Levantamento sobre a economia prateada mostra que habitação supera alimentação nas despesas dos consumidores mais experientes na região norte
Em Manaus, essa transformação ganha contornos específicos quando analisada sob a ótica dos padrões de consumo e das necessidades urbanas da população com mais de 50 anos. (Foto: Reprodução/Freepik)
O envelhecimento populacional no Brasil avança a passos largos e começa a redefinir as dinâmicas econômicas de diversos setores. Em Manaus, essa transformação ganha contornos específicos quando analisada sob a ótica dos padrões de consumo e das necessidades urbanas da população com mais de 50 anos.
Mais do que uma mudança demográfica, o crescimento desse público, que representa cerca de 30% da população brasileira segundo o IBGE, revela uma transformação no comportamento de consumo e na maneira como os brasileiros desejam viver. Longe da imagem tradicional associada à aposentadoria passiva, a população 50+ mantém uma vida economicamente ativa e busca autonomia, convivência, mobilidade e qualidade de vida, passando a exigir produtos e serviços que acompanhem esse novo momento.
Um dos dados que melhor traduz essa transformação está na composição das despesas. Na Região Norte, a moradia representa cerca de 30% dos gastos mensais da população 50+, superando a alimentação, que responde por 29%, segundo cruzamento de dados do IBGE e da Data8 realizado pela MV Marketing. O resultado contraria uma percepção comum sobre o orçamento das famílias: moradia não é apenas uma das principais despesas, mas aparece como o maior item da cesta de gastos da população madura.
O peso da habitação ganha ainda mais relevância quando associado às características de uma cidade como Manaus. Para esse público, morar bem vai além da estrutura física do imóvel. Localização, acesso a serviços, saúde, comércio, gastronomia, cultura, lazer e possibilidade de deslocamento passam a fazer parte da própria equação de qualidade de vida.
Essa mudança demográfica também impactou os negócios da Patter Incorporadora. No último empreendimento da empresa, mais de 50% das unidades foram vendidas para investidores 50+. Foi a partir dessa constatação que os executivos da companhia decidiram estudar o mercado e aprofundar o conhecimento antes de definir novas soluções imobiliárias. Em vez de partir diretamente para a concepção de um produto, a empresa iniciou o processo pela escuta.
“Para ampliar a discussão sobre novos segmentos de imóveis, reunimos os melhores especialistas em gerontologia e arquitetura para longevidade e passamos a estudar o que já é padrão em outros mercados e ainda não chegou aqui. O objetivo é estabelecer um novo referencial de qualidade em serviços para longevidade no Amazonas e colocar nossos investidores à frente de uma transformação demográfica que já está em curso", afirma Sérgio Avelino Filho, sócio-diretor da Patter.
A proposta foi responder a uma questão essencial: como esse público quer viver nos próximos anos e como isso impacta o conceito de moradia.
A pesquisa, conduzida pelas especialistas da MV Marketing, identificou que as escolhas de moradia estão diretamente relacionadas ao estilo de vida e à manutenção dos vínculos sociais. A busca por convivência, por exemplo, não significa necessariamente viver apenas entre pessoas da mesma faixa etária. A proximidade da família, a interação com diferentes gerações e a conexão com o bairro aparecem como elementos importantes para preservar autonomia, pertencimento e qualidade de vida.
Para Bete Marin, especialista em gerontologia e cofundadora da MV Marketing, esse tipo de escuta deixou de ser complementar e passou a ser ponto de partida. “Quatro em cada dez brasileiros dizem que faltam opções pensadas para a sua idade, e 87% gostariam de ser mais ouvidos pelas empresas. Foram esses dados que nos levaram a incluir a pesquisa em profundidade como padrão nas nossas assessorias”, explica. “A escuta em profundidade testa produtos e conceitos e nos ajuda a ressignificar desejos como autonomia, segurança e conveniência”, completa Bete Marin.
Bete Marin, especialista em gerontologia e cofundadora da MV Marketing
“Para esse público, autonomia não significa fazer tudo sozinho, mas ter liberdade para escolher quando precisa de apoio. Segurança não está relacionada a restrições, mas a ambientes que permitam circulação, independência e conforto. E conveniência deixa de ser um pacote padronizado para se transformar em acesso a soluções que podem ser acionadas de acordo com a necessidade de cada morador.”
Outra constatação da pesquisa diz respeito à consciência sobre residências acessíveis para a longevidade. Para quem já viveu uma situação em que a própria casa se tornou um obstáculo, ter uma residência acessível passa a ser prioridade.
“O ambiente pode funcionar como facilitador da autonomia ou como barreira”, afirma a médica geriatra Karoline Rodrigues, sócia fundadora do Instituto Senescer e presidente da Representação Amazonas da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia). “Um imóvel deve ser planejado pensando no longo prazo, de modo a acolher o morador em todas as fases da vida. Arquitetura, engenharia e design já convergem segurança e estética. É possível ter um lar que integre funcionalidade, segurança e estética.
Quando pensamos nessas características desde a construção, evitamos reformas no futuro, que muitas vezes estão associadas a situações emergenciais, como observa no dia a dia de seus pacientes e familiares”, afirma Karoline
Karoline Rodrigues, sócia fundadora do Instituto Senescer
Rodrigues, que é supervisora da residência de geriatria do Hospital Universitário Getúlio Vargas, na Universidade Federal do Amazonas - UFAM, onde também é professora mestre. Ela acrescenta que o olhar precisa ir além das paredes do imóvel. “A localização, a possibilidade de caminhar com segurança, o acesso a serviços de saúde, comércio, lazer, transporte e espaços de convivência influenciam diretamente a atividade física, a socialização e o bem-estar.”
O processo levou a Patter a ampliar a discussão sobre o que significa desenvolver empreendimentos para o público maduro, como a preocupação com a longevidade. “Reunimos profissionais especializados em áreas relacionadas à longevidade para estudar referências, modelos e soluções que possam estabelecer um novo referencial de imóveis voltados ao investidor maduro de Manaus.
A ideia é compreender que a longevidade produz diferentes perfis de usuários, diferentes momentos de vida e diferentes necessidades. E para todos esses momentos, nada melhor que um prédio multigeracional e atemporal”, complementa Sérgio Avelino Filho.
É justamente essa diversidade que começa a movimentar o mercado imobiliário brasileiro, com o surgimento de modelos de moradia que combinam localização urbana, arquitetura funcional, serviços sob demanda, convivência e autonomia. Essa mudança de perspectiva ajuda a explicar por que a discussão sobre moradia para o público 50+ não deve ser tratada apenas como questão de acessibilidade ou adaptação.