Educação Científica

Educação precisa reconhecer povos indígenas como produtores de conhecimento, diz escritora

Escritora e pensadora indígena avalia que encontro realizado em Manacapuru fortaleceu o diálogo entre ciência acadêmica e saberes tradicionais da Amazônia

Omar Gusmão
21/06/2026 às 10:19.
Atualizado em 21/06/2026 às 10:19

(Foto: Divulgação)

O I Encontro Nacional de Educação Científica no Interior do Amazonas, realizado nos dias 18 e 19 de junho, em Manacapuru (a 69 quilômetros de Manaus em linha reta), deixou como principal legado a reafirmação de que os territórios amazônicos são espaços legítimos de produção de conhecimento. Essa é a avaliação da doutora em Letras, mestre em Geografia, escritora e pensadora indígena Márcia Kambeba, uma das principais presenças intelectuais da programação.

Com o tema “Saberes do Território, Ciência do Cotidiano”, o evento reuniu pesquisadores, professores, estudantes e representantes de comunidades tradicionais para discutir novas perspectivas para a educação científica na Amazônia. Para Márcia, a iniciativa demonstrou uma crescente abertura para o diálogo entre diferentes formas de produção do conhecimento, mas também evidenciou a necessidade de ampliar o protagonismo indígena nesses espaços.

“Participar do I Encontro Nacional de Educação Científica no Interior do Amazonas foi uma experiência significativa porque nos permitiu reafirmar algo que os povos indígenas sabem há muitas gerações: o conhecimento nasce da relação profunda entre as pessoas, a natureza e o território”, afirmou.

A escritora participou do encontro ao lado da indígena Marlete Cruz Kambeba, moradora da aldeia Tururucari-Uka, localizada no quilômetro 47 da rodovia Manoel Urbano (AM-070), que liga Manaus a  Manacapuru. Segundo Márcia, a presença das duas representou não apenas experiências individuais, mas também as vozes dos ancestrais e das comunidades indígenas da região.

(Foto: Divulgação)

“Nós estivemos presentes levando não apenas nossas falas, mas também as vozes de nossos ancestrais, de nossas comunidades e dos saberes que continuam vivos dentro dos territórios indígenas”, destacou.

Para a intelectual indígena, um dos pontos mais relevantes do encontro foi o interesse demonstrado por estudantes, professores e pesquisadores em conhecer experiências construídas a partir da convivência cotidiana com a floresta, os rios e os modos de vida tradicionais.

Ela ressalta que os conhecimentos indígenas são resultado de processos históricos de observação, oralidade, memória coletiva e respeito à natureza, acumulados ao longo de gerações. Por isso, defende que esses saberes sejam reconhecidos como parte integrante da produção científica brasileira.

“O encontro reafirmou a necessidade de ampliarmos esses espaços para que os povos indígenas não sejam apenas convidados a participar, mas reconhecidos como produtores de conhecimento, pesquisadores de seus próprios territórios e protagonistas das discussões sobre educação e ciência”, afirmou.

Na avaliação de Márcia Kambeba, a educação científica contemporânea precisa incorporar a diversidade de conhecimentos existentes no país. Para ela, a ciência produzida nas universidades e centros de pesquisa pode estabelecer uma relação de complementaridade com os conhecimentos desenvolvidos nos territórios indígenas.

“Não existe uma única forma de produzir conhecimento. A ciência que vem das universidades e dos centros de pesquisa pode dialogar com a ciência que nasce nos territórios indígenas, fortalecendo novas perspectivas para a educação e para a construção de soluções coletivas”, observou.

Outro aspecto destacado pela escritora foi a importância de levar esse debate para as escolas públicas. Ela considera que a implementação da Lei 11.645/2008 — que torna obrigatório o ensino da história e da cultura indígena e afro-brasileira na educação básica — ainda representa um desafio para os sistemas de ensino.

“É por meio dela que os estudantes podem conhecer a verdadeira história dos povos indígenas e compreender sua contribuição para a formação da sociedade brasileira”, disse.

Márcia também chamou atenção para o papel da literatura indígena nesse processo. Segundo ela, as obras escritas por autores indígenas permitem que estudantes tenham contato direto com narrativas produzidas por quem vivencia essas realidades, ampliando a compreensão sobre a Amazônia e os povos originários.

“Quando um estudante lê um autor ou uma autora indígena, ele entra em contato com outras formas de ver o mundo, ampliando seu olhar sobre a Amazônia, sobre o Brasil e sobre si mesmo”, afirmou.

Realizado na Faculdade de Medicina Afya, em Manacapuru, o encontro foi resultado de projeto coordenado pela professora doutora Joristela de Souza Queiroz, da Escola Estadual Nossa Senhora de Nazaré, instituição proponente do evento, que foi contemplado pelo Programa de Apoio à Realização de Eventos Científicos e Tecnológicos no Estado do Amazonas (Parev), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

A realização do I Encontro Nacional de Educação Científica no Interior do Amazonas contou com a parceria da Faculdade de Medicina Afya, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), do Instituto Federal do Amazonas (Ifam), da Coordenadoria Regional de Ensino de Manacapuru e da Secretaria Municipal de Educação (Semec), fortalecendo a articulação entre educação básica, ensino superior e gestão pública. 

A programação contou com oficinas, painéis de pesquisa, debates e exposições voltadas à aproximação entre a ciência acadêmica e os saberes dos territórios amazônicos, fortalecendo a articulação entre educação básica, ensino superior, pesquisadores e comunidades locais.

Ao final do encontro, Márcia Kambeba resumiu o significado da experiência como um reconhecimento da contribuição histórica dos povos indígenas para a produção de conhecimento no país.

“Nascer na Amazônia é herdar uma memória ancestral que continua pulsando nos rios, nas florestas, nas línguas e nos saberes dos povos originários. Levar essa reflexão para um encontro de educação científica é lembrar que também fazemos ciência, produzimos conhecimento e contribuímos para a construção de uma sociedade mais consciente de sua própria história”, concluiu.
Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por