Economia

Copa do Mundo e São João impulsionam a renda

Costureiras e lojistas apostam na combinação entre festas juninas e Copa para ampliar vendas

Robson Adriano
30/05/2026 às 16:17.
Atualizado em 30/05/2026 às 16:27

Foto: Daniel Brandão

Diante da máquina de costura, Suely Siqueira Guimarães, 73 anos, já confecciona vestidos e blusas para as festas juninas. Neste ano, porém, ela divide a atenção com a Copa do Mundo Fifa. A combinação entre os dois eventos tem aumentado as encomendas e reforçado a expectativa de renda extra para a costureira.

Suely atende, em média, 20 clientes por semana e afirma que, nesta época do ano, o movimento cresce cerca de 20%.

“Depois do dia 15 de maio até final de junho a gente não para. É todo tempo trabalhando com encomenda. É (cliente) o tempo todo. Só que com a festa junina, o movimento é maior, uns 20% a mais. (Me) Divido entre a dança (junina) e a Copa. Está começando o movimento”, disse a costureira.

Questionada se o período da Copa do Mundo também deve aumentar a renda, Suely acredita que sim.

“Tanto a copa quanto os vestidos para as festas juninas. Com os dois a gente consegue uma coisa melhor para a gente”, acrescentou.

Suely aprendeu a costurar aos 18 anos, na escola onde estudava, em Humaitá. Mãe de quatro filhos, ela divide o ateliê, localizado no bairro Cachoeirinha, zona Sul de Manaus, com a amiga de longa data Rosilene Aragão, 60 anos.

Juntas, as duas já confeccionaram dezenas de figurinos para quadrilhas juninas e guardam boas lembranças daquele período.

“Na nossa época era de 60 a 70 vestidos. Depois a gente pegava de 35 a 40 vestidos. E só era ela e eu. (Nós duas) trabalhava praticamente dia e noite. E dávamos conta. Antes do dia (da apresentação), estava tudo entregue. Só esperando. Tu precisava ver minha casa. Só era vestido de quadrilha. Vestido e terno de quadrilha. O que a gente pudesse fazer, a gente fazia”, relembrou.

“Eu amo o que faço. Sempre eu amei. Se eu pudesse ficar 24 horas aqui (na máquina), eu ficaria”, completou.

Comércio

Na avenida Marechal Deodoro, no Centro de Manaus, conhecida popularmente como Bate Palma, os lojistas dividiram os manequins entre roupas juninas e camisas da seleção brasileira. A aposta principal, no entanto, continua sendo o período junino.

A gerente da Larissa Modas, Erlen Souza, afirma que já percebe aumento na procura por produtos relacionados à Copa, mas destaca que as festas juninas devem liderar as vendas.

“Por enquanto tem saído mais é Copa. As pessoas estão mais focadas na Copa, porque está mais próximo. Agora que começamos a colocar a festa junina, tem saído bastante”, disse.

“Principalmente os juninos, porque a gente vai até o final de julho. As pessoas ainda procuram. As festas se estendem de junho a julho”, acrescentou.

No BBC Center, o proprietário Maher Taraira decidiu investir nas duas datas.

“Eu sempre me preparo para festa junina. A expectativa é que semana que vem comece a esquentar. As pessoas estão começando a comprar camisas do Brasil, uniformes. Festa junina ainda não começou (a venda). As pessoas vêm e olham. A gente tem que acreditar. O povo gosta de festa. Festa junina, de boi e da Copa. São mais de 150 modelos de camisas, eu investi bastante”, afirmou.

Para Hytalo Monteiro, gerente da Estilo Plus, o foco continua sendo o São João.

“Até porque se o Brasil perder, então, perdemos tudo. O nosso investimento vai ser mais em festa junina. Os looks do Brasil já começamos a vender agora, porque já estão procurando. Mas, é como eu disse, se o Brasil perder, acabaram todas as vendas. Mas o xadrez vai até meados de agosto vendendo”, avaliou.

Em números

De acordo com o Portal Salário, o Brasil possui mais de 120 mil trabalhadores formais na profissão de costureira. No Amazonas, são 1.292 microempreendedores individuais (MEIs) cadastrados como costureiras e costureiros.

Já a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) informa que o setor produziu 8,02 bilhões de peças em 2023.

Impacto Econômico

Levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas (Fecomércio-AM) mostra que 62% dos consumidores acreditam que a Copa do Mundo impacta pouco ou nada seus hábitos de compra.

Segundo a entidade, o evento não deve impulsionar de forma ampla o consumo, concentrando efeitos principalmente nos segmentos de eletrônicos, vestuário esportivo, alimentos e bebidas.

“A expectativa não é alarmante. Precisamos ter, realmente, a consciência de que é um elemento que hoje, pela própria manifestação dos brasileiros, nem muita gente está entusiasmada, nem muitos estão pessimistas, está um nivelamento médio. Há expectativas positivas e um certo cuidado a esse momento. Mas a Copa do Mundo será sempre um evento capaz de movimentar alguns setores específicos da nossa economia”, avaliou o presidente da Fecomércio-AM, Anderson Frota.

De acordo com a pesquisa, os principais gastos previstos pelos consumidores são com bebidas e comidas (52%), roupas e acessórios (38%), festas e eventos (35%), streaming e internet (17%), transporte (12%), eletrodomésticos e eletrônicos (12%) e viagens (4%). Outros 11% afirmaram que não pretendem gastar durante o mundial.

Para a diretora administrativa e financeira do Sebrae Amazonas, Adrianne Antony Gonçalves, planejamento é a palavra-chave para aproveitar o aumento do consumo.

“O planejamento é um dos principais diferenciais para aproveitar melhor períodos de grande movimentação comercial, como a Copa do Mundo. O empreendedor precisa entender o comportamento do consumidor, organizar estoque, pensar em promoções atrativas e utilizar o marketing de oportunidade de forma estratégica”, analisou.

A diretora-superintendente do Sebrae Amazonas, Ananda Carvalho Pessôa, destaca que grandes eventos costumam beneficiar pequenos empreendedores.

“A Copa do Mundo movimenta diferentes setores da economia e cria um ambiente muito favorável para os pequenos negócios. Esse período amplia o consumo, estimula encontros entre amigos e famílias e abre espaço para que empreendedores criem ofertas temáticas, fortaleçam a presença digital e desenvolvam estratégias comerciais alinhadas ao momento”, afirmou.

Costura em alta

  • A movimentação das festas juninas e da Copa do Mundo aquece a procura por roupas temáticas e gera oportunidades para profissionais da costura.

  • 120 mil - trabalhadores formais atuam como costureiros no Brasil.

  • 1.292 - microempreendedores individuais exercem a atividade no Amazonas.

  • 20% é o aumento nas encomendas registrado por Suely neste período.

  • 8,02 bilhões de peças foram produzidas pela indústria brasileira de confecção em 2023.
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