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Manaus
ÍNDIOS URBANOS

Longe das aldeias, indígenas lutam para manter cultura em comunidades de Manaus

Mesmo vivendo em um cidade com mais de dois milhões de habitantes, indígenas se esforçam para manter “parceria” com a natureza, preservando e plantando culturas de consumo e medicinais 09/08/2018 às 03:49 - Atualizado em 09/08/2018 às 09:33
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Foto: Euzivaldo Queiroz
Nelson Brilhante Manaus (AM)

Nem tudo está perdido, ou desmatado. Das 13 comunidades de indígenas que deixaram as malocas e vieram morar na cidade de Manaus, nem todas mantêm os costumes e tradições religiosamente cumpridos em seus locais de origem. Algumas áreas de concentração indígena foram “dizimadas” pela oferta imobiliária, perderam a identidade e a “parceria” com a natureza, deixando de preservar e de plantar culturas de consumo e até medicinais. Mas outras ainda se seguram nas tradições, mesmo vivendo numa cidade de mais de dois milhões de habitantes.

Na comunidade Sol Nascente, no bairro Francisca Mendes 2, Zona Norte, não há mais nenhum sinal de que ali moram indígenas, num local inicialmente dominado por silvícolas das etnias miranha e baré. “Eles venderam todos os terrenos e hoje não tem nenhuma árvore e, para quem não sabe, parece que não mora mais nenhum índio aqui”, conta Maria Corrêa da Silva, 72.

Maria veio do Alto Solimões e é mãe do cacique Eledilson Corrêa, da etnia caixana, que abandonou a condição de cacique, decepcionado com a invasão dos “brancos” na área. “Quando os brancos entraram aqui, ficou difícil pra ele. Houve até ameaça de morte e ele desistiu. Tentou me deixar como líder, mas não fui aceita porque já estou velha. E o que vocês estão vendo é isso, não tem nenhuma árvore”, reclama Maria, mãe do ex-cacique.

Já na comunidade Nações Indígenas, no bairro Tarumã, Zona Oeste, a situação é totalmente inversa. Três ruas, sem água, sem pavimento e sem iluminação pública, abrigam 13 etnias. E as margens de cada rua são tomadas de árvores frutíferas de vários tipos, além de plantas medicinais.

Os tukanos e os barés ainda se alimentam do que é produzido na comunidade. Na rua Axima Açu, Comunidade das Nações Indígenas, mora a mura Solange Reis, 46, natural de Borba. Em sua casa vivem 15 pessoas. Ela sustenta todos com um pequeno comércio e com a venda de frutas colhidas em seu terreno. “É bom morar aqui, não tem briga, mas ainda falta energia, água e asfalto”, reclama a tukana Marilda Corrêa Costa, 36.

Pedro dos Santos, 67, uma espécie de sub-líder da Nações Indígenas, comunidade que reúne 223 famílias indígenas, destaca o grande número de árvores frutíferas  na área.“Essa é a nossa raiz, faz parte do nosso mundo cuidar e respeitar as coisas da natureza, a nossa mãe. Só temos plantas frutíferas para gente se sustentar, dar para os ‘parentes’”, destaca o indígena, natural de Borba, e cuja filha é professora nheengatu.

União e organização para não perder a cultura

As terras indígenas são ou deveriam ser os trechos mais bem conservados de floresta do planeta. Elas, enquanto ocupadas por silvícolas, atuam como barreiras ao avanço do desmatamento em diversas partes da Amazônia, mantendo a floresta em pé. Na cidade, elss plantam as suas florestas em terras que só passam a ser, definitivamente deles após mais de sete anos de ocupação.


Área onde fica as Nações Indígenas lembra sítios do interior, com muitas árvores e quase nada de infraestrutura básica. Foto: Euzivaldo Queiroz

Segundo Marcos Santos Cavalcante Guerreiro Moura, 40,  da comunidada Nações Indígenas, “índio não desmata, ele floresta ou refloresta”.  “Muita coisa do que produzimos é para ‘parentes’, como os índios costumam se identificar. Mesmo dentro de Manaus não vamos perder nossa cultura e deixar de ajudar nossos ‘parentes’”,  afirma Moura. 

José Augusto Alves dos Santos, presidente da Associação das Comunidades das Nações Indígenas (ACNI), cacique miranha e morador da comunidade Paraíso Tropical, no bairro Tarumã, disse que tenta manter os “indígenas urbanos” unidos, reunindo as lideranças todo segundo domingo de cada mês. “Nossa comunidade foi toda reflorestada”, garante o cacique. Na sua comunidade moram cerca de 300 famílias de 12 etnias.

Número de índios sextuplicou em 11 anos

De acordo com censo feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2007,  menos de sete mil pessoas se declararam indígenas em Manaus. Onze anos depois,  eles já somam 45 mil, divididos em 18 comunidades, que abrigam 36 etnias. Os números foram divulgados em abril deste ano na assembleia geral da Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime). O coordenador da Copime, José Augusto dos Santos, não poupa críticas quando fala da grande migração.

“As instituições estão criando vários projetos usando nome do índio, mas não fazem nada. Prometem saúde, educação e emprego, mas é tudo enganação. Só para ficarem com as terras. Aí o índio vem pra Manaus e fica a mercê da sorte”, detonou o cacique miranha. "A Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia) foi criada para garantir o nosso direito, mas só serve pra captar recursos e aplicar onde não deveria. Somos mais assistidos por órgãos como as defensorias, corregedorias e  Ministério Público Federal (MPF),dentre outros, que defendem o nosso direito a moradia”, concluiu o cacique.

Tentamos contato com a coordenadora geral da Coiab, a baré Francinara Martins, pelos telefones com terminação 5984 e 3762, mas não conseguimos.

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