Economia

Setor produtivo do Amazonas entra em alerta para enfrentar 'Super El Niño'

Com 90% de chance de El Niño ativo entre agosto e outubro, empresas tentam evitar a repetição da crise logística de 2023

Lucas dos Santos
18/04/2026 às 09:16.
Atualizado em 18/04/2026 às 09:16

Representantes da indústria e comércio buscam apoio do Governo do Estado para evitar colapso econômico durante a seca (Divulgação/Chibatão)

Os setores da indústria, comércio e serviços, que sustentam o Produto Interno Bruto do Amazonas (PIB), estão alertando para a necessidade de ações preventivas frente à próxima estiagem que atingirá o estado no segundo semestre, incluindo tratamento fiscal diferenciado para as empresas.

Além da cobrança, eles próprios já atuam em prevenção após a Defesa Civil do Amazonas alertar para tendência de diminuição no nível dos rios nas calhas do alto e médio rio Negro. Duas semanas antes, o Serviço Geológico do Brasil (SGB/CPRM) também apontou para uma seca severa em meio à possibilidade de um super El Niño.

O fenômeno acentua a estiagem nas regiões ao norte do Brasil, enquanto provoca chuvas torrenciais na parte sul. Na sexta-feira (17), o Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (CIEX) divulgou uma nota apontando que há 90% de chance de o El Niño estar ativo entre agosto e outubro, além de haver uma probabilidade de 50% de ser um fenômeno intenso.

Em sua última passagem entre 2023 e 2024, o El Niño influenciou na seca histórica do rio Negro, que chegou a 12,11 metros, menor nível desde o início dos registros, em 1902. Também foi atribuído ao fenômeno as enchentes históricas que abalaram o Rio Grande do Sul em 2024.

O presidente da Associação Comercial do Amazonas (ACA), Bruno Pinheiro, encaminhou um pedido ao governo do Amazonas para, no caso de se confirmar uma estiagem severa, a gestão estadual adote um “tratamento fiscal diferenciado e excepcional durante o período. A medida tem como objetivo garantir previsibilidade, preservar o abastecimento e reduzir os impactos sobre o setor produtivo”.

“Destacamos que, por se tratar de um ano eleitoral, a necessidade de antecipação é ainda maior. Com uma eleição geral no país, a margem para decisões que afetem a arrecadação tende a ser mais restrita. Por isso, agir com antecedência é essencial para evitar prejuízos à economia do Amazonas”, ressaltou.

O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas (Fecomércio-AM), Aderson Frota, afirmou que a questão da estiagem já preocupa o setor comercial devido ao histórico dos últimos anos, que levaram a fretes com preço triplicados e atrasos na entrega de produtos.

“Nós precisamos nos articular para buscar apoio. Não só apoio como dilatação de prazo, porque nós pagamos ICMS com margem de valor agregado, que varia de 15% a 253%, pagamos praticamente sem receber a mercadoria e nem sequer vende-la. Este momento é de mobilização”, alertou.

Frota informou que a Fecomércio-AM se reunirá nesta segunda-feira (20) com o secretário estadual da Defesa Civil, coronel Francisco Máximo, para tratar do problema e, na sequência, buscará uma articulação com as autoridades para arrefecer a crise provocada pela estiagem, que aumenta custos e descapitaliza as empresas.

“Nós estamos convocando grandes empresários para participar dessa reunião, todos os presidentes de sindicatos, todos os nossos diretores, porque esse vai ser outro momento de grande preocupação, de aumento de custos que vai exatamente atingir a população de baixa renda”, completou.

Na indústria, o clima também já é de alerta com a estiagem iminente. O professor Augusto César Barreto Rocha, coordenador da comissão de logística do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) informou que a instituição vem acompanhando a questão da seca, tanto por meio dos órgãos públicos quanto com as redes de fornecedores.

Segundo ele, uma das medidas preventivas que há hoje na indústria está no estoque dos produtos, mas que a atual taxa básica de juros, de 14,75%, faz com que essa medida fique proibitiva. Outra medida que poderia ser tomada pelo poder público é encontrar uma solução definitiva para as hidrovias do Amazonas, já que as dragagens foram insuficientes.

“Precisamos que seja construído um laboratório para estudo da hidrovia e se encontre uma solução definitiva da questão. A dragagem não funcionou e parece que não funcionará. A solução é outra e precisa ser investigada com cuidado, atenção e diligência”, disse.

No final de março, ao apresentar o 1º Alerta de Cheias do Amazonas 2026, o SGB/CPRM não só informou que a cheia deste ano ficará dentro da média como também disse que a vazante tende a chegar ao patamar de “severo”. Segundo o gerente de hidrologia do órgão, André Luís dos Santos, a preocupação acontece devido à diminuição das chuvas nas cabeceiras dos rios e ao fim do pico de cheia em algumas áreas.

Nessa quinta-feira (16), a Defesa Civil do Amazonas reuniu prefeitos e representantes das defesas civis dos municípios para alinhar respostas á vazante deste ano. Na reunião, o secretário Francisco Máximo apresentou uma estratégia de priorizar a logística de distribuição de insumos, o fortalecimento dos planos de contingência municipais e o monitoramento em tempo real dos níveis dos rios.

“Nosso papel é atuar em estreita colaboração com as prefeituras e com as Defesas Civis locais. O alinhamento feito hoje permite que cada município conheça os cenários previstos e as ferramentas que o Estado disponibiliza para reduzir os danos causados tanto pelo excesso quanto pela escassez de água”, pontuou.

O encontro contou com a participação do presidente da Associação Amazonense de Municípios (AAM), Anderson Sousa, que colocou a entidade à disposição dos gestores municipais e reforçou a importância do diálogo permanente e do apoio técnico especializado.

“A associação está à disposição para o diálogo. É necessário que haja essa proximidade, pois nosso papel não é apenas informar, mas ajudar efetivamente os municípios com pessoas capacitadas e suporte técnico”, afirmou.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Antonio Silva, afirmou que o setor produtivo recebe com extrema cautela os alertas da Defesa Civil e da comunidade científica sobre a iminência de uma estiagem, possivelmente mais severa que a anterior.

Cientes de que o agravamento do fenômeno El Niño compromete drasticamente a navegabilidade da bacia amazônica, ele informou que as indústrias do Polo Industrial de Manaus (PIM) já iniciaram a antecipação de estoques de insumos essenciais e o escoamento prévio de produtos acabados.

“Essa reprogramação estratégica dos cronogramas fabris é a nossa primeira linha de defesa para mitigar o isolamento geográfico, visando garantir a manutenção da produção e evitar o desabastecimento das cadeias de suprimentos nacionais durante o pico da vazante”, disse.

O presidente alertou também para a necessidade de uma adaptação ágil da matriz de transporte e armazenagem. O setor industrial está renegociando contratos de frete com antecedência, mapeando o uso de embarcações de menor calado e projetando a utilização intensiva do transporte aéreo para componentes de alto valor agregado.

“Torna-se imperativa, também, uma coordenação logística integrada entre as indústrias e os terminais portuários para otimizar as janelas de atracação enquanto os rios ainda permitem a navegação segura, amortecendo, na medida do possível, o inevitável aumento vertiginoso dos custos operacionais e dos fretes de cabotagem”, completou.

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