Costureiras e lojistas apostam na combinação entre festas juninas e Copa para ampliar vendas
Foto: Daniel Brandão
Diante da máquina de costura, Suely Siqueira Guimarães, 73 anos, já confecciona vestidos e blusas para as festas juninas. Neste ano, porém, ela divide a atenção com a Copa do Mundo Fifa. A combinação entre os dois eventos tem aumentado as encomendas e reforçado a expectativa de renda extra para a costureira.
Suely atende, em média, 20 clientes por semana e afirma que, nesta época do ano, o movimento cresce cerca de 20%.
“Depois do dia 15 de maio até final de junho a gente não para. É todo tempo trabalhando com encomenda. É (cliente) o tempo todo. Só que com a festa junina, o movimento é maior, uns 20% a mais. (Me) Divido entre a dança (junina) e a Copa. Está começando o movimento”, disse a costureira.
Questionada se o período da Copa do Mundo também deve aumentar a renda, Suely acredita que sim.
“Tanto a copa quanto os vestidos para as festas juninas. Com os dois a gente consegue uma coisa melhor para a gente”, acrescentou.
Suely aprendeu a costurar aos 18 anos, na escola onde estudava, em Humaitá. Mãe de quatro filhos, ela divide o ateliê, localizado no bairro Cachoeirinha, zona Sul de Manaus, com a amiga de longa data Rosilene Aragão, 60 anos.
Juntas, as duas já confeccionaram dezenas de figurinos para quadrilhas juninas e guardam boas lembranças daquele período.
“Na nossa época era de 60 a 70 vestidos. Depois a gente pegava de 35 a 40 vestidos. E só era ela e eu. (Nós duas) trabalhava praticamente dia e noite. E dávamos conta. Antes do dia (da apresentação), estava tudo entregue. Só esperando. Tu precisava ver minha casa. Só era vestido de quadrilha. Vestido e terno de quadrilha. O que a gente pudesse fazer, a gente fazia”, relembrou.
Comércio
Na avenida Marechal Deodoro, no Centro de Manaus, conhecida popularmente como Bate Palma, os lojistas dividiram os manequins entre roupas juninas e camisas da seleção brasileira. A aposta principal, no entanto, continua sendo o período junino.
A gerente da Larissa Modas, Erlen Souza, afirma que já percebe aumento na procura por produtos relacionados à Copa, mas destaca que as festas juninas devem liderar as vendas.
“Por enquanto tem saído mais é Copa. As pessoas estão mais focadas na Copa, porque está mais próximo. Agora que começamos a colocar a festa junina, tem saído bastante”, disse.
“Principalmente os juninos, porque a gente vai até o final de julho. As pessoas ainda procuram. As festas se estendem de junho a julho”, acrescentou.
No BBC Center, o proprietário Maher Taraira decidiu investir nas duas datas.
“Eu sempre me preparo para festa junina. A expectativa é que semana que vem comece a esquentar. As pessoas estão começando a comprar camisas do Brasil, uniformes. Festa junina ainda não começou (a venda). As pessoas vêm e olham. A gente tem que acreditar. O povo gosta de festa. Festa junina, de boi e da Copa. São mais de 150 modelos de camisas, eu investi bastante”, afirmou.
Para Hytalo Monteiro, gerente da Estilo Plus, o foco continua sendo o São João.
“Até porque se o Brasil perder, então, perdemos tudo. O nosso investimento vai ser mais em festa junina. Os looks do Brasil já começamos a vender agora, porque já estão procurando. Mas, é como eu disse, se o Brasil perder, acabaram todas as vendas. Mas o xadrez vai até meados de agosto vendendo”, avaliou.
Em números
De acordo com o Portal Salário, o Brasil possui mais de 120 mil trabalhadores formais na profissão de costureira. No Amazonas, são 1.292 microempreendedores individuais (MEIs) cadastrados como costureiras e costureiros.
Já a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) informa que o setor produziu 8,02 bilhões de peças em 2023.
Impacto Econômico
Levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas (Fecomércio-AM) mostra que 62% dos consumidores acreditam que a Copa do Mundo impacta pouco ou nada seus hábitos de compra.
Segundo a entidade, o evento não deve impulsionar de forma ampla o consumo, concentrando efeitos principalmente nos segmentos de eletrônicos, vestuário esportivo, alimentos e bebidas.
“A expectativa não é alarmante. Precisamos ter, realmente, a consciência de que é um elemento que hoje, pela própria manifestação dos brasileiros, nem muita gente está entusiasmada, nem muitos estão pessimistas, está um nivelamento médio. Há expectativas positivas e um certo cuidado a esse momento. Mas a Copa do Mundo será sempre um evento capaz de movimentar alguns setores específicos da nossa economia”, avaliou o presidente da Fecomércio-AM, Anderson Frota.
De acordo com a pesquisa, os principais gastos previstos pelos consumidores são com bebidas e comidas (52%), roupas e acessórios (38%), festas e eventos (35%), streaming e internet (17%), transporte (12%), eletrodomésticos e eletrônicos (12%) e viagens (4%). Outros 11% afirmaram que não pretendem gastar durante o mundial.
Para a diretora administrativa e financeira do Sebrae Amazonas, Adrianne Antony Gonçalves, planejamento é a palavra-chave para aproveitar o aumento do consumo.
“O planejamento é um dos principais diferenciais para aproveitar melhor períodos de grande movimentação comercial, como a Copa do Mundo. O empreendedor precisa entender o comportamento do consumidor, organizar estoque, pensar em promoções atrativas e utilizar o marketing de oportunidade de forma estratégica”, analisou.
A diretora-superintendente do Sebrae Amazonas, Ananda Carvalho Pessôa, destaca que grandes eventos costumam beneficiar pequenos empreendedores.
“A Copa do Mundo movimenta diferentes setores da economia e cria um ambiente muito favorável para os pequenos negócios. Esse período amplia o consumo, estimula encontros entre amigos e famílias e abre espaço para que empreendedores criem ofertas temáticas, fortaleçam a presença digital e desenvolvam estratégias comerciais alinhadas ao momento”, afirmou.
Costura em alta