O dado coloca Manaus muito distante da nova meta traçada pelo Plano Nacional de Educação (PNE)
(Foto: Divulgação/ Semed)
Manaus aparece entre os piores cenários do país quando o assunto é atendimento à primeira infância. Novo indicador nacional de cobertura da Educação Infantil, lançado nesta quarta-feira (29) pela plataforma QEdu em parceria com o Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), mostra que apenas 12,8% das crianças de 0 a 3 anos frequentam creches ou unidades de educação infantil na capital amazonense.
O percentual é o segundo pior entre todas as capitais brasileiras, superior somente ao de Macapá, que registra 9,1%. Na sequência aparecem Porto Velho, com 16,9%, e Boa Vista, com 20,4%.
O dado coloca Manaus muito distante da nova meta traçada pelo Plano Nacional de Educação (PNE) 2026-2036, que prevê que o Brasil alcance, em dez anos, atendimento mínimo de 60% das crianças nessa faixa etária.
Na prática, significa que quase nove em cada dez crianças manauaras de até 3 anos estão fora da educação infantil formal.
O novo indicador, desenvolvido pelo Iede em parceria com as fundações Bracell, Itaú, VélezReyes+, Van Leer e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), passa a disponibilizar pela primeira vez um retrato municipal detalhado do acesso escolar na primeira infância, permitindo comparar o desempenho das cidades brasileiras na oferta de creches e pré-escolas.
Manaus entre os casos mais graves
O levantamento revela que o problema é nacional, porém mais acentuado em algumas capitais do Norte. Em todo o Brasil, 81% dos municípios ainda não conseguem atender 60% das crianças de 0 a 3 anos, o que demonstra que a universalização da creche continua distante.
Na pré-escola, etapa destinada a crianças de 4 e 5 anos, 16% dos municípios ainda estão abaixo de 90% de cobertura, mesmo com a obrigatoriedade legal de matrícula. Dentro desse cenário, Manaus surge em posição de destaque negativo, atendendo 80% das crianças entre 4 e 5 anos e se incluindo entre os 16% que não atingem a meta de 90% de cobertura.
A capital amazonense não apenas fica abaixo da média desejada, mas integra o grupo das cidades com menor capacidade de absorção da demanda infantil justamente na fase considerada decisiva para o desenvolvimento cognitivo, motor e social.
Demanda maior que crescimento
Dados do Censo Escolar de 2025 mostram que Manaus possui 70.470 matrículas na educação infantil, somando redes pública e privada. Desse total, 21.990 correspondem a creches e 48.480 à pré-escola.
Embora o número revele avanço em relação aos últimos anos, ele ainda é insuficiente diante do contingente populacional da capital, uma das maiores do Norte do país, cuja população cresce a cada contagem.
A própria rede municipal, principal responsável por essa etapa, concentra 15.470 matrículas em creches e 43.519 em pré-escola, números que não conseguem acompanhar o crescimento da população infantil nas áreas periféricas e a procura por atendimento integral.
Longe da meta
Com taxa de 12,8%, Manaus está a 47,2 pontos percentuais da meta de 60% fixada pelo novo PNE.
Em termos práticos, isso significa que a capital precisaria multiplicar por várias vezes sua capacidade atual de atendimento para deixar a zona crítica em que se encontra.
Especialistas em políticas públicas para a infância apontam que o déficit de creches produz reflexos diretos não apenas na aprendizagem futura da criança, mas também na renda familiar, na permanência das mães no mercado de trabalho e na redução das desigualdades sociais.
Sem acesso à creche, milhares de crianças iniciam a trajetória escolar tardiamente e milhares de mulheres acabam impedidas de manter atividade profissional regular.
Pré-escola avança
O retrato de Manaus acompanha uma tendência brasileira: a pré-escola, por ser obrigatória, avançou de forma mais consistente. embora ainda não tenha aringido a meta de 90% de cobertura.
Já a creche, que exige mais estrutura física, maior número de profissionais e atendimento em tempo integral, segue como o elo mais frágil da educação básica.
É justamente nesse ponto que a capital amazonense apresenta seu pior desempenho. O novo ranking nacional deixa claro que Manaus conseguiu ampliar matrícula, mas ainda não transformou esse crescimento em cobertura efetiva.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria Municipal de Educação solicitando um posicionamento oficial sobre o tema, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria. Assim que obtiver resposta, a matéria será atualizada.