Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2021
História do Amazonas

Museu da Catedral Metropolitana de Manaus guarda acervo raro

Templo secular erguido em homenagem à Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Amazonas, mantém relíquias que vão de peças do século 17 a artefatos sacros utilizados por São João Paulo 2º



museudacatedral3_3C62310B-45DF-4444-A0FB-F46E0EFA35C8.jpg Berlinda em homenagem à Nossa Senhora da Conceição e o Cristo Crucificado impressionam no Museu da Catedral / Fotos: Euzivaldo Queiroz
16/08/2020 às 10:57

A Catedral Metropolitana de Nossa Senhora da Conceição, também conhecida como Igreja da Matriz, possui um museu atualmente fechado ao público devido à pandemia do Covid-19, mas que guarda verdadeiras relíquias religiosas da história do Amazonas.

O templo remonta à antiga capela de 1695 construída pelos missionários carmelitas. O prédio atual foi inaugurado em 1877, depois que o antigo foi destruído em um incêndio. O local onde estão expostas as peças fazia parte da sacristia da igreja e passou a ser utilizada como museu a partir da última reforma da Catedral, em 2001, com a equipe que trabalhou no restauro e na configuração paisagística espacial do templo permitiu e deixou, de legado, essa parte para o museu para guardar algumas partes do acervo histórico e peças sacras.



Estão expostas, por exemplo, as peças que sempre saem às ruas na celebração de procissões como Via Sacras da Sexta-Feira da Paixão e do Senhor Morto, do Senhor dos Passos (que é articulado), de Santa Verônica, de Nossa Senhora das Dores (que exibe um lenço com a face de Jesus). Todas de origem francesa e oriundas do final do século 19, pertencentes à Irmandade do Santíssimo, que é secular no Amazonas e que zelam e as conduzem nas procissões da Sexta-Feira da Paixão.

No local estão peças célebres como a cadeira, que é a cátedra na qual São João Paulo 2º sentou durante a missa realizada na Bola da Suframa quando da sua visita a Manaus em 1980.

Há a berlinda da Imaculada Conceição, que remonta aos anos 70 do século 20, em forma de canoa confeccionada em madeira e com adornos amazônicos e que sai todos os anos em 8 de dezembro, data da padroeira do Amazonas.

Pode-se visualizar as vestes litúrgicas de variadas cores e sapatilhas que pertenciam a antigos sacerdotes e bispos que passaram pelo Estado como por exemplo dom José Iriney Joffly e dom Clóvis Frainer. Casulas e estólas estão lá.

Quadros que retratam os anjos de São Miguel, São Gabriel e São Rafael estão nas paredes, junto com imagens de bispos antigos da Diocese de Manaus como dom José Lourenço da Costa, dom Frederico, dom Benício da Costa, dom José Irineu Joflly e dom João da Mata Amaral.


Imagem do Senhor dos Passos, que é feita em madeira e articulada; à direita, a cadeira utilizada por São João Paulo 2º na visita a Manaus em 1980

Lá você pode encontrar objetos curiosos como uma espécie de cápsula do tempo: uma carta encontrada dentro de uma garrafa de vidro datada de 5 de fevereiro de 1862 e escrita por uma pessoa que se identificou como mestre de obras Francisco Canejo. O achado ocorreu durante as escavações arqueológicas realizadas em 2001.

 Nela, está escrito em caligrafia de época: “Eu, Francisco Canejo, foi quem edificou esta igreja. Veio no ano de 1859, em 8 de outubro. Oficial de pedreiro encaminhado nas cinco ordens de arquitetura. Ordem filho de Caxias. Esta foi com minha própria o defunto Francisco Canejo, idade 44 anos”. 

Imagem rara

Mas a principal relíquia é mesmo a imagem de Nossa Senhora da Conceição que é datada, segundo alguns estudos, do século 17: ela está exposta em uma redoma de vidro, sendo considerada a peça sacra mais importante do Amazonas, destaca Bruno Miranda Braga, agente de pastoral formado em licenciatura em História e Mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e atualmente doutorando em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).


A escultura de Nossa Senhora da Conceição: relíquia da história do Amazonas, ela é datada do século 17 e considerada a peça sacra mais importante do Estado

“A imagem de Nossa Senhora é o artefato religioso e histórico mais antigo da cidade, da época das fundações da Vila de São José da Barra do Rio Negro ainda, que deu origem posterior à região onde está Manaus. Segundo o historiador Mário Ypiranga Monteiro essa seria a imagem que foi salva da capela de madeira que pegou fogo ainda no século 19. Mas outros historiadores e pesquisadores já afirmaram que possivelmente é a imagem que foi trazida pelos carmelitas ainda nas fundações da Vila de São José da Barra do Rio Negro na colonização, do que hoje é Manaus”, informa o historiador do secular templo.
 
“Ela é uma peça bem conservada, como podemos ver, em madeira policromada, o véu e o manto são em tecido de algodão com brocados de ouro. Ela está aí nisso que nós chamamos de prospecção arqueológica que foi o que foi feito e deixado na última restauração para mostrar os diferentes materiais que passaram aqui na sua construção. Até porque esse templo levou 20 anos para ficar pronto, e os arqueólogos acharam oportuno deixar essa prospecção para mostrar os diferentes materiais como a taipa, pedra, calcários”, comentou sobre a obra, testemunha das profundas transformações vividas pela capital, passando pelo período áureo da borracha e seu posterior declínio, até os dias atuais. 

João paulo 2º

Todo o acervo é raro e significativo, mas é inegável que, em uma linha de importância, a imagem de Nossa Senhora é a primeira em imponência e, a seguir, vem a cadeira utilizada por São João Paulo 2º. “Hoje sim por ele ser um santo: não é mais o santo padre, mas São João Paulo 2º, santificado, onde houve todo um cânone em cima dele”, declarou o agente de pastoral e historiador.

O local também abriga relíquias como o ostensório utilizado na missa realizada na Praça Francisco Pereira da Silva, a Bola da Suframa, em 11 de julho de 1980. 

Outra peça referente a São João Paulo 2º não está no museu da Catedral, mas integra o conjunto arquitetônico do templo: trata-se das pedras de mármore do altar-mesa principal que foram consagradas por ele durante celebração na Catedral em 10 de julho de 1980. O altar, em questão, só foi montado tempos depois da visita dele.

Ainda não há previsão de quando o Museu da Catedral será aberto ao público novamente, informou a assessoria de comunicação da Arquidiocese de Manaus.

Menino teria salvado imagem das chamas

O Museu da Catedral   também abriga histórias bastante curiosas. Uma delas é a lenda envolvendo a famosa imagem de Nossa Senhora da Conceição na qual um garoto teria salvado a imagem das chamas após o incêndio.


O agente de pastoral e historiador Bruno Miranda Braga

“Quando o então templo de madeira pegou fogo, segundo uma ideia levantada pelo historiador Mário Ypiranga Monteiro, que é uma lenda na verdade, um menino teria entrado correndo em meio às chamas para salvar a santinha do seu altar e impedí-la de pegar fogo. Hoje, a santinha está na redoma”, disse o agente de pastoral e historiador Bruno Miranda Braga.

No entanto, ele acrescenta que não há nada documentado confirmado o feito do garoto. “Mas é uma hipótese plausível também”, acrescenta ele.

Em números

142

Anos completou, no último dia 15, a Catedral Metropolitana de Manaus, um verdadeiro templo dedicado à religiosidade do Estado do Amazonas e que guarda um inestimável museu com valiosas relíquias.

Mausoléu guarda três bispos

Um antigo mausoléu localizado à direita da entrada da Catedral Metropolitana de Manaus guarda os restos mortais de três importantes religiosos: dom José Lourenço da Costa, primeiro bispo da Diocese de Manaus, de dom Jackson Damasceno, primeiro bispo-auxilar amazonense manauense e de dom Milton Corrêa.


O antigo mausoléu está localizado à direita da entrada da Catedral

“De dom Milton e dom Jackson há os corpos completos; já de dom Lourenço só os restos mortais trazidos de fora do Estado por um irmão dele, João Fernandes da Costa Aguiar, que foi quem doou o mausoléu para a Catedral em 5 de julho de 1905”, explica Bruno Miranda Braga.

Segundo ele, guardar os corpos de religiosos em mausoléus de templos religiosos era uma prática antiga e bíblica, que segue uma tradição judaico-cristã na qual a Igreja guarda os seus ossos, os ossos de seus entes. No próprio Vaticano, a Basílica de São Pedro guarda os restos mortais dos papa, inclusive do próprio São Pedro, que foi o primeiro papa.

Acervo vivo

“A própria Catedral é um acervo vivo, de história. É por sí só um museu em sua completude, que guarda partes da nossa história apesar de todas as interferências e intervenções. A Catedral foi a primeira obra pública da Província do Amazonas e é anterior ao Teatro Amazonas. Aqui você entra e já sente aquela coisa diferente, um impacto. Todo um material que foi passado aqui nos seus 20 anos de construções”, disse ele.

Análise

Bruno Miranda Braga, historiador

“Penso que o acervo do Museu da Catedral está intimamente ligado com a própria história da cidade, pois quando pegamos para analisar tanto Manaus quanto o Brasil, principamente do Segundo Império, século 19, havia um sistema que era chamado de ‘Padroado’, e quando a gente toma para pensar a cidade naquele momento ela não está fora desse sistema e era representado por esse prédio, por esta Catedral. Então, o museu tem uma parte desse contexto histórico do Segundo Império brasileiro e, também de Manaus e da província do Amazonas como um todo. Tanto que agora, dia 15, o templo fez aniversário. Foi benzido e sagrado em 1877. A construção terminou em 1876 segundo os relatórios de presidentes de província e comissões de obras públicas. Porém, a benção de dedicação do templo, que é um ato litúrgico para poder se prestar o culto público se deu em 14 e 15 de agosto de 1877. Aqui foram sediadas, inclusive, as eleições pois aqui era a sede do colégio eleitoral de Manaus até então”.

Blog

Padre Hudson Ribeiro, pároco da Catedral de Manaus

“O Museu da Catedral é tão importante para os paroquianos e devotos de Nossa Senhora da Conceição quanto é importante para todos os católicos da Arquidiocese de Manaus. Aliás, para a Igreja da Amazônia pois alí está parte da nossa história retratada nas imagens dos nossos bispos, nas nossas imagens históricas que percorrem as ruas do Centro Histórico de Manaus no período da Semana Santa, alí presentes também na imagem histórica dos primeiros carmelitas e na fundação da Catedral na berlinda de Nossa Senhora da Conceição que percorre as ruas do Centro Histórico no dia 8 de dezembro de cada ano trazendo emoção, afetividade. Muito mais do que historicidade, alí sendo preservada, ele é parte dessa memória do nosso povo, e gostaríamos de que ele fosse preservado para que as presentes e futuras gerações possam conhecer um pouco da historicidade dos elementos religiosos da nossa Igreja de Manaus”.

Repórter de A Crítica

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