Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2021
TRABALHO DE RISCO

Jornalistas do AM vivem drama da cobertura da pandemia e declínio da saúde mental

Profissionais da comunicação lidam com sequelas da doença, perda de familiares e outros problemas para manter o povo amazonense informado. ‘Nunca pensei que minha profissão fosse me adoecer tanto’, disse jornalista entrevistada



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16/01/2021 às 08:00

O jornalismo, assim como outras áreas, vem sofrendo com a perda de profissionais da imprensa para o coronavírus. Além dos desafios impostos pelo próprio vírus, os profissionais da comunicação enfrentam diariamente coberturas em hospitais, cemitérios, coletivas, arriscando a vida para levar a informação a população amazonense.

Apesar da adoção de todos os protocolos de segurança, muitos jornalistas amazonenses acabam sendo infectados pela Covid-19 devido ao alto teor de transmissibilidade. Após duas semanas com o vírus, a jornalista amazonense Marhia Edhuarda Bessa, de 20 anos, conta que enfrenta uma batalha diária contra as sequelas que o vírus deixou.



"Eu tive [Covid-19] há duas semanas, então as dores que, eventualmente sinto, são sequelas. É normal. Mas, a ansiedade transforma as dores em algo surreal. Eu já fiz tomografia essa semana no [Hospital] 28 de agosto, meu pulmão está bem. Está 10% comprometido da Covid-19, igual há duas semanas. Então quer dizer que não está piorando. Mas, entender isso no meio de uma crise é complicado", contou a jornalista.


Mahria não imaginava a dificuldade que teria ao vivenciar a pandemia de perto, fazendo cobertura jornalística. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal

A pandemia da Covid-19 obrigou muitos profissionais a mudarem sua rotina de trabalho. Com os jornalistas, não foi diferente e muitos tiveram que adotar o sistema de home-office. Porém, para Bessa, a doença afetou também o seu psicológico.

"Ando muito ansiosa com minhas sequelas e ainda tem toda a enxurrada de notícias. Eventualmente preciso escrever sobre a doença. Aí piora né. As crises estão me matando. Eu já saquei que eu fico viva ou fico viva, porque o sistema de saúde está colapsado", contou Bessa.

A jornalista ainda defende que assim como os profissionais de saúde têm prioridade no grupo de vacinação, os profissionais da comunicação também deveriam estar como prioridade para o Governo Federal, quando for iniciada a imunização no país.

"Ressalto que tem sido horrível ser jornalista no meio desses casos. Nunca pensei que minha profissão fosse me adoecer tanto. E por conta disso, acredito que nós deveríamos ser prioridade para tomar a vacina também", defendeu a amazonense.

O desafio das coberturas

Para a fotojornalista do A CRÍTICA, Maria Luiza Dácio, as coberturas jornalísticas, principalmente nos últimos dias, tem sido verdadeiros desafios para a profissão.

"A minha maior questão em relação ao Covid-19 foi que eu tive poucos familiares que tiveram e, destes poucos, foram apenas sintomas leves. Minha mãe é do grupo de risco, é hipertensa. E toda essa situação da pandemia, afetou minha saúde mental. Me senti bastante ansiosa e mal com essa situação. Na noite da última quinta [14], eu estava de plantão. Fui cobrir a transferência de pacientes para Teresina, por meio do avião da FAB. Eu chorei do início ao fim. Não tive estrutura nenhuma ao ver os pacientes indo para longe de suas famílias para sobreviver. Foi uma situação muito ruim. Quando eu cheguei [em casa], não consegui dormir", contou a fotojornalista.


Foto: Arquivo Pessoal/Maria Luiza Dácio

Maria Luiza ressaltou ainda que a situação foi tão impactante que resolveu se reunir com amigos para arrecadar insumos para os hospitais da capital.

"Uma hora da manhã liguei para alguns amigos que relataram também que não conseguiram dormir por conta da falta de água nos hospitais. Saímos de casa para procurar lugares que vendiam água. Conseguimos doação de R$ 106 que transferiram para gente. Eu também tinha um dinheiro guardado e resolvi doar. Compramos quase 180 litros de água e distribuímos no Hospital 28 de Agosto, da Maternidade Ana Braga e nos SPAS da Alvorada e da Redenção. Ver tudo isso, é de partir o coração", descreveu a fotojornalista.

Perdas familiares

O radialista Adriano Silva é outro jornalista amazonense que, apesar de não ter sido infectado pela Covid-19, está com a saúde mental totalmente abalada por ter perdido três familiares em menos de uma semana: a mãe, o tio e a prima. Sendo esta última para o coronavírus.

A mãe de Adriano foi a primeira a partir, no dia 8 de janeiro, por complicações na hemodiálise, devido ser diabética. Ao lado de sua mãe, que estava internada no Hospital e Pronto-Socorro (HPS) 28 de agosto desde a última semana de dezembro, Adriano relata que já estava um caos na unidade hospitalar.

"Como eu vivi isso de perto dentro do 28 de Agosto, eu tenho a dizer que essa situação é bastante assustadora, sabe. Eu cansei de ver corpos sendo levados para o necrotério do hospital. Eu não conseguia imaginar que eu iria passar por essa situação com a minha mãe. Eu me pegava com Deus. Pedia muito pra que ele não deixasse esse vírus atingir a minha mãe e que se ela viesse falecer, fosse da doença renal. Não de Covid-19. Para que pudéssemos fazer um velório digno para ela e que poderíamos receber os familiares para o último adeus. E assim se concretizou no tempo de Deus", contou Adriano.


O jornalista Adriano passa pela experiência de perder membros da família para a Covid-19. Foto: Divulgação/Arquivo Pessoal.

Logo após completar uma semana da morte de sua mãe, Adriano recebeu a notícia que seu tio - irmão da mãe - não havia resistido a uma pneumonia e acabou morrendo também. Adriano acredita que o quadro do tio tenha piorado por conta do psicológico abalado pela morte da sua mãe.

"Meu tio estava doente desde início de dezembro. Daí quando a mamãe internou, isso mexeu muito com o psicológico dele. Ele sempre estava na minha casa e nos finais de semana era de certeza que viria. Fazíamos almoço e passávamos o dia brincando de dominó entre nós mesmo familiares. Daí teve o agravante de uma tosse no período que a mamãe estava internada e ele não buscou atendimento médico. Minha mãe faleceu e ele veio no velório e já notamos que ele estava um pouco debilitado fisicamente. No dia seguinte ele piorou”, relatou.

“Não teve outro jeito, minha tia o levou para uma UBS, mas não teve sucesso no atendimento. Por volta das 3h da madrugada, minha tia liga informando que ele veio a óbito", descreveu o jornalista.

E na última quinta-feira (14), data que marcou o caos da falta de oxigênio hospitalar, Adriano teve a terceira perda na família. Sua prima que estava na batalha contra a Covid-19, não conseguiu resistir a doença e morreu no leito hospitalar. Para Adriano, um dos elementos que deram força para ele, foi sua família e o apoio assistencial do HPs 28 de Agosto.

"Minha mãe me preparou, sabe? Conversamos bastante. Ela era minha amiga além de mãe. Meu pai foi o meu suporte, uma prima e uma tia. O apoio do serviço social do 28 de agosto foi essencial a assistente social Ceiça Dias foi maravilhosa fui bem assistido. É o próprio setor mesmo sempre se dispuseram a ajudar todas às vezes que eu precisei", contou Adriano.

A "energia" da pandemia

Para o terapeuta holístico, Richard Borges, a energia "pesada" que muitos amazonenses estão sentindo, entre eles os jornalistas que estão cobrindo pautas na linha de frente da pandemia, pode ser explicado astrologicamente.

"É importante a gente entender que todo esse caos, essa energia, não é só uma realidade e tão pouco vai terminar ainda por agora. Quando temos esse questionamento se astrologicamente tem algo acontecendo, como uma influência divina disso tudo, notoriamente não só. É um comportamento astrológico que já vem sendo previsto há um tempo que vai perdurar pelo menos no primeiro semestre do ano”, revela.

“Naturalmente quem está na linha de frente, como os profissionais de saúde, bem como os profissionais da comunicação, infelizmente sofrem esses impactos. Observamos esse inconsciente coletivo de medo, preocupação, essa falta de ar que a gente acaba sentindo é no mínimo sufocante", descreveu o terapeuta.

Richard Borges recomenda também que os profissionais da comunicação devem reservar um período da rotina do trabalho para fazer alguma atividade que ajude a humanizar essa energia pesada.

"Devemos entender que cada pessoa tem uma concepção de fé. Recomendo para todas as pessoas, tirar pelo menos cinco minutos da sua rotina e fazer suas orações pessoais. Se reconectar com o tipo de fé e crenças que cada um tenha. Fazer atividades no próprio ambiente de trabalho que humanizem sem estar se ligando a essa energia do contexto geral negativo. É uma fase que a sociedade geral está passando. Naturalmente fica uma energia pesada. Incensos, óleos essenciais, um abraço, que seja, já ajuda a passar por isso. Além da ajuda de um psicólogo, um coach, um profissional que possa ouvir essas pessoas que estão cobrindo essas notícias que carregam essa energia", recomendou Borges.


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