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SAÚDE

Vacinação contra a poliomielite é antecipada no Amazonas após surto na Venezuela

Campanha de imunização estava marcada para agosto, mas vai começar em julho. A poliomielite está erradicada em todo o Brasil desde 1990 15/06/2018 às 06:00 - Atualizado em 15/06/2018 às 07:18
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Foto: Arquivo/AC
Paulo André Nunes Manaus (AM)

As autoridades de saúde do Estado vão antecipar em um mês o início da vacinação contra a poliomielite nos municípios do Amazonas. A medida se dá em face do alerta feito na última quarta-feira (13) pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) sobre a necessidade de atenção redobrada diante da detecção de um surto da doença na Venezuela, por onde o Estado está interligado por via terrestre, pela BR-174.

A campanha de imunização estava marcada para iniciar em agosto e agora vai começar no mês que vem. A poliomielite está erradicada em todo o País desde 1990 e, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), desde 1989 não há registro da doença no Estado.

A cobertura vacinal do Estado está abaixo da meta do Ministério da Sáude (MS), que é de 90%. Em 2017, a cobertura da vacina foi de 70% no Amazonas e em Manaus 72%. Em função disso, a atual administração da Secretaria de Estado da Saúde (Susam), que assumiu em outubro, informou que vai executar um planejamento estratégico para massificação da vacina, com campanha de conscientização para a população.

O diretor-presidente da FVS-AM, Bernardino Albuquerque, explicou que a cobertura abaixo do ideal é preocupante. “A cobertura vacinal do Amazonas não nos permite, com segurança, dizer que essa reintrodução não seja possível. Nossa cobertura vacinal tem declinado. No País ela é de 95%, mas ano passado no Estado foi de 70%, o que não nos dá segurança de ficar tranquilos no momento”, disse ele.

“Temos que implementar a cobertura nacional em todos os municípios do interior e capital para que possamos, com segurança, ter a intercepção da entrada do vírus. Não vamos esperar a vacinação em agosto, vamos nos antecipar a todo esse processo”, completou.

“Se eu não conseguir uma cobertura vacinal adequada de 95% da população, de crianças que nasceram em determinado ano, estaremos criando bolsões susceptíveis que podem gerar surtos de poliomielite”, acrescentou o especialista.

“Vamos fazer tudo o mais breve possível, mas temos que viabilizar, antes, a proposta de município para município, fazer o envio das vacinas para que possa ser feito desenvolvimento em nível local e rural para que, até final de junho, já tenhamos tudo pronto para iniciar em julho, estilo campanha de vacinação”, contou ele.

Em 1994, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) o “Certificado da Erradicação da Transmissão Autóctone do Poliovírus Selvagem”, juntamente com os demais países do continente americano. Entretanto, disse o diretor-presidente da FVS, a confirmação de casos em áreas rurais da Venezuela é um risco da volta da doença ao continente.

“Isso realmente é uma situação que preocupa, pois esse certificado de erradicação não é só do Brasil, mas de todas as Américas. Havia, ainda, dentro do contexto mundial focos isolados na África. Mas houve essa informação e há a necessidade de que cada Estado, principalmente os fronteiriços com a Venezuela, de se manterem em acerta para detecção de casos e implementação da vacina contra a pólio”, disse Bernardino Albuquerque.

Na quarta-feira,  por meio de uma nota pública destinada aos médicos, à população e ao governo federal, a SBP levantou o alerta. No documento divulgado no site da instituição, a entidade orientou os pediatras a “estarem atentos aos possíveis casos de paralisia flácida aguda e para a importância de sua adequada investigação”.

Onde vacinar

A vacina que combate a poliomielite está disponível na rede de atenção da saúde tanto na capital quanto no interior. Além disso, anualmente o Ministério da Saúde (MS) realiza campanha para atualização da caderneta vacinal, em crianças menores de cinco anos.

Três

É o número de doses para a imunização completa: a 1ª aos dois meses, a 2ª com quatro meses e a 3ª com seis meses. Aos 15 meses, deve ser dada dose de reforço, assim como aos quatro anos.

Falta de saneamento favorece transmissão do poliovírus

A poliomielite ou “paralisia infantil” é uma doença infecto-contagiosa viral aguda, caracterizada por um quadro de paralisia flácida, de início súbito. O déficit motor instala-se subitamente e sua evolução, frequentemente, não ultrapassa três dias. Acomete em geral os membros inferiores, de forma assimétrica, tendo como principal característica a flacidez muscular, com sensibilidade conservada e arreflexia no segmento atingido.

No Brasil, não há circulação de poliovírus selvagem desde 1990. A transmissão ocorre por contato direto pessoa a pessoa, pela via fecal-oral (mais frequentemente), por objetos, alimentos e água contaminados com fezes de doentes ou portadores, ou pela via oral-oral, através de gotículas de secreções da orofaringe (ao falar, tossir ou espirrar). A falta de saneamento, as más condições habitacionais e a higiene pessoal precária constituem fatores que favorecem a transmissão do poliovírus.

Não existe tratamento específico para a doença, todas as vítimas de contágio devem ser hospitalizadas, fazendo tratamento de suporte. A vacinação é a única forma de prevenção da Poliomielite. Todas as crianças menores de cinco anos de idade devem ser vacinadas conforme esquema de vacinação de rotina e na campanha nacional anual.

Casos detectados em indígenas Warao

O alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) decorreu da divulgação, no dia 7 deste mês, pela Sociedade Venezuelana de Saúde Pública, da existência de casos de paralisia flácida aguda (PFA) identificados no estado de Delta Amacuro, na comunidade La Playita del Volcán, Parroquia Juan Millán, município Tucupita, cujos habitantes pertencem à etnia indígena Warao.

O primeiro caso ocorreu em uma criança de dois anos e 10 meses de idade, sem antecedentes de nenhuma vacinação prévia, que após desenvolver o quadro de PFA, foi identificado poliovírus vacinal tipo 3. Após a confirmação deste caso, a vigilância epidemiológica encontrou mais algumas ocorrências de PFA, de recente aparição, também em crianças, em uma comunidade vizinha, que continuam sob investigação.

Na nota divulgada na última quarta-feira, a SBP ressaltou que a preocupação cresce pelo aumento do fluxo de refugiados pelas fronteiras brasileiras, em especial nos estados do Norte. Para a presidente da SBP, essa é uma situação que deve ser acompanhada de perto pelas autoridades, evitando o pânico, mas garantindo-se a adoção de medidas eficazes para proteger a população brasileira.

“A poliomielite é uma doença que deixou lembranças dolorosas. Foi corrente no Brasil e, graças ao esforço conjunto de todos, com participação ativa dos pediatras, foi erradicada. Por isso, é preciso estar atentos, vigilantes, para que ameaças externas não comprometam o bem-estar do nosso povo”, destacou a entidade.
 

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