Economia

Amazonas perde espaço para investimentos chineses

Segundo os dados, o Amazonas é o 12º principal destino dos investimentos. No entanto, eles se concentram em apenas 11 projetos, mesmo número divulgado no relatório anterior.

Lucas dos Santos
16/05/2026 às 08:44.
Atualizado em 16/05/2026 às 08:44

A empresa chinesa controladora da Mineração Taboca anunciou em janeiro deste ano um programa de investimentos que prevê a aplicação de US$ 100 milhões até 2028, com o objetivo de dobrar a capacidade produtiva (Foto: Reprodução/Institucional)

Os investimentos chineses no Amazonas permanecem na mesma quantidade da década de 2000, apesar dos recentes incrementos no Brasil feitos pelo país asiático. A avaliação é do professor e doutor em sociologia Cleiton Maciel, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), que analisou o relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CECB) sobre os investimentos feitos entre 2007 e 2025 no território nacional.

Segundo os dados, o Amazonas é o 12º principal destino dos investimentos. No entanto, eles se concentram em apenas 11 projetos, mesmo número divulgado no relatório anterior. Na indústria manufatureira, se destacou o início da fabricação de smartphones da marca Jovi na Zona Franca de Manaus (ZFM) em janeiro de 2025, em parceria com a GBR Componentes.

Para Cleiton Maciel, o Brasil se tornou grande depósito dos investimentos chineses em diversos setores, mas “o Amazonas não tem se destacado nisso, não tem uma variação”.

“O Amazonas, no caso, mantém o mesmo nível de investimentos chineses [desde a década de 2000]. Isso demonstra que nós não estamos conseguindo diversificar a nossa cadeia produtiva para que a nossa estrutura econômica seja mais atraente para o capital chinês e o estrangeiro de modo geral”, avaliou.

Sociólogo Cleiton Maciel afirmou que o Brasil se tornou um grande destino dos investimentos chineses

 O pesquisador ressaltou que os principais projetos ainda são ligados à manufatura, que já é muito segmentado, propondo que a economia local precisa se expandir para outras matrizes econômicas, a exemplo de projetos de sustentabilidade.

“A gente tem que desenvolver projetos, o governo tem que incentivar isso, seja na área de fármacos, na área de energia. A gente tem possibilidade disso em outros polos, mas me parece que a gente tem um déficit muito grande em relação a isso. Então, os investimentos chineses acabam indo para outros lugares mais industrializados”, disse.

FALTAM PROJETOS

Cleiton Maciel reconhece a grande quantidade de investimentos existentes, mas que ainda não conseguiu “dar esse salto”. Para ele, a região ainda carece de uma perspectiva mais diversa de matriz econômica e faltam projetos de longo prazo no Amazonas e na Amazônia para atrair esses investimentos.

“Depender só dos investimentos na área de manufatura da Zona Franca de Manaus é muito pouco, porque os chineses também, eu falo isso na minha tese, eles já chegaram num certo limite de investimento nessa área de eletroeletrônicos. Eles estão investindo em outras áreas de energia, carros elétricos, do petróleo. Não vejo perspectivas de crescimento nos investimentos se a gente não mudar a nossa base produtiva”, concluiu.

Um dos pontos de diversificação apontados pelo pesquisador deverá constar em relatórios apenas futuramente, como é o caso do investimento chinês na área da mineração no Amazonas. A Taboca Mineração foi vendida em 2024 por 340 milhões de dólares para a chinesa CNMC, que anunciou um ciclo de investimentos de 100 milhões de dólares até 2028 para dobrar a capacidade de produção da Mina do Pitinga, localizada em Presidente Figueiredo.

 Suframa tenta resolver falta de terrenos

 Logo após sua entrada no cargo, o superintendente Leopoldo Montenegro afirmou que a questão fundiária é uma das mais importantes a serem tratadas nos próximos anos, já que os espaços atuais dos distritos industriais I e II estão completamente saturados.

“A gente iniciou um trabalho de alteração do plano diretor, encaminhamos essa proposta à prefeitura, porque isso precisa primeiro ser mudado por ela para depois a Suframa aderir. A gente entende que devem ser criados novos eixos em outros bairros da cidade de Manaus para permitir a implantação de fábricas até tipo 5. A gente precisa permitir, por meio do plano diretor, que outros bairros da cidade de Manaus possam receber essas indústrias, para que essas fábricas venham para cá e tenham espaço para se desenvolver”, disse.

Apesar dessas questões, o presidente executivo do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Lúcio Flávio Morais de Oliveira, avaliou que há uma tendência de crescimento nos investimentos dentro do polo industrial, consolidando o Amazonas como “um importante polo de finalização de insumos industriais produzidos em larga escala pela China” e funcionando como porta de entrada para o mercado consumidor.

“Em diversas cadeias produtivas importantes, os investimentos chineses têm ampliado a produção, fortalecido o faturamento e contribuído para o dinamismo da indústria local. Hoje, a presença chinesa pode ser percebida em segmentos como motocicletas, televisores, condicionadores de ar, placas de circuito impresso e telefones celulares”, disse.

 Norte é o segundo maior destino

 Enquanto a diversificação não se concretiza no Amazonas, outros estados da região Norte vêm sendo escolhidos como destino de investimentos chineses. No setor do petróleo, a petroleira chinesa CNPC adquiriu, em parceria com a americana Chevron, nove blocos para exploração de petróleo na Foz do Amazonas, localizada às margens do Pará e do Amapá.

O ingresso fez a região Norte se tornar o segundo maior destino dos chineses no Brasil, com participação de 26,7% da distribuição de investimentos em 2027, ficando atrás somente do Sudeste (32,5%) e à frente pela primeira vez do Centro-Oeste (14%), Sul (14%) e Nordeste (12,8%).

Outra questão é uma série de investimentos chineses e de outras áreas que estão previstos para a Zona Franca de Manaus, mas ainda não se concretizaram devido à falta de disponibilidade de terras suficientes para instalação física das empresas na capital amazonense, pauta que já foi levantada por representantes de associações de empresas sediadas na capital.

A reportagem apurou no final de março que a falta de terrenos utilizáveis poderá travar a instalação de mais de 200 fábricas no polo industrial. O tema é uma pauta recorrente desde a gestão do ex-superintendente Bosco Saraiva, o qual informou que o fato já havia sido levado ao Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb) para que fossem apresentadas soluções.

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