Desigualdade salarial

Mulheres dirigentes ganham 37,3% a menos

Relatório mostra que, no Amazonas, mulheres em cargos de chefia têm salário quase 40% menor que os dos homens

Lucas dos Santos
02/05/2026 às 09:07.
Atualizado em 02/05/2026 às 09:07

Relatório mostra que, o Amazonas contava, em dezembro de 2025, com 830 estabelecimentos com 100 ou mais empregados, responsáveis por 286,7 empregos, sendo, 101,5 mil ocupados por mulheres (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Relatório de Transparência Salarial do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) aponta que mulheres em cargos de direção e gerência no Amazonas tem remuneração 37,3% menor do que homens que exercem a mesma função. Os números datam de dezembro de 2025 e mostram ainda que o índice amazonense é maior do que a média nacional, de 26,9%, além de ter havido um aumento na desigualdade em relação a 2024, quando mulheres ganhavam 36,1% a menos que homens nos cargos de direção e gerência.

A diferença detectada em 2025 também ocorre entre profissionais técnicos de nível médio. Nesse segmento, as mulheres possuem uma remuneração média 34,1% menor que trabalhadores homens no Amazonas. Entre os profissionais que ocupam cargos com exigência de ensino superior, a remuneração média das mulheres é 30,8%.

As menores diferenças ocorrem nas atividades operacionais e em serviços administrativos. Na primeira, o salário das mulheres amazonenses é 26% menor, enquanto na segunda é apenas 12%. Na média geral, as trabalhadoras do Amazonas têm remuneração média 20,9% abaixo da dos trabalhadores homens.

DESIGUALDADE

Os números do relatório apontam ainda que houve um aumento da desigualdade na remuneração em quase todos [economia@acritica.com](mailto:economia@acritica.com) os pontos verificados pelo documento. Além do já citado crescimento nos cargos de dirigentes e gerentes, a desigualdade cresceu 0,2% entre trabalhadores de atividades operacionais e 2,2% entre mulheres e homens técnicos de nível médio, o maior índice do período. Apesar disso, houve uma queda na diferença da remuneração entre mulheres e homens com cargos de nível superior de 1,7% e outra 0,6% entre trabalhadores administrativos.

Os dados de dezembro de 2025 são relativos a 830 estabelecimentos que enviaram dados à Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), usado pelo Ministério do Trabalho para elaborar diagnósticos sobre o mercado, incluindo auxílio nas negociações coletivas de sindicados, orientação de investimentos públicos e elaboração de estatísticas.

Atualizado mensalmente, o relatório de dezembro de 2025 apontava a existência de 286,7 mil vínculos trabalhistas nas empresas que prestaram informações ao RAIS. Dessas, 101,5 mil eram mulheres e 185,2 mil eram homens. Proporcionalmente, o público feminino compõe cerca de 35,4% da força de trabalho entre os estabelecimentos com 100 ou mais empregados, ao passo que o público masculino é de 64,5%.

Na comparação direta com 2024, quando 819 empresas apresentaram informações ao RAIS e o número de vínculos era de 283,3 mil, houve um aumento de 2,5% na participação feminina no mercado de trabalho. No período, eram mais de 99 mil trabalhadoras contra 184,3 mil trabalhadores.

No Amazonas, a remuneração média das mulheres nos estabelecimentos com 100 ou mais empregados em dezembro de 2025 foi de R$ 3.045,22, contra R$ 3.848,33 dos homens. As mulheres negras tiveram como rendimento médio R$ 2.917,14, enquanto o valor médio para as mulheres não negras ficou em R$ 3.808,97. Já os homens negros receberam, em média, R$ 3.651,98 e os homens não negros, R$ 5.176,37, no estado amazonense.

‘Não tem a ver com competência’

 Na avaliação da economista Denise Kassama, o relatório reflete um contexto histórico da nossa sociedade que desvaloriza o trabalho da mulher, ainda que ela tenha “dupla ou tripla jornada”, trabalhando em empresas durante o dia e acumulando serviços domésticos e familiares durante a noite, ou até mesmo com outro emprego.

“Infelizmente isso vem de uma sociedade patriarcal que tem esse histórico de desvalorização. Não tem nada a ver com competência. Evidente que as mulheres ocupam cada vez mais espaços, e é importante que elas tenham renda, porque a configuração de mulheres que chefiam o lar também aumentou. Você tem mulheres chefiando as famílias, muito histórico de mães solo que também são chefes de família”, disse.

A economista lamentou que, apesar do trabalho exercido pelas mulheres dentro e fora de casa, ainda exista um discurso extremamente misógino – odioso ou preconceituoso contra as mulheres – em uma sociedade cada vez mais polarizada.

Manifestação do patriarcado

Na avaliação da professora doutora Ivânia Vieira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o relatório do Ministério do Trabalho revela uma violência enraizada e ainda acatada e normalizada pela sociedade brasileira. Ela avalia que a desigualdade na remuneração é uma das manifestações “do patriarcado e do machismo em perfeita sintonia com as bases do capitalismo”.

“Algumas medidas foram adotadas para tornar a equidade salarial entre homens e mulheres no exercício das mesmas funções, houve pequenos avanços e vive-se, como ora é demonstrado nesse documento com recuos e retrocessos. A necessidade posta em pauta há décadas é de romper com esse padrão de desigualdade no Brasil”, disse.

Embora ocupem cada vez mais espaço no mercado de trabalho, as mulheres ainda convivem com remunerações inferiores à de colegas homens na mesma função. Ivânia Vieira classifica isso como uma “mais valia dos tempos atuais, que avilta a mão de obra feminina”.

“É fundamental ampliar mecanismos de garantia da equidade salarial e assegurar que os mesmos funcionem para os fins porque foram instituídos. Também a adoção da transparência salarial, fazendo com que as empresas, dentro de normais legais, demonstrem o salário pago os funcionários homens e às funcionárias mulheres”, ressaltou.

‘Dinâmicas enraizadas’

Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas, Antonio Silva, qualquer oscilação que afaste o mercado da equidade é motivo de alerta, mas pontuou que esse ligeiro alargamento na base geral e nos cargos de liderança reflete um período de reajustes e reestruturações pontuais, não necessariamente um retrocesso nas políticas de inclusão.

“A persistência dessa disparidade, especialmente em postos de direção e gerência, explica-se por fatores conjunturais e dinâmicas de mercado ainda muito enraizadas. No Polo Industrial de Manaus, posições de alta gestão e cadeiras técnicas de engenharia avançada possuem uma retenção histórica predominantemente masculina e com baixa rotatividade, o que acaba retardando o impacto estatístico das recentes promoções e contratações femininas para o topo da pirâmide”, disse.

O dirigente avaliou ainda que a progressão de carreira das mulheres esbarra em uma série de descontinuidades no mercado devido a períodos de maternidade e à sobrecarga invisível gerada pelas atividades de cuidados da família, o que freia sua ascensão dentro das empresas.

Para diminuir esses índices, Antonio Silva defendeu que o setor industrial acelere ainda mais as políticas de governança, previstas em agendas ESG, o que envolve estruturação de planos de cargos e salários e a ampliação de programas de desenvolvimento executivo voltados especificamente para o público feminino.

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