Dados da B3 mostram salto na presença feminina no mercado financeiro, superando o ritmo de expansão entre homens
Patrimônio acumulado por investidores amazonenses ultrapassa a marca de R$ 2,2 bilhões (Divulgação)
O mercado de investimentos no Amazonas registrou um avanço expressivo da participação feminina. Entre dezembro de 2022 e junho de 2026, o número de mulheres investidoras cresceu 35,4%, mais que o dobro da expansão registrada entre os homens no mesmo período. Apesar desse movimento, elas ainda representam apenas 25% dos investidores do estado e concentram apenas 18,4% do patrimônio financeiro aplicado.
Dados do levantamento enviado a A CRÍTICA pela B3, a Bolsa de Valores do Brasil, mostram que o Amazonas passou de 10.059 investidoras em dezembro de 2022 para 13.615 em junho deste ano, um acréscimo de 3.556 mulheres no mercado financeiro. Entre os homens, o crescimento foi de 16,2%, passando de 35.206 para 40.900 investidores.
Os números indicam uma tendência de maior participação feminina no universo dos investimentos, ainda que a presença masculina continue predominante. Atualmente, três em cada quatro investidores amazonenses são homens.
Para o diretor de Relacionamento com Clientes, Educação e Pessoa Física da B3, Felipe Paiva, a tecnologia está ajudando o Brasil inteiro a ingressar no mercado de investimentos, não somente as mulheres. Ele informa que as regiões Norte e Nordeste lideram esse crescimento. “As duas regiões cresceram muito, em número de investidor e a tecnologia está ajudando cada vez mais o Brasil inteiro a participar disso”, diz.
Diretor da B3, Felipe Paiva, destaca avanço do mercado de capitais na região Norte do país
O avanço das mulheres também aparece no volume de recursos aplicados. O patrimônio investido por elas passou de R$ 232,7 milhões para R$ 420 milhões entre dezembro de 2022 e junho de 2026, crescimento de 80,5%. No mesmo intervalo, o patrimônio masculino aumentou 75,9%, saindo de R$ 1,06 bilhão para R$ 1,87 bilhão.
Integrante desse contingente cada vez maior de mulheres investidoras no Amazonas, a advogada Lucy Andrelino investe no mercado financeiro desde 2018.
“Na época, eu tinha um dinheiro e não queria deixar no banco. Então, descobri que poderia deixar rendendo mais que no banco, nas corretoras. No início fui muito conservadora, então investia mais em renda fixa, e com o passar do tempo fui estudando e ganhando confiança para investir em renda variável, como ações e fundos imobiliários”, conta a investidora, acrescentado que no atual momento está gostando bastante dos fundos imobiliários, por pagarem dividendos isentos de Imposto de Renda.
Advogada Lucy Andrelino diversifica aplicações da carteira de renda fixa para fundos imobiliários
Lucy acredita que as mulheres têm potencial para serem melhores investidoras que os homens.
Para Fátima Martins, sócia e Chefe Comercial do Segmento Agro da XP Inc., as mulheres estão entrando no mercado financeiro mais rapidamente do que os homens porque elas estão assumindo cada vez mais o protagonismo das decisões financeiras da família e dos seus próprios negócios.
Embora o ritmo de crescimento feminino seja superior, a diferença patrimonial ainda é significativa. Os homens concentram 81,6% de todo o patrimônio investido no Amazonas, enquanto as mulheres detêm 18,4% dos recursos.
As razões para esta diferença patrimonial se dão, segundo Fátima Martins, por questões históricas. “O principal ponto é histórico. Muitas começaram a investir mais tarde, tiveram menor renda ao longo da carreira ou priorizaram outras responsabilidades da família. Mas isso está mudando. O mais importante é que elas começaram, porque o patrimônio é construído com consistência ao longo do tempo”, ensina a expert em investimentos.
Especialista de investimentos da XP Inc., Fátima Martins, analisa o perfil e a disciplina das investidoras
Fátima também enxerga diferenças entre homens e mulheres na hora de investir. “Elas costumam buscar mais informação antes de investir e pensam muito no longo prazo. Normalmente investem com um objetivo claro, sem querer acertar o movimento do mercado a todo momento. Isso traz mais disciplina nas decisões”, afirma.
O avanço da participação feminina ocorre em um mercado que continua ampliando sua base de investidores. Em junho de 2026, o Amazonas contabilizou 54.515 investidores, o maior número da série analisada.
Para a especialista Fátima Martins, o mercado de investimentos no Amazonas ainda está no início e tem muito a amadurecer. “Ainda estamos no começo de uma grande oportunidade. Existe muito espaço para crescer, principalmente quando falamos de educação financeira. Quanto mais as pessoas entenderem a importância de investir, maior é o desenvolvimento do mercado”, pontua.
Em dezembro de 2022, o Amazonas tinha 45.265 investidores. Após uma retração em 2023, quando o total caiu para 43.230, o mercado retomou o crescimento nos anos seguintes, chegando a 47.720 investidores em 2024, 51.202 em 2025 e ultrapassando a marca de 54 mil no primeiro semestre de 2026.
Na comparação entre dezembro de 2022 e junho deste ano, o estado ganhou 9.250 novos investidores, crescimento de 20,4%. Sobre a retração ocorrida entre 2022 e 2023, Fátima explica que foi um período de muita incerteza econômica, com juros elevados e um cenário que deixou muitos investidores mais cautelosos.
“É natural que haja momentos de desaceleração. O importante é olhar a tendência: no longo prazo, o número de investidores continua crescendo e a cultura de investimento está cada vez mais presente”, declara.
A expansão no Amazonas também é observada no patrimônio financeiro. O estoque total de investimentos passou de R$ 1,29 bilhão para R$ 2,29 bilhões no período, alta de aproximadamente 76,7%. Somente no primeiro semestre de 2026, o patrimônio cresceu cerca de R$ 137 milhões, enquanto o número de investidores aumentou em 3.313 pessoas.
Além da entrada de novos investidores, os dados mostram que o volume médio aplicado por cada pessoa também cresceu nos últimos anos. Em dezembro de 2022, o patrimônio médio por investidor era de aproximadamente R$ 28,6 mil. Em junho de 2026, esse valor alcançou cerca de R$ 41,9 mil, avanço de aproximadamente 46%.
A diferença também aparece quando a análise é feita por gênero. Entre os homens, o patrimônio médio passou de aproximadamente R$ 30,1 mil para R$ 45,6 mil por investidor. Entre as mulheres, o indicador evoluiu de R$ 23,1 mil para cerca de R$ 30,9 mil.
Os dados sugerem que, além da entrada de novos investidores, os amazonenses vêm ampliando o volume de recursos aplicados no mercado financeiro. Ao mesmo tempo, apontam para uma mudança gradual no perfil desse público, com crescimento mais acelerado da participação feminina, ainda que persistam diferenças importantes na representatividade e na concentração de patrimônio.