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Minha Manaus
Minha Manaus

Cantor Nicolas Júnior encontrou o sucesso em meio à crise ao cantar o ‘amazonês’

Em busca de oportunidades como tantos outros que chegam à capital, artista paraense venceu a crise do mercado fonográfico ao abordar o cotidiano dos habitantes da cidade de Manaus 24/10/2017 às 15:27 - Atualizado em 24/10/2017 às 15:28
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Morador da avenida Mário Ypiranga Monteiro, no bairro Adrianópolis o cantor Nícolas Jr. tem uma vista privilegiada da Zona Centro-Sul da cidade do apartamento onde vive com a mulher e os enteados / Fotos: Euzivaldo Queiroz
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Me chamo Nicolau Miléo Júnior, 42 anos, cantor e estudante de Direito, morador da  avenida Mário Ypiranga, 1.208, Adrianópolis, Zona Centro-Sul de Manaus. Sou de Santarém (PA) e fui criado em Terra Santa (PA). Nasci de cesárea, nasci muito grande, e havia complicações e minha mãe já tinha 40 e poucos anos. Me considero de Terra Santa, terrasantense. Sou mais um dos milhares de aventureiros e imigrantes do interior que vêm atrás de um emprego, de melhoria de vida, de ter uma vida melhor. Nasci e vivi na beira do rio a vida toda. Mas chega um momento que você não tem como fazer uma faculdade e arrumar um emprego porquê não tem.

Vim sozinho para Manaus onde cheguei em 1998, para fazer um curso de música aqui, num estúdio do Carrapicho, do Carlinhos do Carrapicho, na época, no Parque Dez de Novembro, e aí para mim trabalhar em outro estúdio só que em Rondônia. Só trouxe uma mochila com umas mudas de roupa, como 3 calças e uma bermuda. Vim de barco, e na época as embarcações eram mais lentas e se demorava dois dias para chegar aqui.  Eu dormia e morava no aquário do estúdio daqui de Manaus, e pra dormir às vezes era com gravação de bateria, na barulheira. Aconteceu que eu fui ficando, ficando e ficando em Manaus e aí em um determinado tempo, em 2001, o estúdio faliu, mudaram as plataformas, as condições de gravações, e o mercado deu uma repaginada total e começaram a surgir os home-estúdios, que eram aqueles feitos num computador. Em casa e com qualidade digital. A virtualização digital e aquele coisa das plataformas da Internet quebraram o mercado dos discos e o monopólio das gravadoras.

Aí me vi obrigado a procurar outra coisa para sobreviver. E fui para um bar do Conjunto Beija-Flor chamado Fino da Bossa, que foi uma das minhas primeiras experiências com a música. Tirava repertório e cantava por sopa, ou seja, pelo jantar, de 20h às 21h. Eu não tinha grana. Aluguei uma casa ali perto e não dava para cobrir o aluguel. Depois de algum tempo um amigo meu passou pela mesma situação e eu disse que eu tinha a casa. Éramos dois lisos. Eu só tinha um espelho, dois pratos e uma panela de pressão, e lá a gente cozinhava e lavava a roupa. Era o nosso bem. Passei fome pra caramba em Manaus. Numa época, durante 1 ano e pouco, eu comia farinha de manhã, de tarde e de noite. E tomava água pra tufar e dormir. Tocando na noite me veio a idéia de compor. Antes no estúdio eu já fazia jingles, e quando o estúdio faliu eu já tinha referência. Como eu tinha acesso aos artistas no estúdio, alguns deles gravavam as minhas músicas. Em 2000, no Parque Dez, onde eu morava, tinha uma empresa chamada Infopress, e o rapaz de lá, o Neto, era um cara incrível. Certa vez um carro bateu um cachorrinho de rua, e o Neto comprou o medicamento e eu cuidava do cachorro. 

Num dia, quando eu estava dando comida pro cachorro, ao falar que queria gravar um disco, o Neto perguntou se eu cantava. Eu disse que dava umas arranhadas, e o valor que a gravação do disco, com 1 mil cópias, custaria. E ele falou que iria custear o meu primeiro disco, chamado ‘Nicolas Jr.’, cuja foto foi feita por fotógrafos lambe-lambes na Praça da Matriz, no Centro, com o rapaz esticando um pano e eu lá, empacotado, com o violão, num calor desgraçado de 14h. Foi uma experiência muito maluca. Tive um sonho que aquilo iria vender e não aconteceu. Aí, um ano depois, a Lívia Mendes (ex-presidente da Fundação Villa Lobos) fez o projeto Valores da Terra que daria discos pra  uma galera. Eu me inscrevi e passei.  Eu já tinha 1 mil discos e ganhei mais 2 mil e não sabia o que fazer com aquilo. Eu tentava dar cópias e nada. Quando você está começando é difícil pra caramba, pra quem veio do interior como eu, você ter a sua obra tocada. O barzinho não é o local para a sua obra pois as pessoas não conhecem e há uma tendência da pessoa levantar, pedir a conta e ir embora. Isso é natural. Aí eu ficava com aquele monte de discos.

Até que um amigo meu falou sobre o programa de rádio ‘Zona Franca’, que o Joaquim Marinho tinha aos domingos, no horário inglório de 8h, que para o artista que toca na noite, é complicado. Fui no programa, com meu violão, e chegando lá me deparei com aquela figura do Joaquim Marinho, voz grossa, postada, me convidando para sentar, depois olhou o disco. Ao lado do aquário, uma telefonista e uma linha para cada telefone dos ouvintes. Na terceira música que eu toquei, no ar, eu juro, ele virou pra mim e disse, em tom sério: ‘Ô rapaz, você não tem uma coisa que preste aí, não? Esse seu disco é muito ruim’. Me desconcertei. Ai eu já tinha feito a canção ‘Geisislaine’, que é uma música que conta uma história de amor com personagens da periferia de Manaus. Eu disse pro Marinho que tinha uma música, e ele falou ‘então toque’. Relutei, mas ele insistiu. E eu toquei os versos ‘Ó Geisislaine, Geisislaine meu amor’. Quando eu terminei de cantar, vi as três linhas de telefone congestionadas, com as pessoas querendo saber que música era essa e onde tinha pra comprar. Aí o Marinho falou: ‘Eu não te falei? Tá aqui a tua linha de trabalho’. Aí eu abandonei tudo e foquei na linha de trabalho do cotidiano amazonense. Ele me apresentou ao Aldízio Filgueiras, poeta maravilhoso, e foi assim que surgiu um trabalho chamado ‘Divina Comédia Cabocla’, que foi um disco que realmente vendeu e puxou os outros discos. Vendeu tudo o que não havia vendido antes.

Depois veio ‘Viagem Insólita de um Caboclo’. Depois de um tempo eu viajei, fui dar aula fora em Vilhena (RO), fiquei fora 2 ou 3 anos, e vi a necessidade de tocar. Eu dava aulas de músicas para crianças, mas queria palco. E retornei a Manaus, e tive a idéia de fazer a ‘Divina Comédia 2’. Mas aí pensei será que vai dar certo, pois a tendência é sempre que o melhor filme é o primeiro? Mas tentei, e o segundo puxou ‘Amazonês’, ‘Feira da Panair’ e ‘Rubenilson’. Emplacou. E lá se vão 7 discos que vendem muito bem e tem uma aceitação boa. Hoje o mercado ele traçou uma linha completamente diferente da mídia física, do disco físico. A internet quebrou a barreira grográfica, física. Hoje todo mundo baixa essas plataformas como Spotify, onde tenho metade da minha obra musical, e outras. No entanto, o mais legal é que o vinil não morre, ao contrário do que todo mundo achava. Volta, inclusive. O fã quer o disco físico autografado como relicário do artista. E é muito massa pois acaba vendendo o disco de fato.

Já morei em outros lugares, inclusive mais bonitos e com clima mais ameno, mas Manaus tem um negócio que eu já conversei com várias pessoas de fora, que é o povo, peça principal pra você se apaixonar pela cidade. Ele é muito acolhedor, o amazonense é de fato acolhedor. E em segundo eu gosto e acho bonita a cidade, embora tenhamos muitos problemas a ser resolvidos. Acho que mesmo com todos os problemas sociais a serem resolvidos ainda vivemos em uma certa margem de segurança muito melhor que várias capitais do Brasil que são muito violentas. Gosto da plástica da cidade, da grografia de Manaus. Gosto de andar em Manaus, mas o povo que me fez ficar.

Todos os dias tenho exemplos disso. Várias situações já aconteceram, como eu entrar em um lugar, num restaurante, comer, e me falaram pra mim não pagar porque era meu fã. Mas não é só por me tratar bem. É pelo jeito do povo mesmo de ser, de interagir com ele próprio. São essas pessoas que me fazem ficar em Manaus pois são diferenciadas, são receptivas. Há uma tendências de que quanto maior a cidade as pessoas se encapsularem, não darem bom dia. Pra fazer os discos eu rodo de ônibus pela cidade, nem sei pra onde vai, mas fico ali observando, as pessoas me reconhecem. Para poder enxergar porque, se não for assim, não há verde. A Feira da Panair, por exemplo, se você não tiver propriedades para falar daqueles peixes fica uma coisa diferente e parece engodo.      

Me entristece muito andar por Manaus e ver nossas ruas do jeito que estão. Falta cuidado e responsabilidade em tratar bem delas. Nosso asfalto é muito ruim e deixa a cidade muito feia. É um cartão-postal a ser melhorado. A mobilidade urbana é uma coisa imprescindível pra todo mundo e os ‘caras’tratam com desrespeito, absurdamente ruime feio e de péssima qualidade. O que eu menos curto também é o tratamento dos prédios públicos que precisa ser melhorado de fato. Me entristece ver locais como a Santa Casa de Misericórdia, um prédio lindo daqueles, se acabando, com as pessoas roubando nosso patrimônio. Aquilo é nosso. Temos graves problemas de saúde, e o próprio País passa  por uma situação muito complicada, financeira geral. Acho que antes da crise já era tratado com destrato. Há uma tendência onde, primeiro se deixa destruir, e quando acaba eles vão lá e refazem. Isso me inquieta. Será que os caras não andam de carro pela cidade? Será que um prefeito e um governador não andam de carro pela cidade e não vê que isso é feito? Não conhece outros lugares? Em Belém, aqui ao lado, o asfalto é infinitamente superior.

Há alguns anos fui convidado para cantar em um festival de metal lá no Centro da cidade. Mas era metal pesado mesmo. Fiquei pensando se iria dar certo ou não, e se o público iria gostar. Achei que iria dar merda. Pra cortar custo iria eu de voz e violão, o baixista e o baterista. Chegando lá tava tocando uma banda trash autoral, estilo Sepultura. Olhei e disse: ‘Vou me lascar!’. Quando subi no palco o baixista me liga e disse que havia dado ‘pau’ na lancha que o traria do outro lado do rio para Manaus. Minha aflição dobrou. Já pensou? Mas subi no palco e fiz um dos melhores shows da minha vida! Senti que estava com o público na mão. Quando eu saí do palco, veio uma avalanche de garotos querendo o disco. Achei aquilo impressionante. Às vezes a gente menospreza o público.

Sou casado com a Vânia, que é médica. Eu casei com a pessoa certa.  Nos conhecemos em um show. Fomos apresentados e nos falando. Ela curte muito a arte, não vivencia esse meio, e isso é combustível para que a relação não se torne uma coisa muito comum. Nossos temas são completamente diferente. O diferente é que se atrai. Meu casamento foi meio maluco: começamos a namorar e, uma semana depois, numa tarde estávamos assistindo um filme  e ela virou pra mim e disse: ‘Rapaz, eu queria experimentar casar, é uma coisa legal’. Eu disse que também nunca havia casado, e um olhou pro outro e disse ‘bora’. Coloquei ela no carro, fomos pro Cartório e casamos. Estamos juntos há quatro anos. Ela tem dois filhos de um outro casamento e nos damos super bem.

Meu canto favorito é o Largo São Sebastião. Aquilo me remete a uma cidade do interior. Quando você está ali é meio maluco. Aquela parte do Largo é meio bucólica. Gosto também do bairro Santa Etelvina. Parece que estou no interior, também. É muito parecida, tem traços de cidade do interior. Os curumins brincando na rua, o vizinho na calçada, as ruas sem asfalto, o cara na rede ou assando o churrasquinho na frente da casa no domingo. Alguns bairros ainda preservam traços de identidade, que remetem à condição de interior. Compro peixe lá e adoro. Manaus tem partes que eu gostaria de ter conhecido antes, como a Cachoeira do Tarumã. Imagino como foi aquilo, lindo, limpo. Hoje eu olho pra aquilo e me dá uma tristeza de ver aquele patrimônio assim.  A geografia de lá é muito bonita. Mas você ver aquela água e espuma escorrendo... Quando o turismo chega eu fico cabreiro...

Meu prato favorito é o peixe, principalmente pacu assado com farinha. Também gosto de pirapitinga assada. E do jaraqui  

Eu queria uma Manaus, do meu ponto de vista de artista, que difundisse mais a arte, para que as pessoas tivessem mais acesso a teatros, mais shows autorais. Do ponto de vista de cidadão, nós todos queremos uma Manaus com uma mobilidade urbana melhor, com hospitais mais aparelhados. Até que as nossas escolas não são ruins, e já andei por várias delas estaduais e municipais que têm ar-condicionados e a maioria são bem cuidadas. Só não sei como anda a nossa educação. Queria uma Manaus mais arborizada. Nós avançamos muito de uns tempos pra cá, plantamos muitas árvores. Mas para nós que viajamos para outros lugares é inevitável que se faça uma conexão, uma comparação. Palmas, no Tocantins, tem mais árvores do que nós, e nem leva o título de Amazônia. Belém, três vezes mais árvores do que nós. A gente planta pouca árvore apesar de usufruir o rótulo de ser a capital encrustrada na Amazônia, mas o lado urbano não usufrui disso.

Nosso tratamento de água de esgoto é muito pequeno, quase zero, inclusive. Me preocupa muito essa nova verve, esse novo modismo de condomínio ali pra Ponta Negra. Nós não sabemos como é o tratamento de esgoto daquilo alí. Se você vai em Fortaleza é aquela coisa maravilhosa, mas não pode colocar o pé lá pois está tudo poluído. Alguns dos nossos patrimônios naturais já estão degradados. Fui fazer uma matéria no Parque do Mindú, no Parque Dez, que é a coisa mais linda, maravilhosa, mas peguei uma passarela há 30 metros da água eu não consegui passar por conta do fedor espumoso que havia lá. É descaso. Nos condomínios não há uma fiscalização efetiva, de fato, para que o cara devolva a água limpa para  o subsolo, e causa isso.

Manaus me deu tudo: sucesso, fãs, esposa. Sou muito grato. E não esperava tudo isso de Manaus. É uma cidade extremamente acolhedora e que recebe muito bem seus imigrantes.

Frase

"Manaus tem o povo, que é peça principal pra você se apaixonar pela cidade. Ele é realmente muito acolhedor”, diz Nicolas Júnior, cantor.

Perfil

Nome: Nicolau Miléo Júnior, o "Nicolas Júnior"
Idade: 42
Natural de: Santarém (PA)
Profissão:  cantor 
Curiosidade:  o artista é um dos representantes locais do gênero “amazonês”, que retrata o cotidiano dos amazonenses a partir de letras que os identificam por meio de peculiaridades, como o linguajar, hábitos e gastronomia, por exemplo.

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