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Moradia já é o maior gasto da população 50+ no Norte do Brasil

Levantamento sobre a economia prateada mostra que habitação supera alimentação nas despesas dos consumidores mais experientes na região norte

acritica.com
30/08/2026 às 09:51.
Atualizado em 30/08/2026 às 09:51

Em Manaus, essa transformação ganha contornos específicos quando analisada sob a ótica dos padrões de consumo e das necessidades urbanas da população com mais de 50 anos. (Foto: Reprodução/Freepik)

O envelhecimento populacional no Brasil avança a passos largos e começa a redefinir as dinâmicas econômicas de diversos setores. Em Manaus, essa transformação ganha contornos específicos quando analisada sob a ótica dos padrões de consumo e das necessidades urbanas da população com mais de 50 anos.

Mais do que uma mudança demográfica, o crescimento desse público, que representa cerca de 30% da população brasileira segundo o IBGE, revela uma transformação no comportamento de consumo e na maneira como os brasileiros desejam viver. Longe da imagem tradicional associada à aposentadoria passiva, a população 50+ mantém uma vida economicamente ativa e busca autonomia, convivência, mobilidade e qualidade de vida, passando a exigir produtos e serviços que acompanhem esse novo momento.

Um dos dados que melhor traduz essa transformação está na composição das despesas. Na Região Norte, a moradia representa cerca de 30% dos gastos mensais da população 50+, superando a alimentação, que responde por 29%, segundo cruzamento de dados do IBGE e da Data8 realizado pela MV Marketing. O resultado contraria uma percepção comum sobre o orçamento das famílias: moradia não é apenas uma das principais despesas, mas aparece como o maior item da cesta de gastos da população madura.

O peso da habitação ganha ainda mais relevância quando associado às características de uma cidade como Manaus. Para esse público, morar bem vai além da estrutura física do imóvel. Localização, acesso a serviços, saúde, comércio, gastronomia, cultura, lazer e possibilidade de deslocamento passam a fazer parte da própria equação de qualidade de vida.

Ouvir antes de criar

Essa mudança demográfica também impactou os negócios da Patter Incorporadora. No último empreendimento da empresa, mais de 50% das unidades foram vendidas para investidores 50+. Foi a partir dessa constatação que os executivos da companhia decidiram estudar o mercado e aprofundar o conhecimento antes de definir novas soluções imobiliárias. Em vez de partir diretamente para a concepção de um produto, a empresa iniciou o processo pela escuta.

“Para ampliar a discussão sobre novos segmentos de imóveis, reunimos os melhores especialistas em gerontologia e arquitetura para longevidade e passamos a estudar o que já é padrão em outros mercados e ainda não chegou aqui. O objetivo é estabelecer um novo referencial de qualidade em serviços para longevidade no Amazonas e colocar nossos investidores à frente de uma transformação demográfica que já está em curso", afirma Sérgio Avelino Filho, sócio-diretor da Patter.

A proposta foi responder a uma questão essencial: como esse público quer viver nos próximos anos e como isso impacta o conceito de moradia.

O que a escuta revelou

A pesquisa, conduzida pelas especialistas da MV Marketing, identificou que as escolhas de moradia estão diretamente relacionadas ao estilo de vida e à manutenção dos vínculos sociais. A busca por convivência, por exemplo, não significa necessariamente viver apenas entre pessoas da mesma faixa etária. A proximidade da família, a interação com diferentes gerações e a conexão com o bairro aparecem como elementos importantes para preservar autonomia, pertencimento e qualidade de vida.

Para Bete Marin, especialista em gerontologia e cofundadora da MV Marketing, esse tipo de escuta deixou de ser complementar e passou a ser ponto de partida. “Quatro em cada dez brasileiros dizem que faltam opções pensadas para a sua idade, e 87% gostariam de ser mais ouvidos pelas empresas. Foram esses dados que nos levaram a incluir a pesquisa em profundidade como padrão nas nossas assessorias”, explica. “A escuta em profundidade testa produtos e conceitos e nos ajuda a ressignificar desejos como autonomia, segurança e conveniência”, completa Bete Marin.

Bete Marin, especialista em gerontologia e cofundadora da MV Marketing

“Para esse público, autonomia não significa fazer tudo sozinho, mas ter liberdade para escolher quando precisa de apoio. Segurança não está relacionada a restrições, mas a ambientes que permitam circulação, independência e conforto. E conveniência deixa de ser um pacote padronizado para se transformar em acesso a soluções que podem ser acionadas de acordo com a necessidade de cada morador.”

Outra constatação da pesquisa diz respeito à consciência sobre residências acessíveis para a longevidade. Para quem já viveu uma situação em que a própria casa se tornou um obstáculo, ter uma residência acessível passa a ser prioridade.

O ambiente como facilitador

“O ambiente pode funcionar como facilitador da autonomia ou como barreira”, afirma a médica geriatra Karoline Rodrigues, sócia fundadora do Instituto Senescer e presidente da Representação Amazonas da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia). “Um imóvel deve ser planejado pensando no longo prazo, de modo a acolher o morador em todas as fases da vida. Arquitetura, engenharia e design já convergem segurança e estética. É possível ter um lar que integre funcionalidade, segurança e estética.

Quando pensamos nessas características desde a construção, evitamos reformas no futuro, que muitas vezes estão associadas a situações emergenciais, como observa no dia a dia de seus pacientes e familiares”, afirma Karoline

Karoline Rodrigues, sócia fundadora do Instituto Senescer

Rodrigues, que é supervisora da residência de geriatria do Hospital Universitário Getúlio Vargas, na Universidade Federal do Amazonas - UFAM, onde também é professora mestre. Ela acrescenta que o olhar precisa ir além das paredes do imóvel. “A localização, a possibilidade de caminhar com segurança, o acesso a serviços de saúde, comércio, lazer, transporte e espaços de convivência influenciam diretamente a atividade física, a socialização e o bem-estar.”

Da escuta para a arquitetura

O processo levou a Patter a ampliar a discussão sobre o que significa desenvolver empreendimentos para o público maduro, como a preocupação com a longevidade. “Reunimos profissionais especializados em áreas relacionadas à longevidade para estudar referências, modelos e soluções que possam estabelecer um novo referencial de imóveis voltados ao investidor maduro de Manaus.

A ideia é compreender que a longevidade produz diferentes perfis de usuários, diferentes momentos de vida e diferentes necessidades. E para todos esses momentos, nada melhor que um prédio multigeracional e atemporal”, complementa Sérgio Avelino Filho.

É justamente essa diversidade que começa a movimentar o mercado imobiliário brasileiro, com o surgimento de modelos de moradia que combinam localização urbana, arquitetura funcional, serviços sob demanda, convivência e autonomia. Essa mudança de perspectiva ajuda a explicar por que a discussão sobre moradia para o público 50+ não deve ser tratada apenas como questão de acessibilidade ou adaptação.

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