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Manaus
REFUGIADOS

Manaus está na rota da imigração dos cubanos que buscam 'nova vida'

Mudanças na conjuntura política do país caribenho colocaram a capital amazonense no roteiro de entrada deles pela América do Sul, via Guiana. Em 2017, 2.373 solicitações de refúgio no Brasil foram feitas por cubanos 29/04/2018 às 12:44 - Atualizado em 29/04/2018 às 14:08
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Eugênio recebeu apoio de brasileiros para tirar os documentos. Foto: Antonio Lima
Lívia Anselmo Manaus (AM)

Há um mês, Manaus deixou de ser rota de passagem para se tornar moradia a uma família de cubanos que pretendia atravessar o Brasil em direção ao Uruguai. Como eles, muitos são os que têm passado por aqui ao deixar Cuba em uma rota que, desde 2015, aumentou a frequência do povo caribenho da ilha no País.

O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) do Ministério da Justiça (MJ) registrou o aumento da entrada de cubanos por meio dos pedidos de refúgio. Em 2016 eram 1.637 solicitações. Os dados mais recentes, de 2017, mostram que esse número aumentou para 2.373 solicitações de refúgio, o que deixa o povo cubano atrás somente dos venezuelanos em quantidade de pedidos de refúgio no Brasil nos últimos dois anos.

Comparando os dados do ano passado com 2015, o número de cubanos que pediu ao Conare o reconhecimento do status de refugiado aumentou 352%. Antes, segundo o Conare, de 40 a 145 cubanos batiam na porta do conselho por ano.

A “nova” rota inclui a saída de avião de Havana até Lethem, na Guiana. Eles fazem a travessia a pé pela fronteira brasileira chegando em Bonfim e, finalmente, vão a  Boa Vista, capital de Roraima. De lá, eles começam a se distribuir pelo País. A maioria segue viagem para São Paulo e Rio Grande do Sul para então ir a Montevidéu, no Uruguai, e tentar ir aos Estados Unidos da América (EUA). Mas há quem também busque entrar em países vizinhos como Peru, Colômbia e Chile.

Outros, no entanto, vão ficando pelo caminho brasileiro na esperança de recomeçar.  Esse  é o relato e a realidade da família de Yaima e Eugênio Barrero, que ficaram com filho Luiz Rafael, de 11 meses, em Manaus. Eles contam a dificuldade e perigo do caminho para  chegar à capital do Amazonas, que não era o destino final, mas acabou se tornando.

Com US$ 3,5 mil, eles deixaram  a ilha caribenha motivados pela crescente onda de migração entre os países da região da América Latina e Caribe e a insatisfação com a política econômica do país. “Para nós, não estava sendo bom continuar vivendo em Cuba porque é um país onde se ganha muito pouco com o trabalho”, resume Eugênio, que tem 55 anos.

O dinheiro seria suficiente para chegar até a capital uruguaia, se não tivesse sido roubado na fronteira onde há uma intensa atividade de “coyotes” ilegais e ladrões, como relata Eugênio. “Nos roubaram quase tudo. Só não roubaram o que minha mulher levava no corpo. É um caminho muito perigoso e tivemos medo. Quando chegamos ao Brasil fomos melhor acolhidos”,  conta.

Hoje, em um quitinete alugado com a ajuda de pessoas que cruzaram o caminho da família, eles seguem com sonho de recomeçar a vida. “Nós queremos trabalhar e ganhar o nosso dinheiro, foi por isso que viemos. Estamos em busca de qualquer tipo de trabalho e querendo aprender português”, conta Yaima, de 33 anos. Ela tem conseguido trabalhar como diarista e com o pouco que ganha consegue comprar comida.

Acolhimento

O que fez com que  o casal desistisse do sonho de ir aos Uruguai e depois aos EUA para ficar em  Manaus foram os encontros e o acolhimento que sentiram. “Hoje estamos sobrevivendo com a ajuda de duas famílias que nos entendem, nos ajudam a ir atrás dos documentos e temos esperança de que vamos conseguir prosperar. Sou muito grato a quem nos ajuda”, afirma Eugênio.

A política brasileira para refugiados permite que mesmo com o pedido em análise os estrangeiros tenham direito a emitir a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) e Cadastro de Pessoa Física (CPF).  Enquanto aguardam a resposta do governo brasileiro, eles têm autorização para trabalhar legalmente no País. “Encontramos ajuda aqui e não quero mais correr risco indo ao Uruguai”, diz Yaima, que no próximo mês comemora o aniversário de um ano do filho.

No mesmo grupo da família havia outras seis pessoas. Segundo o casal, todos eles decidiram seguir viagem até São Paulo e Porto Alegre. “O que nos dizem é que o Uruguai está  bom para conseguir ir até os EUA, então muitos cubanos que querem ir para lá estão fazendo esse caminho. No nosso caso, decidimos ficar e buscar trabalho aqui”, conta Eugênio.

No Amazonas, desde 2017, foram 328 registros de pedidos de refúgio feitos por cubanos. Segundo o delegado federal Ricardo Raposo, da Delegacia de Polícia de Migração, eles têm sido acolhidos conforme a Lei do Migrante e em trabalho com o  Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). “Todo o trabalho que temos feito é de regularizar essas pessoas e prestar a assistência para que elas consigam ter os documentos que precisam para ficar legalmente”.

Fatores

O processo de migração na América Latina do povo caribenho, especificamente cubano, é antigo  e, recentemente, motivado por três fatores. Segundo a  professora doutora Kátia Couto, especialista na História do Caribe, que atua na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a rota que inclui Manaus tem sido mais utilizada desde que o então presidente dos EUA Barack Obama eliminou a “política pés secos/pés molhados”, que permitia a todo cubano que chegava à fronteira ter caminho aberto para o refúgio e residência permanente. “Com as portas mais fechadas, eles procuram outras rotas, que agora inclui o Brasil”, ressalta a professora.

Além disso, a recente mudança na Lei de Migração do Brasil, que desde novembro passado se pauta pelos direitos humanos,  se tornou um atrativo para quem, historicamente, possui a cultura de migrar. “Existe uma política que é muito mais humanitária e permite que eles sejam primeiro acolhidos e só depois haja qualquer julgamento de pessoa e decisão sobre a permanência ou não”, afirma Kátia Couto.

A reforma migratória cubana de 2013 é outro fator que influencia na crescente onda de migração cubana A reforma permitiu que o povo cubano tivesse acesso a diferentes países da América Latina, podendo ir além dos EUA.

328

Esse é o número de cubanos que, entre 2017 e 2018, realizaram o pedido de refúgio  pela Delegacia de Polícia de Migração da Superintendência de Polícia Federal no Amazonas. Nos últimos dois anos, somente os pedidos de venezuelanos, cujo país está em severa crise política e econômica, estão acima dos cubanos.

Kátia Cilene do Couto, pesquisadora da Ufam

O caribenho é um povo que, historicamente, migra. As influências de regimes imperialistas exploratórios deram a eles essa característica. No caso de Cuba, no passado, a questão política e econômica levava eles aos EUA. E isso reflete até hoje porque se criou uma influência de  um familiar no país norteamericano que  faz com que eles continuem motivados a migrar. Então  é comum que haja essa predisposição a se deixar a ilha quando não se concorda com o a política econômica, que é o que acontece hoje. A crise econômica atinge vários países na América Latina e a onda migratória tem se espalhado. Antes o roteiro cubano era  diretamente os EUA por conta da proximidade e da relação histórica. A rota pela   Guiana existia antes e agora o Brasil entra nela. Isso faz com quem alguns continuem em viagem, mas outros vão ficando também por conta da relação entre os países, a cultura que também se aproxima e a própria política migratória brasileira.

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