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Primeira trans reconhecida pela Ufam com nome social conclui ensino superior

Em 2015, como acadêmica do curso de Filosofia, Diana Brasilis, 25, foi uma das protagonistas no processo de regulamentação no uso de nome social na Universidade Federal do Amazonas 21/03/2018 às 22:59 - Atualizado em 22/03/2018 às 13:27
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Diana concluiu a graduação em Filosofia e agora sonha com o futuro na pesquisa (Fotos: Evandro Seixas)
Lívia Anselmo - Especial para A CRÍTICA Manaus

Diana Brasilis, mulher transexual e negra, de 25 anos, licenciada em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Foi assim que, na noite dessa quarta-feira (21), Diana resistiu, existiu e deixou de fazer parte de pelo menos duas estatísticas negativas que abrangem a população T. Ela não está mais entre os 90% de mulheres travestis e transexuais que têm a prostituição como única possibilidade de subsistência. Agora, ela tem o que muitas outras não tiveram: o poder de escolha.

Não que ela tenha precisado ou pensado na prostituição como única forma de gerar renda e sobrevivência. Mas a realidade dessas pessoas no Brasil faz com que mulheres trans sejam diretamente levadas a essas estatísticas, segundo o Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2017.

No auditório, Diana era apenas mais uma entre os 110 formandos com quem dividiu a  formatura. Era mais uma entre os 350 na platéia, que a aplaudiram de pé. Mas para quem conhece a trajetória e a luta de uma mulher trans, ela representou muitas. Representou mulheres que deixaram a escola e desistiram de estudar, mulheres que morreram vítimas da transfobia, mulheres que nunca foram vistas e ouvidas.


Foto: Evandro Seixas

Mesmo com o auditório lotado, na noite em que se tornou a primeira mulher trans a formar tendo sua condição respeitada pela Ufam, Diana não esqueceu que o espaço também poderia ser de muitas outras. “Eu não posso dizer que eu estou completamente feliz. Por mim, eu estou. Mas hoje eu sou a única aqui. Poderiam ser muitas outras que não tiveram a oportunidade que eu tive”.

Foram seis anos na instituição, onde aprendeu sobre a própria condição, lutou pela representatividade e combateu a transfobia. No Trabalho de Conclusão do Curso (TCC), Diana falou sobre a perspectiva de gênero segundo Judith Butler, filósofa americana e uma das principais teóricas da questão contemporânea do feminismo, teoria queer, filosofia política e ética. A nota final foi de 9,5.

Outra estatística que Diana deixou para trás com a conclusão do curso foi a de que apenas 0,02% de pessoas trans tem acesso ao ensino superior - segundo dados do Projeto Além do Arco-Iris/AfroReggae. Agora, ela se soma aos 14% dos brasileiros que têm ensino superior, conforme apontou, em 2016, o Education at an Glace.

Para que mais travestis e transexuais cheguem à universidade, é preciso uma política de ações afirmativas. “Eu acho que a universidade pode, se quiser, abrir as portas para que possamos discutir tantas temáticas que nos dizem respeito. Mas é preciso políticas de inclusão”, ressaltou Diana Brasilis.


Foto: Evandro Seixas

Para Diana e tantas outras pessoas é importante, inclusive, que a população T deixe de estar no centro dos estudos acadêmicos e passe a ser protagonista desses estudos. No Brasil, diversas instituições, desde o ano passado, reservam cotas nos programas de pós-graduação. É o caso da Universidade Federal do Cariri (UFCA), Universidade Federal do Sul Bahia (UFSBA), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Para o futuro, Diana tem brilho nos olhos e muitos planos. “Eu quero ser pesquisadora, engatar o mestrado e conseguir chegar no doutorado. Quero seguir os estudos na Ufam porque as linhas de pesquisa e os professores me agradam. Mas eu também quero ser professora de crianças. São muitas coisas para pensar agora”, desabafa.

Luta

No 2º período do curso, em 2012, ela começou o processo de transição. Em 2015, como acadêmica do curso de Filosofia, foi uma das protagonistas no processo de regulamentação do nome do uso social na Ufam. Com a resolução 008/2015, aprovada pelo Conselho Universitário, a Universidade Federal do Amazonas passou a reconhecer os nomes sociais e a dar suporte às pessoas que entravam com o processo para serem reconhecidas conforme a própria identificação.

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