Terça-feira, 14 de Julho de 2020
ENTREVISTA

‘Queremos nos aproximar das lideranças da Amazônia’, diz embaixador

Chefe da delegação da União Europeia no Brasil ressalta que o acordo do bloco com o Mercosul não se restringe ao comércio, é guiado pelo respeito à democracia, aos direitos humanos e à sustentabilidade



embaixador_B675E1F3-89BF-4608-95F8-E017268A2447.JPG Foto: Divulgação
28/06/2020 às 14:02

O crescimento do desmatamento da Amazônia acumulado no último trimestre de 55% durante a pandemia do coronavírus – apontado pelo  Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – serviu de justificativa para empresas, políticos e entidades da Europa analisarem mais a fundo o posicionamento do governo brasileiro com as questões ambientais.

Na segunda-feira, 29 fundos de investimento e pensão, que juntos administram aproximadamente US$ 4,1 trilhões – equivalente a R$ 21,6 trilhões, enviaram uma carta aberta a sete embaixadas brasileiras pedindo uma reunião para discutir o desmatamento na Amazônia. Somando a isso, 29 deputados europeus também enviaram carta ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), demonstrando preocupação com as medidas tomadas recentemente no quesito ambiental.



Em entrevista concedida para A CRÍTICA, o chefe da delegação da União Europeia no Brasil, Ignácio Ybañez, afirmou que estas iniciativas reforçam a principal preocupação da Europa com a Amazônia, que é “estabelecer o uso sustentável” da região.

“A carta é dirigida aos representantes do governo brasileiro. Mas logicamente, acho que é uma carta importante, pois são investidores bem importantes no Brasil. Acho que representa a grande preocupação que existe no mundo inteiro a respeito da situação ambiental em geral”, disse Ignácio Ybañez. A seguir trechos da entrevista.

 

O posicionamento já observado por estas entidades europeias, podem influenciar na finalização do acordo do Mercosul com a EU que demorou 20 anos para ser elaborado? Como está o andamento do acordo?

O acordo é uma das grandes ambições dessa comissão. Finalizamos um largo processo de negociação de 20 anos. A vontade das duas partes era justamente criar essa associação. Não é somente um acordo comercial, dentro deste acordo tem grandes princípios. E logicamente um dos grandes princípios é o respeito pela democracia. Somos dois grandes blocos democráticos. Priorizamos o respeito dos direitos humanos e também a ideia de sustentabilidade. Mas também o acordo de Paris, sobre mudanças climáticas. As coisas vão indo bem, mas uma negociação que tomou 20 anos, com textos políticos, comerciais e institucionais aprofundados, merece uma análise detalhada.  A parte política e institucional do acordo já foi fechada e parte comercial está praticamente finalizada. Agora temos que apresentar esse texto ao conselho onde estão os ministros dos países estados-membros, dando início ao processo de retificação. Nossa ambição era fazer o mais rápido possível. Finalizar durante a segunda metade desse ano. Mas ainda é cedo, não posso confirmar uma data. Precisamos ver como serão os processos de cada país. Estamos cada vez mais perto. O que é importante é esse acompanhamento político.

Em relação à pandemia do coronavírus, foi divulgado que a UE está realizando um estudo para a restrição de alguns países como Brasil, Estados Unidos e Rússia. Este estudo já está finalizando?

A primeira preocupação da UE sobre todas as instituições europeias é a liberdade de circulação: interna e externamente. Com o covid-19 tivemos essa limitação de movimento, tanto em países dentro do bloco econômico como do exterior. O coronavírus está causando mortes. A necessidade sanitária foi mais forte. Na primeira quinzena de junho reabrimos a circulação interna da UE. Estamos agora realizando uma reabertura gradual para o exterior, que obedecerá a três critérios: dados estatísticos da situação do vírus em cada país; as medidas estão sendo tomadas; e a reciprocidade de países que já abriram as fronteiras para o exterior. Vale ressaltar que esta lista de países é flexível, ela será atualizada constantemente. À medida que os países forem atendendo esses critérios terão acesso a UE liberados. Da mesma forma que países que estão nesta lista, se por ventura, apresentarem a carência de algum destes itens poderá ser excluído também. Expresso também a nossa solidariedade ao Brasil, neste momento que é difícil. Temos uma capacidade maior em ajudar do que no ano assado. Pois a Europa está uma situação melhor.

Dirigentes de países europeus são publicamente tratados, pelo governo brasileiro, como obstáculos e às vezes até inimigos do desenvolvimento do Brasil. Como esse posicionamento é percebido na UE?

Acredito que a resposta do governo brasileiro está positiva. Ano passado foi mais complicado. Não obtivemos respostas que esperávamos, particularmente do Ministério do Meio Ambiente. É importante ver que a relação entre o Brasil e a UE é uma relação de sociedade-sociedade. O Brasil teve uma mudança política bem notável. Temos total ciência que a situação possa ser muito complicada. Acredito que teremos que nos acostumar, pois no passado era quase impossível um líder político de um país falar de uma forma não tão positiva de outro país. Nós vivemos em um mundo do Twitter, no Whatsapp. É importante comprender um ao outro. No nosso caso compreender melhor o Brasil. E alguns debates internos são brasileiros, não são nossos. E alguns políticos brasileiros devem compreender das grandes preocupações da  Europa não são contra o Brasil. Quando falamos da importância que tem a Amazônia, não quer dizer que a Amazônia é uma parte da UE. Algumas coisas são importantes debater, como as mudanças climáticas. E desse ponto de vista, a Amazônia é importante não só para os brasileiros em primeiro lugar, como também para nós europeus. Visto que estamos em um mundo globalizado.

Em relação ao Conselho da Amazônia, como o senhor avalia sua atuação?

Agora uma coisa muito bem-sucedida é a criação do Conselho da Amazônia. Já tive reuniões com o vice-presidente do Brasil [Hamilton Mourão]. Estamos engajados nesse diálogo com o vice-presidente e os embaixadores. Temos uma programação de trabalhos conjuntos para ver onde a UE pode ajudar. Não consideramos que a UE deva fazer um controle, pois isso não é nossa responsabilidade. Mas, sim, ajudar na linha da preservação da grandíssima riqueza que o Brasil tem. Queremos ajudar no combate do desmatamento e na proteção dessa riqueza do povo brasileiro que é a Amazônia. Estamos buscando uma data que será provavelmente no início do mês de julho. Pretendemos apresentar as áreas onde nós achamos que temos capacidade de ajudar. E também queremos escutar o Conselho da Amazônia para saber em que áreas eles consideram que se podem trabalhar.

A Amazônia, no governo brasileiro, é compreendida como moeda de troca para determinada concepção de desenvolvimento que está fundada na colonização europeia na região – extermínio de povos indígenas, exploração em larga escala de bens da floresta, submissão dos povos amazônicos, uma ideia única de progresso. Como os gestores da UE se veem hoje nesse cenário?

Sempre que você analisa a situação presente, você tem que ter em conta o passado. Mas mirando para o futuro, pois ficar no passado não é bom. Eu acho que estamos em um momento mais positivo. Temos o Brasil independente há tantos anos com uma personalidade forte. A relação que estabelecemos com o Brasil é uma relação de igual para igual. Consideramos o Brasil uma potência sócio-estratégica importante. Queremos que o Brasil seja o parceiro que precisamos nessa parte do mundo. Temos valores que compartilhamos. As parcerias estratégicas que temos não são muitas, e uma delas é o Brasil. No ponto de vista dos investimentos, somos o principal investidor, se você agrupa todos os países da UE. No ponto de vista comercial, somos o segundo, atrás da China. E também em relação na área da pesquisa, temos diversos pesquisadores representantes do Brasil em nossas pesquisas e pretendemos continuar.

Os povos indígenas estão expostos e são vítimas de ataques sistemáticos, espancamentos e assassinatos; falta de atenção médica, como se vê nesta pandemia. O que a UE faz ou pode fazer para solidarizar-se efetivamente com esses povos?

Já fizemos bastante projetos neste ponto de vista. Uma das nossas preocupações são os povos amazônicos. A ideia da sustentabilidade: dar aos povos indígenas a capacidade de atuar no meio ambiente. Temos também um projeto com Instituto Socioambiental (ISA), que tem um trabalho para valorizar as cadeias comerciais dentro dos produtos que os povos indígenas realizam. Para que não sejam de uso para eles mesmo, mas também possam obter ganhos de forma comercial. Trabalhamos também com outras ONGs na região. A nossa vontade é continuar. É uma das fortalezas do país. São projetos que visam proteger o povo amazônico. Também trabalhamos muito no ambito das mulheres. Com o covid-19, observamos o aumento de violência contra a mulher. Algo que acontece não só na Amazônia e no Brasil, mas também a nível global. É a violência das mulheres que já existia no passado. Tomamos a decisão que parte dos recursos destinados a ONGs vai servir para orientar trabalhos neste âmbito.

O governo brasileiro descartou a ajuda financeira de países como Alemanha, Noruega para a Amazônia. Como está a experiência europeia com o consórcio de governadores amazônicos?

Essa é uma das ações que queremos desenvolver ainda mais. Tivemos aproximações de alguns governadores amazônicos. Assim como tivemos um sistema de consórcios do Nordeste que começaram a trabalhar de forma mais intensa. Queremos que isso seja presente na Amazônia. Estamos acabando um orçamento nessa gestão. Vamos buscar uma aproximação mais intensa. Ainda não visitamos essa região, e o covid-19 limitou as nossas capacidades. Queremos muito nos aproximar das lideranças governamentais da Amazônia.

Além destas, que outras cooperações da UE com o Brasil poderão ser vistas no futuro?

Algo que já fazíamos no passado e pretendemos continuar é o desenvolvimento da pesquisa científica. O programa “Horizonte 2020”, vai se chamar agora “Horizonte Europa”, e nela vamos ter grandes possibilidades de pesquisas conjuntas com o Brasil. Outro ponto também é o fomento do digital. Queremos ser digitais. Acredito que estamos em um bom momento para isso. A UE tem grandes contribuições para dar ao Brasil, na tecnologia 5G, por exemplo. Além disso, pretendemos também estabelecer um canal submarino que liga o Brasil-Portugal, que consequentemente concederá uma conexão maior com a Europa. E por fim, pretendemos continuar com as contribuições no âmbito da Justiça. Já estávamos fazendo um bom trabalho com o ex-ministro Sérgio Moro. Tive uma reunião com o novo ministro e o universo de cooperação foi excelente. A UE acredita que temos que confrontar grandes desafios como o crime organizado. O combate deve ser feito. E sobretudo, a nova gestão que começará no próximo semestre focará na sustentabilidade.

Perfil

Nome completo: Ignacio Ybáñez Rubio

Idade: 57 anos

Formação: Graduação em Ciências Econômicas e Empresariais pela Universidad Complutense de Madrid

Experiência: Atualmente, chefe da Delegação da União Europeia no Brasil; e Conselheiro na Direção Geral do Serviço Exterior, Ministério dos Negócios Estrangeiros, União Europeia e Cooperação da Espanha Embaixador da Espanha na Federação da Rússia, Armênia, Bielorrússia, Turquemenistão e Uzbequistão, com residência em Moscou (março de 2017 a outubro de 2018); Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação (novembro de 2014 a janeiro de 2017)

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