Dados do Federal Reserve e da LIMRA mostram que milhões de famílias seguem expostas a despesas inesperadas e perda de renda; especialista brasileiro defende diagnóstico antes da contratação de produtos.
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A distância entre crescimento do mercado de seguros e proteção efetiva das famílias permanece como um desafio internacional. O Swiss Re Institute calculou que o índice global de resiliência à mortalidade chegou a 44% em 2024, o que significa que menos da metade dos recursos necessários para manter o padrão de vida dos domicílios após a morte de um provedor estava coberta por seguros, ativos financeiros ou benefícios sociais. O indicador dimensiona uma insuficiência econômica mais ampla que a simples posse de uma apólice.
Nos Estados Unidos, a venda de seguro de vida individual alcançou novo patamar em 2025. Segundo a LIMRA, o prêmio novo anualizado avançou em dois dígitos e estabeleceu recorde. Somente os produtos de vida inteira responderam por US$ 6,4 bilhões em novos prêmios no ano, enquanto os seguros temporários somaram US$ 3,1 bilhões. Para 2026, a associação projeta crescimento de 2% a 6% no prêmio novo anualizado.
O aumento das vendas, porém, convive com uma lacuna persistente. Pesquisa da LIMRA e da Life Happens estimou, em 2025, que 40% dos adultos norte-americanos precisavam de seguro de vida ou de cobertura adicional — cerca de 100 milhões de pessoas. A própria entidade informa que aproximadamente metade dos adultos possui seguro de vida, mostrando que a expansão comercial não equivale, por si só, à adequação da proteção.
A fragilidade aparece também no caixa doméstico. O relatório mais recente do Federal Reserve, publicado em maio deste ano e baseado em pesquisa com quase 13 mil adultos, indicou que 63% pagariam uma despesa inesperada de US$ 400 integralmente com dinheiro ou equivalente. A proporção está estacionada desde 2022. Outros 37% teriam de recorrer, ao menos em parte, a alternativas como crédito, empréstimos, venda de bens ou ajuda de terceiros.
O mesmo levantamento registrou que 59% dos adultos tiveram alguma despesa inesperada relevante nos doze meses anteriores. Reparos ou substituição de veículos foram a ocorrência mais comum, mencionada por 30%; consertos de imóveis ou eletrodomésticos atingiram 22%, e despesas médicas inesperadas, 21%. Os dados ajudam a explicar por que a proteção financeira não pode se limitar a eventos raros: choques ordinários já pressionam a liquidez das famílias.
É nesse ponto que Luiz Fernando Loschiavo da Silva identifica a necessidade de separar problemas distintos. Bacharel em Direito pela PUC-SP, advogado inscrito na OAB/SP e sócio-proprietário da LF Proteção, corretora franqueada da Prudential no Brasil, atua desde 2017 na estruturação de planejamentos de proteção financeira e seguros de pessoas. Antes disso, trabalhou em direito societário, contratos, governança e projetos empresariais.
Na avaliação de Loschiavo, reserva de emergência e seguro não devem ser apresentados como substitutos. A liquidez atende despesas imediatas e flexíveis, enquanto a transferência securitária pode limitar perdas de grande impacto, como morte ou incapacidade do provedor de renda. A proporção entre essas frentes depende do orçamento, da estabilidade da receita, dos dependentes, das dívidas e dos benefícios já disponíveis.
Essa leitura é compatível com estudo do Consumer Financial Protection Bureau. Em relatório que combinou pesquisa domiciliar e dados de bureau de crédito, o órgão verificou que consumidores sem reserva de emergência apresentavam maior incidência de atraso, uso de cheque especial e baixa disponibilidade de crédito. O CFPB ressaltou que renda insuficiente e despesas obrigatórias limitam a capacidade de poupar, o que impede tratar a vulnerabilidade apenas como falta de disciplina individual.
Loschiavo sustenta que o processo deve começar pelo mapeamento de obrigações e cenários, e não pela apresentação imediata de um produto. A análise inclui despesas essenciais, prazo provável de reposição da renda, concentração em um provedor, dívidas e objetivos familiares. Somente depois seria possível avaliar quais riscos podem ser retidos, reduzidos ou transferidos e quais decisões exigem corretor, advogado, contador ou consultor devidamente licenciado.
“O propósito é proporcionar aos clientes maior previsibilidade econômica, mapeamento de vulnerabilidades operacionais e familiares, e clareza para tomadas de decisão”, afirma Loschiavo. A declaração sintetiza uma abordagem que procura organizar necessidades antes de encaminhar a implementação por profissionais licenciados, especialmente quando o planejamento envolve diferentes áreas reguladas.
O cuidado com a fronteira profissional ganha importância em operações internacionais. A formação jurídica e a experiência brasileira não autorizam automaticamente o exercício de atividades reguladas nos Estados Unidos. Em projetos voltados ao mercado norte-americano, a coordenação estratégica deve ser separada da implementação de apólices, investimentos, estruturas tributárias ou atos jurídicos, reservados aos profissionais habilitados em cada estado.
A combinação entre mercado em alta e necessidade não atendida sugere que o principal obstáculo não é apenas a disponibilidade de produtos. Percepção equivocada de preço, complexidade contratual, desconfiança e adiamento também pesam. Pesquisa da LIMRA publicada em 2025 apontou que adultos mais jovens superestimaram significativamente o custo do seguro de vida, sinal de que informação e comparação ainda influenciam a decisão.
Para famílias e pequenos negócios, o debate se desloca, assim, de “ter ou não ter seguro” para a coerência do plano. Cobertura insuficiente pode não cumprir o objetivo; cobertura incompatível com o orçamento pode ser cancelada; reserva sem critérios pode ser consumida por gastos previsíveis. O teste relevante é saber se os recursos estarão acessíveis, na quantidade e no prazo necessários, quando ocorrer a interrupção.
Os números mais recentes mostram que o setor conseguiu crescer, mas ainda não resolveu o déficit de proteção. A resposta depende de educação financeira, adequação contratual e coordenação entre liquidez, dívida, seguro e documentos. Sem esse conjunto, o recorde de vendas pode coexistir com milhões de famílias expostas ao mesmo risco que pretendiam administrar.