Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
CHACINA

Um ano após o massacre do Compaj: domínio da FDN, superlotação e ‘revanche’ do PCC

O que mudou desde a chacina de 56 detentos no maior presídio do Amazonas e o que o poder público fez para tentar retomar o controle das cadeias



01/01/2018 às 11:03

“Quem está na frente do Compaj, está na frente da cidade”*

“A real é que todo mundo matou, não foi só um, não foi (sic) só dois, aquela era a oportunidade, quem queria matar, matou”*.

O relógio marcava 16h00 no horário de Manaus. Mais um feriado de 1º de janeiro, Dia Mundial da Paz, início de um novo ano. Há exatamente um ano... Início de 2017, tarde aparentemente tranquila de domingo em que familiares foram às cadeias do Estado visitar parentes presos. Mas com algo incomum se formava “no ar” do maior presídio do Estado: o Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), localizado na zona rural de Manaus, um ramal no Km 8 da BR-174.


O Compaj em chamas durante a rebelião (Foto: Divulgação)

Bem diferente do normal, os próprios internos dispensaram mais cedo mães e esposas que levaram para eles a ceia de Ano Novo. Clima de renovação. Não. Muitas das mães e esposas saíram dali chorando, como se avisadas do que estava por vir. Precisamente oito minutos depois, 16h08, as câmeras internas de monitoramento do regime fechado do Compaj passaram a registrar o início do horror que se estenderia pelas próximas 17 horas e só terminaria no dia seguinte.

Hoje, 1º de janeiro de 2018, completa um ano do crime que ficou conhecido como a maior chacina dos presídios do Amazonas, o segundo mais sangrento da história do País, só perdendo para o Carandiru: o massacre de 56 detentos do Compaj. Cinquenta e seis pessoas torturadas, esquartejadas e queimadas ainda vivas, e que depois de mortas tiveram os corpos vilipendiados: coração, fígado, olhos e genitálias arrancados como num açougue humano, postos a prêmio.


Cenas do massacre divulgadas nas redes sociais (Foto: Divulgação)

Cortina de fumaça

Mais cedo, naquele mesmo dia, por volta das 14h, três internos de outro presídio da capital, o Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), situado no mesmo ramal da BR-174, foram capturados dentro do perímetro urbano da cidade, bem longe do presídio, na comunidade Parque São Pedro, bairro Tarumã, Zona Oeste. Sem documentos e sujos de barro, eles três confessaram serem parte de um grupo que havia fugido do Ipat também naquela tarde de 1º de janeiro de 2017, enquanto familiares ainda estavam fazendo visita.

Era a “cortina de fumaça”. Com as forças de segurança concentradas em recapturar os fugitivos do Ipat, o cenário se construía perfeito e o caminho livre para membros da facção criminosa Família do Norte (FDN), a maior da Região Norte, executarem um plano sangrento: aniquilar os “rivais” dentro do complexo penitenciário. Naquele momento, o domínio do maior presídio do Amazonas estava nas mãos deles. O objetivo? Mostrar poder e retomar a supremacia das unidades prisionais voltando a ter, consequentemente, o controle das rotas do tráfico de armas e drogas pelos rios da Amazônia.


Imagens das vítimas empilhadas após a chacina (Foto: Divulgação)

Tomada da guarda e brutalidade

Empunhados com armas de fogo, facões, estoques e paus, os detentos membros da FDN dominaram os agentes penitenciários e conseguiram acessar a portaria 3 do Compaj. Dali para frente estavam os alvos, os “protegidos”: três áreas de celas especiais, chamadas de “seguro”, onde ficavam estupradores, policiais e ex-policiais, filhos de policiais, “caguetas” (delatores) e o principal foco da matança: membros da facção rival, oriunda do Estado de São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC), que representavam concorrência à FDN pelo controle da rota do tráfico na fronteira do Brasil com Peru e Colômbia.

Fortemente armados, os “detentos FDN” trocaram tiros com um PM que fazia a guarda da portaria 3 do Compaj, controlaram e chegaram ao destino final. As horas seguintes são uma sequência de brutalidade. “(Eles) vilipendiaram os cadáveres de suas vítimas, decepando, amputando membros inferiores e superiores, queimando corpos, arrancando [...] órgãos internos, como uma espécie de ritual macabro, com objetivo de causar pânico e pavor aos rivais e ao poder público”*


Câmeras de monitoramento do Compaj (Foto: Aquivo A Crítica)

Fuga em massa e ‘a ordem’

Em meio ao descontrole, mais detentos conseguiram fugir do Compaj: outro recorde, a maior fuga em massa de presídios do Estado, um total de 225 fugitivos das duas unidades prisionais juntas – Compaj e Ipat. Tudo “esquematizado”. “A carnificina foi devidamente planejada, com data e hora marcada para o início das mortes [...] sendo acertado que a rebelião começaria às 16h [...], aproveitando-se do afrouxamento do policiamento e menor efetivo militar, visto que, boa parte da tropa estaria envolvido na noite anterior com as comemorações de fim de ano”*.

E a batida de martelo, se para a matança veio meses antes e de longe, de presídios federais fora do Estado: José Roberto Fernandes Barbosa, o “Zé Roberto da Compensa” ou “o chefe de todos chefes”; João Pinto Carioca, o “João Branco” ou “conselheiro” – conhecido por ser o mandante do assassinato do delegado Oscar Cardoso no Amazonas; e Gelson Lima Carnaúba, o “Mano G”. A tríade da FDN que, irritada por ser impedida de voltar ao seu Estado de origem, querendo retomar o domínio da “rota do Solimões”, e se utilizando de uma emissária, a esposa de “Zé Roberto”, Luciane Albuquerque de Lima, conseguiram fazer chegar a Manaus uma carta de ordem para exterminas PCCs. “Reuniões prévias”, inclusive, entre Luciane e os líderes locais da FDN definiram o “script” da chacina.


“Zé Roberto”, “João Branco” e Carnaúba (Arquivo A Crítica)

Além de retaliar os PCC e, consequentemente, fortalecer a aliança e a parceria com a facção Comando Vermelho (CV), oriunda do Rio de Janeiro – também rival da organização paulista – “os FDN” pretendiam ainda, e audociosamente, transformar a área de três celas do “seguro” do Compaj em um motel para os afiliados, amplicando os benefícios dos “associados”. Anos antes, o poder público havia destruído um quarto de luxo de “Zé Roberto” dentro Compaj que funcionava com a leniência de funcionários do presídio.

Às 19h daquele 1º de janeiro, ninguém sabia oficialmente o que tinha acontecido. Explosões e barulhos de tiros eram ouvidos de longe, do meio da mata. Viaturas dos mais importantes batalhões da PM do Estado “voavam” para dentro do ramal do Km 8 do Compaj, inclusive ônibus chegavam lotados de policiais para atuar na situação até então desconhecida. Ambulâncias seguiam em disparada e, do lado de fora, o desespero de familiares demonstrado através de choro e luto. Nenhuma informação para eles. Nenhuma informação à imprensa. E nas redes sociais circulavam os vídeos da matança.


Forças policiais atuando no ramal do Compaj (Foto: Arquivo A Crítica)

Às 21h, as autoridades do Estado já reproduziam a palavra “massacre”, informações sobre agentes penitenciários feitos “de escurdo” se confirmavam, cabeças e outras partes dos corpos das vítimas arremessados para o lado de fora do presídio e a rebelião parecia não ter fim. Negociação, pedido de socorro do Exército e da Força Nacional, e a confirmação de detentos “famosos” entre as vítimas, como o ex-policial militar “Môa” – preso por homicídio e por integrar um grupo de extermínio liderado pelo ex-deputado Wallace Souza; e também “Velho Sabá”, preso por fazer parte de uma milícia e, curiosamente, membro da FDN.

Mais mortes em presídios do Amazonas nos dias seguintes, famílias desesperadas e a crise no sistema penitenciário estendida para o resto do País. Um esquema de corrupção entre detentos e funcionários da empresa Umanizzare, responsável por presídios do Amazonas, para facilitar a entrada de ilícitos, fugas e rebeliões, foi denunciado através de uma carta escrita por um dos mortos do Compaj. O massacre ganhava repercussão internacional. Secretários e diretores afastados e só quase 15 dias depois as coisas pareciam voltar se acalmar no sistema prisional do Amazonas.


Familiares das vítimas do massacre no IML (Foto: Arquivo A Crítica)

Superlotação e novo presídio

Hoje, o sistema prisional do Amazonas, palco do massacre, é o campeão do País em superlotação de presos. Conforme dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias do Ministério da Justiça e Segurança Pública (Infopen), o Amazonas tem déficit de 9.036 vagas nos presídios: 2.354 vagas para uma população carcerária de 11.390 pessoas, dados foram coletados seis meses antes do massacre.

Atualmente, o Estado tem 8.982 detentos – 2.220 em regime fechado e 4.312 provisórios, de acordo com informações divulgadas no último 22 de dezembro pela Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap). Até o dia do massacre no Compaj, eram 10.323 presos, também conforme a Seap.

Atualmente, 34 detentos do Amazonas estão em presídios federais do País, ou de Cantanduvas no interior do Paraná, de Campo Grande no Mato Grosso do Sul e de Mossoró no Rio Grande do Norte. E daquela lista de 225 foragidos do Compaj e Ipat há um ano, mais de 60 continuavam nas ruas. Desde então, uma nova unidade prisional foi inaugurada, o Centro de Detenção Provisória Masculino 2, em Manaus, e o poder público anunciou um concurso público para agentes penitenciários no Estado.


Detentos momentos antes do massacre (Foto: Divulgação)

Hoje, um ano depois

No mês passado, dezembro de 2017, outra chacina aconteceu na capital, desta vez nas ruas da cidade, no bairro da Compensa, um dos QGs da FDN: seis mortos a tiros de fuzil e 15 feridos após uma partida de futebol. A motivação, segundo a polícia, seria uma execução por engano de um traficante identicado como “Buiú” ou um racha entre membros da Família do Norte. Também em dezembro, a transferência do filho de “Zé Roberto da Compensa”, Luciano Barbosa Fernandes, preso no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), para outro presídio, foi apontada pelas autoridades como a motivação de um motim neste presídio, coincidentemente ou não, em dia de visita de familiares.

Também no último dezembro, “Zé Roberto da Compensa”, Carnaúba, “João Branco” e Luciane Albuquerque, esposa de “Zé Roberto”, estavam na lista das 213 pessoas acusadas pelo Ministério Público à Justiça como participantes ativos do massacre do Compaj.


Chacina em campo de furebol da Compensa (Foto: Divulgação)

No decorrer de um ano após o massacre, mais mortes foram registradas dos presídios do Estado, mas em número menor. Assassinatos com características de execução foram quase que diários em Manaus, inclusive com vítimas esquartejadas, modus operandi da FDN. E uma resposta do PCC ao ataque da Família do Norte era cogitada pelo poder público desde então. Hoje, a partir de 1º de janeiro de 2018, uma nova página desta história passa a ser escrita.

*Trechos retirados da denúncia-crime oferecida pelo Ministério Público do Estado (MP-AM) à Justiça do Amazonas contra 213 acusados de participar da chacina do Compaj.

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