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Manaus
SUPERAÇÃO

Vidas Anônimas: Sem enxergar, garoto de 12 anos encanta ao tocar bateria

Conheça a história do adolescente amazonense João Carlos que, mesmo não conseguindo enxergar, possui talento de sobra para tocar três instrumentos musicais 23/02/2018 às 05:40
Show garoto 9
O adolescente aprendeu a tocar bateria sozinho. O sonho dele é ser maestro de uma orquestra (Fotos: Winnetou Almeida)
Amanda Guimarães Manaus (AM)

Desde cedo, os pais de João Carlos, perceberam a paixão dele por instrumentos musicais. Mesmo não conseguindo enxergar por um problema no nervo óptico, o adolescente de 12 anos aprendeu sozinho a tocar bateria e "arranhar" acordes no violão e teclado. Mas o talento do garoto não para por aí, além de ministrar em cultos evangélicos em diversas denominações na cidade de Manaus, ele ainda canta e adora ao Deus, que segundo ele, vai restaurar a sua visão.

Não diferente dos meninos da sua idade, João gosta de correr e andar de bicicleta, mas prefere deixar estas atividades de lado quando o assunto é música. Morando em uma residência simples, de poucos cômodos, na Zona Norte de Manaus, o garoto possui um violão e um teclado. Quando quer tocar bateria vai para a igreja liderada pelo pais, os pastores João Batista Sampaio, de 42 anos, e Daniele de Souza, de 36 anos, localizada no mesmo bairro.

João é um garoto muito comunicativo e simpático. No dia que fomos o conhecer, ele recebeu a nossa equipe em frente a casa que mora. O adolescente estava vestido com uma camisa social azul, calça e sapatos sociais. Os olhos claros dele brilhavam por conta do sol que insistia em aparecer de forma intensa naquele dia.

— Oi, bom dia — me apresentei enquanto o pai do garoto saía do carro

— Um prazer conhecer todos vocês — respondeu o pai de João, o pastor João Batista

— O prazer é nosso....  Qual é o nome dele? — perguntei, observando que o adolescente estava parado na minha frente

— João Carlos!

— Oi João Carlos, tudo bom? Aqui é Amanda do Jornal A Crítica.

— Oi, tudo bem sim, Amanda — respondeu o adolescente mostrando um sorriso tímido no canto do rosto

— Vamos entrar para sairmos do sol — nos interrompeu o pastor.

Ao entrarmos na casa, percebi que João não estava utilizando bengalas. Era nítido que ele conhecia tudo ali, por isso se locomovia sem dificuldades ou auxílio dos pais.

— Ele consegue enxergar no claro? — perguntei ao olhar que o adolescente estava ao meu lado dentro da casa.

— Ele vê vulto no claro e dentro de casa conhece tudo.

— Ah sim...

— Ele corre aqui dentro. Se a gente não vigiar... — disse o pai de João, olhando para Daniele com um tom de brincadeira.

— Nossa!  — respondi, pois a distância que João percorria correndo dentro da casa era de quase 5 metros.

— Sabe como é menino, né? Eu falo para ele: Meu filho, cuidado, se tiver alguma coisa no meio ou um obstáculo, você vai se machucar...

— Todos vocês podem ficar à vontade. A casa é de vocês — falou a mãe de João. Ela estava com uma saia abaixo do joelho, blusa de mangas longas. O cabelo dela é grande e batia abaixo da coluna.  

— Vocês aceitam uma água? — perguntou o pastor. Ele estava com uma garrafa de plástico nas mãos e com o braço estendido segurando um copo de vidro.

— Eu aceito.... Eu aceito... — disse eu e meus colegas, Rainer Luiz e Winnetou Almeida

— Aqui temos poucos copos. Os meninos quebram demais. Quando o João era pequeno não tínhamos esse problema, porque ele não enxergava, mas o nosso outro filho quebra demais, com ajuda dele.

Diagnóstico da doença

Sentado em uma cadeira branca na sala do imóvel, o pastor João contou que passou pelo momento mais difícil da vida quando descobriu o problema na visão do filho. O garoto nasceu com a deficiência na visão, mas pela falta de estudo dos pais, o caso só começou a ser percebido anos depois. A fé foi a responsável por manter a família estável.

— Pastor, qual foi o problema que o seu filho foi diagnosticado? — perguntei, enquanto João estava sentado em uma cadeira ao meu lado.

— Ele nasceu com esse problema. Como não entediamos muito sobre isso, descobrimos que ele era cego por meio da cunhada da minha filha. Ela trabalhava em uma clínica de oftalmologia e após conhecer o João, disse que ele era cego. Aquele momento foi um baque — disse o pastor emocionado, mas continuando a falar e sem segurar as lágrimas — A princípio não quis aceitar, também nesse tempo a gente não era evangélico, não tinha aquele apoio que Jesus nos dá. Fiquei desesperado.

Após receber o diagnóstico, os pais de João lembraram detalhes importantes dos primeiros dias de vida do garoto.

— Quando ele era pequeno só olhava para onde tinha luz. Ele nunca olhava para ninguém. Temos foto dele no nosso braço, mas sempre com o rostinho para cima.

Para gravar a entrevista, pedi para que João segurasse no colo o meu celular. Quando dei nas mãos dele, ele segurou e manuseou o aparelho, tentando conhecer cada detalhe do objeto.

— Durante muito tempo fomos em diferentes clínicas e ninguém sabia o que o João tinha — continuava a explicar o pastor — Quando ele completou 10 anos, após a veiculação de uma reportagem na TV A Crítica, conseguimos uma consulta com um médico. Ele deu a definição do problema do meu filho.

— Ah sim, mas então qual foi o diagnóstico?

— Ele falou que era um problema no nervo óptico. Em meio a linguagem médica, que é muito difícil, só entendi o médico dizer que o caso dele era muito raro, além de ser muito caro para ser trabalhado, e que não iria recompensar o tratamento, pois são pouquíssimas pessoas que tem esse problema.

— E você João, me detalha direitinho o que você está enxergando? — O adolescente escutava atentamente a conversa entre eu e os pais dele.

— Consigo ver ele ali em frente à luz. Estou vendo o seu vulto — disse João, apontando para o editor de vídeo do Portal A Crítica que estava sentado na frente dele. Atrás, uma janela estava aberta, o que permitia que o local ficasse claro.

— Entendi. Mas o rosto dele você não consegue enxergar né?

— Ele consegue ver a sombra..... — interrompeu o pai do adolescente.

— E eu, consegue me ver?

— Mais ou menos.

Adaptação na infância

O pastor relata que a infância de João foi marcada com idas e vindas em clínicas públicas e privadas de oftalmologia na cidade de Manaus. O resultado até o momento não foi positivo, mas os cuidados foram redobrados durante os primeiros anos de vida do adolescente.

— Vocês precisaram ter atenção redobrada com o João?

— Foi muito difícil — respirou fundo o pastor João — A gente não sabia lidar com tudo que estava acontecendo. Nunca tivemos um caso desse na família. Durante esses anos corremos atrás de médico.

— E na infância dele, vocês deixavam ele brincar tranquilamente ou ficavam preocupados com quedas e machucados?

— Fomos percebendo que a onde ele chegava fazia o reconhecimento do local, e assim não teria problema. Claro que nunca podíamos mudar a posição das coisas dentro de casa, porque senão ele se machucava. Ele andava de bicicleta aqui dentro de casa. Naquele tempo, não tinha esse negócio de celular ou filmar.

— Interessante demais... — falou a mãe Daniele.

— Mas ele aprendeu a andar de bicicleta sozinho?

— Sim, sozinho. Um colega ensinou a tirar as rodinhas e ele anda na rua e tudo. O perigo é que ele não consegue ver um buraco, por exemplo.

Talento na música

O adolescente nunca fez aula de música por conta das poucas condições financeiras dos pais. Mas desde criança ele decidiu "fazer música" com outros objetos. Baldes e panelas formavam a primeira bateria que João teve na vida.

— E a música como entrou na vida dele?

— Minha filha, ele foi indo sozinho. Começou batendo as panelas e nos baldes aqui em casa. Ele mesmo arrumou a bateria. Quando o Espírito Santo começou a dar louvores para ele, eu comecei a escrever outros.

— Ele ministra também ou só canta?

— Ministra... Passa revelação de Deus.

— Hoje ele toca quais instrumentos?

— Bom, está ali né — falou o pai, apontando para a teclado e o violão que estavam guardados nos cases encostados no chão da sala. — Ele aprendeu tudo sozinho. A gente quer colocar ele em uma escola de música, mas ainda não tivemos condições. Bateria ele já toca bem. No violão e teclado, consegue fazer algumas introduções.

Como aprendeu

Quando tocou bateria pela primeira vez, o adolescente ficou com receio de está tocando errado, mas tudo acabou dando certo. Hoje ele sabe diferentes ritmos no instrumento.

— João, você aprendia a música ou pegava na hora o ritmo na bateria?

— Eu confiava que já sabia tocar, mas nunca ninguém me deixou tocar. Desde que a bateria tinha chegado lá na igreja, eu ficava perto dela vendo outras pessoas tocarem. Teve um dia que sentei no banco e comecei a tocar. Na hora fiquei com medo, mas fui aumentando a intensidade do som. Deu tudo certo.

— Você sabe todos os ritmos, dos mais rápido até os mais lentos?

— Eu sei bolero, forró, essas coisas...

— Que legal. Você aprendeu mesmo tudo sozinho, até violão e teclado? Vai sentindo as teclas?

— Eu vou com o dedinho... vou explorando tudo.

— Ele já estudou música alguma vez? — perguntei para os pais de João, porque fiquei surpresa com o conhecimento musical do garoto.

— Não... Ele vai aprendendo sozinho, e quando não sabe pede para gente procurar na internet. — respondeu o pastor.

— Mas você sabe ler partitura ou cifras?

— Não, mas pego tudo de ouvido.

— Mas então como você sabe o tom das músicas que canta?

— A maioria das músicas que canto são nos tons Sol, Lá menor, Fá menor e Mi menor.

Amor pela música

Quem conhece o adolescente percebe o quanto ele fica feliz e satisfeito quando o assunto é música. Mas diferente de muitos músicos, João acredita que a arte é um meio de adoração a Deus.

— Você gosta muito da música? O que sente quando está tocando?

— É muito legal cantar... — respondeu o garoto.

— Mas, você gosta de tocar mais qual, bateria, violão ou teclado?

— De todos, eu amo.

— Ele fala que quer aprender até sanfona. Tudo ele quer aprender. Mas ele vai conseguir, em nome de Jesus — disse o pai.

— E cantar? Você gosta?

— Demais. Tudo que nós fazemos, se fizermos com amor para Deus, é um tipo de adoração. Cantar é agradecer por continuar vivo

— Então canta rapidinho para gente...

— Canta aquele louvor de adoração, aquele que eu gosto — respondeu o pastor.

O garoto logo atendeu o pedido do pai e começou a entoar uma canção evangélica. Ele não ficou tímido por estarmos ali.

— Deus abre o mar e faz você passar. Você não está sozinho, ele abre o caminho, a vitória vai chegar, então você vai cantar, grande é o Senhor Jeová. Senhor Jeová — cantou o adolescente à capela, de forma entoada.

— Ele canta mais com playback. A gente baixa o aplicativo, e ele pega muito rápido. — explicou o pai.

Orgulho

Enquanto João cantava e tocava, os pais olhavam admirados para ele. Mesmo tendo 12 anos, o adolescente mostra amadurecimento precoce e uma fé sem tamanha.

— Como é para vocês ter um adolescente que não consegue ver, mas que tem se superado, e desenvolvido tantos talentos?

— Eu fico muito feliz, maravilhado. Porque isto é o poder de Deus. Quando ele vai para a igreja, o João anda como se estivesse enxergando. Quem não conhece ele, pensa que enxerga normalmente.

— Vocês tem muita fé... Acreditam que ele possa voltar a enxergar?

— Eu acredit.... — antes de terminar a palavra o pai se emocionou, mas continuou — Deus é Deus do impossível. Ele vai restaurar a visão dele, porque quando Deus promete, ele cumpre. Mas depende muito da fé do João, não só da minha. Ele precisa obedecer, ser um jovem de Deus e continuar se afastando de tudo de errado.

Adaptação na escola

Para aprender a escrever na escola, João superou seus próprios limites e as expectativas dos professores.

— Como é o João na escola?

— Do primeiro ao quinto ano, não tivemos problema. Mas agora ele está se habituando, porque os meninos são mais velhos. Ele vai começar a fazer esse ano o sétimo do fundamental.

— Ele escreve direitinho?

—Escrever ele escreve, mas continua fazendo caligrafia — comentou a mãe de João, Daniele, que estava sentada ao lado do filho. — Para chegar até aqui foi uma luta. A professora do jardim disse que não ia aprender nada, mas ele conseguiu.

—Alguns dos seus colegas fazem brincadeiras por você não conseguir enxergar?

— Todo mundo pergunta se eu enxergo. Mas me incomoda isso, porque as pessoas sabem que não consigo ver e mesmo assim me perguntam isso.

— Você não gosta dessas perguntas, né?

— Gosto não.

— E na escola, você gosta de uma matéria específica?

—Gostava de português... mas agora quero estudar música. Quero ser maestro.

De ouvido

Para vermos o garoto tocar bateria, fomos na igreja que é liderada pelos pais de João. O imóvel fica localizado próximo à casa da família e é muito simples, não possuindo bancos, e sim cadeiras brancas para receber os fiéis.

Quando chegamos no templo, João se encaminhou para uma bateria azul, que visivelmente estava muito velha. A caixa estava com um som abafado, mas isso não impedia que o adolescente tocasse com alegria. Ele mesmo montou as partes do instrumentos musical, como pratos.

—Como você sabe que a bateria está desafinada?

— Sei pelo som, mas aqui não tem muito o que fazer, porque a bateria está velha demais. Coloco um pano por baixo da caixa, para ver se o som fica melhor...

Enquanto estávamos na igreja, o adolescente tocou vários hinos, de diferentes ritmos. Ele tocava e olhava para frente, gesticulando o rosto, como estivesse sentindo a música.

Observando o filho, o pastor João comentou que o desejo do garoto é cantar e tocar durante os cultos.

— Ele só não toca bateria e canta, porque ainda não arrumamos um pedestal.

— Ah sim, a gente vai ficar torcendo para que vocês consigam...

— Agradecemos pela simpatia de vocês.

— Nós que agradecemos. Mas agora precisamos ir. — Era por volta de 12h30.

— Tudo bem. Até a próxima.

— Tchau.

Assim nos despedimos daquela família. Mas João continuou com os pais na igreja. Ele queria ensaiar, porque na noite daquele dia ele iria cantar mais uma vez durante o culto.

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