Educação

Ensino integral tem desempenho maior no Ideb do AM

Os dados foram divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) e, segundo o levantamento, indicam avanços associados à expansão do Ensino Médio Integral no Estado.

Omar Gusmão
28/08/2026 às 08:58.
Atualizado em 28/08/2026 às 08:58

(Foto: Jeiza Russo)

Os resultados do Ideb 2025 mostram uma diferença de desempenho entre as escolas de Ensino Médio da rede estadual do Amazonas que funcionam em tempo integral e as que mantêm a jornada parcial.

Um levantamento realizado pelo Instituto Sonho Grande, em parceria com o Instituto Natura, aponta que as unidades escolares que têm todas as turmas em tempo integral alcançaram média de 4,4 no índice, enquanto as escolas de tempo parcial ficaram com média 3,7.

Os dados foram divulgados pelo Ministério da Educação (MEC) e, segundo o levantamento, indicam avanços associados à expansão do Ensino Médio Integral no Estado.

Das 232 escolas de ensino médio do Amazonas com informações divulgadas no Ideb, 49 têm todas as turmas em jornada integral. A média dessas unidades ficou acima do resultado estadual de 3,7.

A diferença também aparece nos resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que compõe o Ideb. Nas escolas 100% integrais, a proficiência média foi de 274,7 pontos em Língua Portuguesa e 269,8 em Matemática. Nas unidades de tempo parcial, os resultados foram de 260,4 e 253,8 pontos, respectivamente.

De acordo com a análise do Instituto Sonho Grande e do Instituto Natura, essa diferença corresponde ao equivalente a aproximadamente 2,6 anos a mais de aprendizagem. O cálculo procura traduzir a diferença de domínio das disciplinas observado entre os dois grupos de escolas a partir da média anual de avanço de um estudante típico do ensino médio.

EVASÃO ESCOLAR

Os indicadores de evasão escolar também apresentam diferença. As escolas de Ensino Médio Integral registraram uma taxa de abandono 44% menor que a observada nas unidades de tempo parcial. Para o levantamento, o dado indica que os estudantes das escolas integrais permanecem por mais tempo na rede e têm melhores oportunidades de concluir a trajetória escolar com maior aprendizagem.

A professora doutora Ângela Maria Gonçalves de Oliveira, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) pesquisa sobre a educação em tempo integral desde 2015. Doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com uma pesquisa sobre a educação em tempo integral no Amazonas, a professora faz um contraponto importante: os dados fazem uma associação imediata entre tempo integral, maior aprendizagem e menor abandono, mas a pesquisadora alerta que a jornada ampliada, isoladamente, não explica os resultados.

“Claro que se tiver mais tempo, esse processo pedagógico, vai ser melhor. Contudo, essa diferença do Ideb de escolas em tempo integral para as escolas em tempo parcial, não pode ser atribuída automaticamente e unicamente à ampliação da jornada escolar”, alerta.

CONCEITOS DIFERENTES

Ela chama atenção para a diferença entre os conceitos de escola em tempo integral e educação integral. Uma escola é considerada de tempo integral quando atende o estudante por, no mínimo, sete horas diárias. Isso, porém, não significa necessariamente que a instituição ofereça uma educação integral. Esta, segundo a professora, pode ocorrer inclusive em uma jornada de quatro horas, embora a ampliação do tempo possa favorecer o desenvolvimento do processo pedagógico.

Por isso, a diferença de desempenho registrada no Ideb não pode ser atribuída automaticamente e exclusivamente ao aumento da permanência dos estudantes na escola. O resultado da aprendizagem é influenciado por um conjunto de fatores, entre eles as condições socioeconômicas dos alunos, a infraestrutura das unidades, a formação dos professores e as condições de trabalho oferecidas aos profissionais.

“Não é porque ampliou o tempo de permanência do estudante na escola, que significa que o estudante aprendeu mais e, consequentemente, houve uma melhoria no Ideb. O desempenho do estudante é resultado de múltiplas determinações, de múltiplos fatores. Ele envolve vários aspectos” ensina a professora doutora. A alimentação é um dos aspectos citados pela professora e pesquisadora. Ela destaca que, em uma escola de tempo integral, há a necessidade de oferta de refeições, e algumas unidades chegam a oferecer duas, três ou até quatro ao longo do dia. Para ela, essa estrutura tem impacto nas condições de aprendizagem dos estudantes que chegam à escola em situação de vulnerabilidade alimentar.

‘Escola precisa ter infraestrutura’

A infraestrutura também é apontada pela professora Ângela Maria como condição necessária para que a ampliação da jornada cumpra sua função pedagógica. “Uma escola precisa ter infraestrutura mínima para atender os estudantes em tempo integral. Ter biblioteca equipada, ter salas de aula equipadas, ter quadra de esporte e todas as outras atividades que necessitam, piscina para esporte, ter espaço para dança, para música, para teatro. Essa infraestrutura é necessária para que o estudante, numa escola em tempo integral, consiga ter as mínimas condições de aprendizagem”, avalia.

Outro ponto destacado pela pesquisadora é a situação dos professores. Em uma escola integral, o profissional precisa acompanhar a rotina dos estudantes por mais tempo, mas isso não significa permanecer oito horas seguidas em sala de aula. Para ela, é necessário garantir espaços e períodos para planejamento, organização das atividades, descanso e recuperação das energias. Nesse modelo, afirma, também é importante evitar que o professor tenha de dividir sua jornada entre diferentes escolas. A permanência do profissional na unidade ao longo do dia permitiria maior integração com os estudantes e com o projeto pedagógico.

“Essa condição de trabalho do professor é imprescindível. O professor não pode trabalhar quatro horas numa escola, quatro horas na outra, mais quatro horas na outra. Ele precisa estar integralmente na escola”, defende.

Relação com o território é fundamental

Ângela Maria Gonçalves de Oliveira chama atenção também para a importância da relação entre a escola e o território onde ela está localizada. Para a pesquisadora, a escola não deve ser tratada como um espaço isolado, mas como parte de uma comunidade que pode oferecer diferentes oportunidades educativas.

A proposta de educação integral, conforme ela, deve considerar as características do território e identificar quais conhecimentos, espaços e experiências disponíveis no entorno podem ser incorporados ao processo de aprendizagem. A ideia é que o currículo seja construído de maneira a contemplar essa dimensão e não se limite à ampliação do número de horas que o aluno permanece dentro da escola.

Quanto maior a articulação entre as diferentes experiências educativas, afirma a pesquisadora, maiores podem ser as oportunidades de aprendizagem e, consequentemente, de melhoria do desempenho escolar. “O que um aluno pode aprender ali naquele território? O que a escola pode utilizar naquele território que vai possibilitar o aprendizado dos alunos? Então, tudo isso são oportunidades educativas que possibilitam melhores conhecimentos, maior conhecimento e, consequentemente, melhorar a nota do Ideb. Porque nem sempre aquela escola que trabalha em tempo integral é uma boa escola”, conclui.

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por