anos”, relata.

Esperança

Bia se diz satisfeita com as visitas da SPF. “Até mostramos onde pode ser construída uma escola, um posto de saúde e uma quadra”,  disse, sorrindo, e completou falando em sua língua nativa “kwarach kuash muki tseran”, que logo em seguida ela traduziu: “dias melhores virão”.

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O drama de Michelle

De um lugar ainda mais distante, mora na localidade também a médica ginecologista haitiana Michelle Diaz, 51. Nascida em Porto Príncipe, capital do país caribenho, Michelle conta que veio de uma família de classe média. Antes do terremoto de 2010, que agravou a crise a qual o país já passava há muitos anos, ela vivia com o pai médico, a mãe, empresária, e mais dois irmãos jornalistas, que hoje vivem exilados nos Estados Unidos por, segundo ela, terem publicado no jornal local reportagens que desagradaram o governo haitiano.


Enganada por sócios em comércio de  Manaus, médica foi acolhida por índios. Foto: Junio Matos

Fluente em francês, italiano, espanhol e um pouco de alemão, Diaz relata, misturando um pouco de cada língua, que durante um período morou na Sicília (região meridional da Itália) para complementar os estudos. Após o terremoto que atingiu o Haiti, veio para o Brasil em busca de condições melhores. Passou por São Paulo e há cinco anos vive em Manaus.

“Aqui abri um comércio na [avenida] Constantino Nery e dei emprego pra muita gente. Um dia, quando montei uma sociedade com um casal que trabalhava comigo no comércio, eles me expulsaram e ficaram com tudo. Morei três meses na rua, dormia no T1 [Terminal 1]. Nesse tempo fui acolhida por uma família indígena, que eu ajudava quando tinha o meu comércio, e eles me trouxeram para o Monte Horebe. Lembro que ainda não tinha ninguém aqui. Eu dormia no meio do mato, mas me sentia mais segura que quando eu dormia na rua”, contou, com a voz entrecortada por lágrimas.

“Se você visse em que condições eu dormia, você também choraria”, disse Michelle, que tentou exercer a medicina no Brasil, mas, segundo ela, não conseguiu validar o diploma.

Diaz não é um caso isolado de mão de obra qualificada desperdiçada vivendo na comunidade. “Tem haitiano aqui que é engenheiro, arquiteto, professor; haitiano que você vê na rua vendendo picolé, todos eles têm profissão. Somos imigrantes e pedimos que o governo veja nossa situação e nos ajude”, clama.

Governo do AM avalia a regularização

No começo do ano, o governo estadual, por meio da SPF, iniciou o levantamento das áreas ocupadas em 13 comunidades nas zonas Norte, Oeste e Leste. Equipes de engenheiros, técnicos de vistoria e assistentes sociais começaram a fazer um diagnóstico físico e social das localidades. O mapeamento das áreas de risco e de preservação é feito por GPS.


Como as outras ocupações irregulares, o local sofre com a falta de infraestrutura básica. Foto: Junio Matos

Uma das orientações da SPF aos moradores do Monte Horebe é que não haja mais expansão, nem da área nem do número de moradores, para facilitar ainda mais o processo de regularização. “Eu sempre vou pessoalmente às comunidades e apresento a equipe técnica para as lideranças. É fundamental trabalharmos juntos para termos um diagnóstico físico, social e ambiental que traduza a realidade. Oriento as comunidades para o cuidado ambiental e consolidação da população sem a entrada de mais ocupantes para assim poder mostrar os dados atualizados ao governo”, explica a secretária da SPF, Keith Maciel da Gama.

Após os relatórios técnicos serem concluídos, a partir de março a assessoria jurídica da SPF fará a análise de documentos para saber de quem é o domínio da área para, enfim, iniciar o processo de regularização.

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