Terça-feira, 12 de Novembro de 2019
RECURSOS MINERAIS

'Vale do nióbio' exaltado por Bolsonaro terá viabilidade econômica daqui a 200 anos

Quase totalidade da demanda mundial do metal é atendida pela mina de Arajá, em Minas, o que inviabiliza exploração de Seis Lagos no AM



ni_bio_364DCC46-03BE-4BE4-B0F2-105728627B1F.JPG Foto: Reprodução/Internet
29/09/2019 às 08:21

Exaltada pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) que defende o ‘potencial econômico’ do nióbio, a exploração desse mineral é inviável economicamente e impossível do ponto de vista da atual legislação brasileira. A avaliação foi feita por especialistas  ouvidos por A CRÍTICA.

“A exploração de Seis Lagos é inviável do ponto de vista legal. Sem a menor possibilidade de efetuar uma extração a não ser que haja uma total revisão da legislação atual. Hoje, a oferta de nióbio é muito controlada pelo preço. Um oligopólio com grandes empresas dominam o mercado. Não existe mercado para uma nova mina de nióbio a ser instalada e não há espaço para aumentar a produção”, declarou o geólogo e chefe do departamento de mineração da Secretaria de Estado de Planejamento, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Seplancti), André Costa.



Quando viajou para o Japão para Cúpula do G20, Bolsonaro defendeu as possibilidades econômicas com a exploração do mineral ao exibir um colar de nióbio e a criação de um “Vale do Nióbio” no Brasil. O governo federal já manifestou a intenção de liberar a exploração mineral também em terras indígenas na Amazônia.

Potencial incerto

Para o economista e mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, Juarez Baldoino, as jazidas de Seis Lagos, localizadas em áreas de reservas indígenas no Município de São Gabriel da Cachoeira (a 852 km de Manaus), não têm retorno econômico pelos próximo 200 anos. “O mercado internacional consome 100 mil toneladas por ano e Araxá tem nióbio para 200 anos. Não há nenhum interesse econômico nos próximos 200 anos de investir em Seis Lagos porque vai vender para quem? Para fazer parte da riqueza do Amazonas, o nióbio deveria ser exportado e não há possibilidade econômica porque a demanda do mundo todo é atendida por Araxá”, pondera.

Economista Juarez Baldoino explica que o mercado internacional consome 100 mil toneladas por ano de nióbio e Araxá tem produto para 200 anos, além de contar com tecnologia, now how, infraestrutura e logística. Foto: Junio Matos

De acordo com o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), 98% das reservas de nióbio conhecidas no mundo estão no Brasil sendo responsável por mais de 90% do volume comercializado no planeta, seguido por Canadá e Austrália. O tamanho das reservas brasileiras é estimado em 842,4 milhões de toneladas com a produção anual de 120 mil toneladas, conforme dados da Agência Nacional de Mineração (ANM).

A reserva de nióbio no Amazonas está no Morro dos Seis Lagos com a estimativa de 2,9 bilhões de toneladas do minério e 80 milhões de toneladas de nióbio puro, cerca de 14 vezes as atuais reservas conhecidas do mundo, conforme estudos da CPRM. Em outro relatório, o órgão aponta que a exploração do mineral é inviabilizada por estar em uma reserva biológica, no Parque Nacional do Pico da Neblina e na terra indígena Balaio.

Mercado

A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) lidera a produção de nióbio no mundo. Fundada em 1955, em Araxá cidade de Minas Gerais, a companhia concentra 75% do total das reservas brasileiras com produção em média de 90 mil toneladas por ano. Na cidade goiana de Catalão está situada a segunda grande mina no País responsável por 4% da produção nacional.

O mercado de nióbio no País é tímido devido ao consumo estável. Segundo dados da ANM, o nióbio representou apenas 0,7% de todas os metais comercializados pelo Brasil em 2017. Ele não é um mineral raro, pelo contrário é abundante com minas conhecidas em diversos países, por exemplo, Rússia, Estados Unidos, Ásia. Porém, quase nenhuma delas é explorada. A causa deve-se ao alto investimento exigido no processo de transformação e no custo da operação.

“No cenário de alguém ainda querer explorar nióbio no Amazonas, a mina de Araxá fatalmente vai mexer no preço porque o consumo é estável. Quem vai investir em Seis Lagos para concorrer com Araxá que já tem tecnologia, now how, infraestrutura, logística e mão de obra qualificada? Como vão levar essa estrutura para um local que não têm estradas? Em períodos do ano, trecho do rio fica intrafegável. Em Araxá está tudo pronto. É um mineral na Amazônia que tem preço, mas não tem valor (definido) e não se converte de imediato”, disse Baldoino.

O geólogo André Costa pontuou a necessidade de novas pesquisas em Seis Lagos visto que os estudos de mapeamento geológico e de recursos minerais datam das décadas de 1970 e 1980. 

Produto usado em turbinas

O nióbio é um metal branco, brilhante, de baixa dureza, extraído principalmente do mineral columbita. Ele não é comercializado em sua forma bruta, logo as mineradoras exploram minerais que contêm nióbio. O nióbio é usado para deixar o aço ainda mais forte e resistente.

Defensor da exploração do  nióbio há anos, o presidente Jair Bolsonaro exibiu, em uma transmissão ao vivo, uma joia e talheres feitos de nióbio.

De acordo com a empresa Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), 90% das aplicações do nióbio estão associadas à indústria siderúrgica. O metal também é usado em máquinas de tomografia, na construção civil, em baterias de automóveis elétricos e em vidros inteligentes.

Outras aplicações ocorrem em dutos de óleo e gás, turbina de avião, foguetes, geradores de energia a gás e em aceleradores de partículas.

Comentário: Belisário Arce Dir, exec. da Associação Pan-Amazônica

Pessoas contrárias à exploração dessa jazida são pelos principais motivos de natureza ambiental, por estar em uma parte da natureza onde nenhuma exploração econômica seria possível, e o mercado mundial já é abastecido pelas reservas em atividade no Brasil.

Do meu ponto de vista esses argumentos não são suficientes para que não se avalie as possibilidades de exploração de Seis Lagos. O nióbio foi encontrado recentemente no século 19 e só passou a ter uso na década de 1970 quando se viu utilidade nas ligas de aço. Com uma maior produção de nióbio com a exploração de Seis Lagos  surge a possibilidade de outros usos com um aumento natural da demanda.

As reservas da Amazônia precisam ser exploradas no momento adequado. Não podemos desperdiçá-las para que gerem maior benefício para a sociedade. Existem muitos desastres ambientais pela mineração, mas isso não quer dizer que  precise continuar acontecendo. Há tecnologia disponível para se explorar as reservas minerais com o dano mínimo ao meio ambiente. A sociedade brasileira precisa aprofundar esse debate e avaliar se esse já é o momento de explorar ou mais no futuro.

Blog: Carlos Durigan Geógrafo, ambientalista e diretor da WCS Brasil

“A mineração  na Amazônia tem sido uma das causas da degradação social e ambiental em grande escala e isso tem se dado pela forma como a atividade é promovida.  Basicamente vemos que a atividade precisa evoluir no seu modo de fazer, buscando mitigar seus impactos sobre a natureza e ainda trazer benefícios concretos para as pessoas que vivem na região.

No caso específico do nióbio, entendo que o Brasil já é um grande produtor e a exploração das reservas localizadas no norte do Amazonas não seria necessárias. Além disso, sua potencial exploração, se feita sem controle adequado, pode afetar um patrimônio muito mais valioso que é a nossa biodiversidade, sem contar com os impactos sociais que podem ser gerados numa das regiões de maior diversidade cultural da Amazônia que é o Rio Negro.

Entendo que a atividade minerária na Amazônia possui um enorme potencial, mas acredito que este potencial só possa ser desenvolvido de forma positiva e com impactos socioambientais reduzidos desde que haja um planejamento adequado e seja realizada com controles social e ambiental.

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Repórter de A Crítica

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