Indicadores

Estudo revela potencial econômico oculto no Médio Amazonas

Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas aponta turismo comunitário, extrativismo e produção agrícola como motores do desenvolvimento em Silves, Itapiranga, São Sebastião do Uatumã e Urucará

Lucas Motta
25/07/2026 às 16:03.
Atualizado em 25/07/2026 às 16:06

Danilo Egle apresenta diagnóstico sobre vocações produtivas e desafios de cidades do interior (Paulo Bindá)

Mapa de Potencialidades Territoriais, do Atlas ODS Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) afirma que história econômica e social dos municípios do Médio Amazonas é mais antiga e diversa do que indicam os tradicionais indicadores de desenvolvimento e reafirma potencial turístico de Silves, Itapiranga, São Sebastião do Uatumã e Urucará.

A pesquisa durou seis meses e foi desenvolvida por pesquisadores do projeto Atlas ODS Amazônia, em parceria com o Instituto Acariquara. O estudo foi desenvolvido em quatro etapas, incluindo análise de bases públicas, visitas de campo, grupos focais e encontros com representantes da sociedade civil e do poder público local. Ao todo, foram realizados 18 encontros iniciais envolvendo 33 atores locais, além de atividades de escuta com moradores, lideranças e produtores rurais.

O estudo conseguiu identificar que esses municípios já possuem cadeias econômicas fortes no extrativismo (castanha, tucumã e guaraná). Em Silves, a fabricação de farinha continua sendo um pilar da agricultura familiar, com projetos de processamento de tucumã, andiroba e pau-rosa. Em Itapiranga, o tucumã se consolidou como relevante fonte de renda para os produtores, abastecendo os mercados de Manaus. Urucará se destaca pela produção organizada de guaraná orgânico certificado, que chega tanto ao mercado nacional quanto ao internacional. Já em São Sebastião do Uatumã, a economia combina o aproveitamento de produtos da sociobiodiversidade com o polo naval e o turismo comunitário.

O Coordenador Técnico Atlas ODS Amazônia, Danilo Egle, disse que um ponto muito interessantes do levantamento é que a reunião de dados oficiais, análises de campo e escuta de moradores, lideranças locais e representantes do poder público identificou características socioeconômicas, vocações produtivas, desafios e oportunidades para o desenvolvimento dos municípios estudados. Em Itapiranga, a taxa de escolarização de crianças entre 6 e 14 anos chega a 98,45%, uma das mais altas do Amazonas, mas apenas 8,36% dos domicílios têm esgotamento sanitário adequado.

Em Urucará, 77,12% das vias urbanas são arborizadas, porém o saneamento básico é extremamente baixo (apenas 0,89% dos domicílios). A coleta de lixo atende 57,68% da população, enquanto mais de 93% da receita corrente do município depende de transferências externas.

“Temos nessa iniciativa, a ideia de interseccionar o que a gente encontra com dados secundários de instituições como o IBGE e o que as pessoas acham como algo relevante que poderia ser melhorado para dar riqueza para a região”, disse.

Apesar do forte potencial desses locais, os moradores também sabem que há falta de apoio seja no vazio de políticas públicas ou no incentivo. Uma das propostas para resolver esse dilema é a criação de um consórcio municipal para incrementar as iniciativas. Para o pesquisador, essa é uma das principais conquistas do estudo, mostrar que os próprios cidadãos tem consciência tanto do potencial quanto de possíveis estratégias para fortalecer uma possível matriz econômica. Entre os exemplos estão cooperativas agrícolas, associações de pescadores, grupos de mulheres empreendedoras e iniciativas de processamento de produtos da floresta.

Turismo de base comunitária como motor econômico

Através do turismo de base comunitária, o município pode ter ganhos econômicos, sociais e ambientais. A primeira mudança é a ampliação da geração de renda direta e diversificada com hospedagem (pousadas comunitárias), alimentação, guias turísticos, transporte fluvial, artesanato e experiências culturais. Com a circulação do dinheiro na comunidade, os empreendimentos ganham mais lucro e demanda, o que puxa a necessidade de mão de obra qualificada: criação de empregos.

Outro resultado é o social, com investimentos em infraestrutura e serviços. Além do incentivo à conservação da floresta com a aplicação de políticas de baixo impacto como gestão dos resíduos sólidos e monitoramento a respeito da sobrecarga ambiental.

“É um turismo que atrai muitos brasileiros porque você não precisa ter um poder econômico muito alto para poder usufruir dele. Quando a gente encontra, por exemplo, lagos, hotéis comunitário, turismo religioso como o caso de Itapiranga com a santa que fez aparição naquela região, a gente encontra coisas que não estão nos relatórios”, disse o coordenador.

Devolutiva do estudo

Os resultados completos serão publicados em um livro em setembro, com apoio da Eneva.

A proposta é que o estudo retorne para as comunidades que ajudaram a fazer essa pesquisa. Para Danilo, as informações divulgadas vão ajudar na criação de novos debates, no incentivo de projetos e na oportunidade para que as novas gerações aprimorem as estruturas que vão fortalecer o potencial dos municípios.

“A mudança vai vir quando a gente entender que cada território da Amazônia Legal tem uma realidade diferente e precisa de uma adequação. A gente não pode olhar os 772 municípios da mesma forma, com os mesmos indicadores, isso faz com que tenhamos espaços vazios de realidades que são deixadas de lado”, comentou.

Com base nos resultados, eles defendem maior união entre os municípios. Uma das sugestões é criar um consórcio intermunicipal entre Silves, Itapiranga, São Sebastião do Uatumã e Urucará. O objetivo é trabalhar juntos em educação, saúde, cultura, empreendedorismo e desenvolvimento econômico. Segundo a equipe, as cidades têm vocações parecidas e problemas em comum, o que facilita ações conjuntas.

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por