Mães solo

Empreendedorismo materno no Amazonas

Para mães de crianças com deficiência, flexibilidade do trabalho é questão de sobrevivência

Lucas Vasconcelos
02/05/2026 às 15:49.
Atualizado em 02/05/2026 às 15:49

Taty Paiva concilia a gestão de redes sociais com a rotina de terapias do filho Miguel e os outros três filhos (Jeiza Russo)

A presença de mulheres à frente dos lares brasileiros vem se tornando cada vez maior. Dados do Censo 2022, do IBGE, mostram que 49,1% das unidades domésticas do país tinham mulheres como responsáveis, proporção que se aproximou da registrada entre homens. Em 2010, esse percentual era de 38,7%.

No Amazonas, as mulheres já representam cerca de 27,9% dos donos de negócios, somando aproximadamente 175 mil empreendedoras, segundo o Sebrae Amazonas. Em um estado com mais de 109 mil famílias chefiadas por mães solo, o empreendedorismo tem se consolidado como uma das principais alternativas para garantir renda e conciliar o cuidado com os filhos.

Mas, por trás da ideia de autonomia, há também sobrecarga, instabilidade financeira e uma rede de apoio que nem sempre existe.

Mãe de quatro filhos, a social media Taty Paiva, de 37 anos, afirma que a rotina começa cedo e gira em torno das demandas da maternidade, do trabalho e da casa. Duas filhas são adolescentes gêmeas, uma tem seis anos e o caçula, Miguel, de quatro anos, é uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

“Tem dias que eu consigo organizar. Normalmente eu organizo a semana com os afazeres, tenho as tarefas fixas, que, por exemplo, terapia tem todos os dias já fixos e horários também”, relata Paiva.

Segundo ela, o trabalho em casa permite flexibilidade, mas também mistura todas as responsabilidades em um mesmo ambiente.

“Quando me dedico ao trabalho, parece que eu estou faltando com a maternidade. Quando eu me dedico com a maternidade, parece que eu estou faltando no trabalho. Então, essa sensação, assim, de sempre estar faltando é o que mais pesa para mim”, afirma a social media.

Empreender por escolha e necessidade

O empreendedorismo entrou cedo na vida de Taty, influenciado pela trajetória familiar. Ela conta que a mãe, também mãe solo, encontrou no trabalho por conta própria uma alternativa para sustentar os filhos.

“Eu venho de uma família empreendedora. Meu avô, nordestino, veio para Manaus em busca de melhorias. Então, ele foi um comerciante muito sábio. E a minha mãe também, né? Mãe solo, mãe de sete filhos”, lembra.

Depois da maternidade, a forma de trabalhar mudou. Primeiro, vieram vendas de cosméticos, roupas e sapatos. Mais tarde, após a gravidez do filho mais novo e o diagnóstico de autismo, ela precisou reorganizar novamente a vida profissional.

“Foi uma escolha, mas depois se tornou uma necessidade. De estar em casa, de acompanhar o meu filho”, diz.

Para Taty, a maternidade de uma criança com autismo influencia todas as decisões do dia a dia.

“Influencia em absolutamente tudo. A minha rotina, ela precisa ser pensada. Ela é planejada, mas ela é pensada todos os dias e a cada momento”, afirma.

Ela explica que crises, terapias, escola e necessidades de atenção constante afetam diretamente o tempo disponível para trabalhar.

“Isso impacta, né? Impacta diretamente na renda, porque eu não tenho como usufruir mais do meu trabalho, ampliar mais ele. E, por que assim, querendo ou não, quando a gente empreende, o que você não faz, você não ganha”, relata.

A artesã Nathasha Cruz encontrou na costura a forma de estar presente na vida do filho, João, sem abrir mão da renda

Rede de apoio muda a rotina

 A costureira e artesã Nathasha Cruz, de 42 anos, também encontrou no empreendedorismo uma forma de permanecer próxima do filho João, hoje com 13 anos. Antes de empreender, ela foi bancária e executiva de um grande banco, fora de Manaus.

“Foi uma escolha devido a minha necessidade de ficar com meu filho. Antes de empreender, eu fui bancária, fui executiva de um grande banco e não morava em Manaus. Quando engravidei, decidi ter meu filho em Manaus pra ficar perto da minha família”, conta.

A costura veio de casa, ensinada pela mãe. O negócio cresceu a partir da produção de bolsas e peças artesanais.

“Foi a melhor escolha, mesmo com todas as dificuldades que enfrentei. Pude participar de todos os momentos da vida do meu filho, mas muitas vezes, eu precisei virar madrugadas costurando”, afirma.

Mesmo com uma rede familiar forte, Nathasha reconhece a sobrecarga. “A minha grande dificuldade até hoje, mesmo eu já, tendo melhorado bastante é a sobrecarga de tarefas, são as múltiplas atribuições. Em um único dia eu sou costureira, sou designer, sou mãe, sou dona de casa, sou mulher, sou blogueira, sou social média”, diz.

Ela afirma que a rede de apoio fez diferença em sua trajetória, mas reconhece que essa não é a realidade de muitas mulheres.

“A minha rede de apoio é maravilhosa, aliás sempre foi. A minha mãe e diga-se de passagem, a minha maior professora de vida e de costura, é meu braço direito, esquerdo, pernas e tudo mais”, relata.

“Mas infelizmente eu sei que nem todas as realidades são as mesmas e muitas mãezinhas não tem essa rede de apoio e acabam tendo muito mais dificuldades para ter sua independência financeira”, completa a artesã.

Empreendedorismo feminino em crescimento

Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostram que o empreendedorismo feminino tem ganhado força no Amazonas. Atualmente, as mulheres representam cerca de 27,9% dos donos de negócios no estado, somando aproximadamente 175 mil empreendedoras.

Segundo o Sebrae, muitas dessas mulheres são chefes de família, o que reforça o papel econômico que desempenham dentro de casa.

O cenário também revela o contexto social por trás desse crescimento. O Amazonas possui cerca de 109,3 mil famílias chefiadas por mães solo, o equivalente a 12,1% dos lares. Em Manaus, o percentual é ainda maior: 14,2% das casas são lideradas por mulheres com filhos.

Para apoiar esse público, o programa Sebrae Delas atua com ações voltadas ao fortalecimento emocional e ao desenvolvimento dos negócios.

Entre as iniciativas estão capacitações, mentorias, consultorias especializadas, eventos, trilhas de desenvolvimento para iniciantes e empreendedoras formalizadas, além de espaços de conexão e networking feminino.

Apesar do avanço, as dificuldades ainda são estruturais. De acordo com o Sebrae, os principais desafios enfrentados pelas mulheres empreendedoras envolvem questões financeiras, como falta de crédito e baixa renda; dificuldades de gestão, como ausência de planejamento; além da sobrecarga social e da desigualdade de oportunidades no mercado.

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por