Coordenadora e vice-coordenadora da graduação detalham como o curso pode impactar o futuro do Amazonas
Lorena Nacif Marçal e Isabelle Bezerra Cordeiro estão à frente da coordenação há mais de dois anos (Nilton Ricardo/AC)
As professoras doutoras Lorena Nacif Marçal e Isabelle Bezerra Cordeiro, respectivamente coordenadora e vice-coordenadora da graduação Tecnológica em Biotecnologia na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), destacaram quais serão os novos rumos do curso após obterem o conceito 5 na avaliação do Ministério da Educação (MEC), nota máxima atribuída pelo órgão.
De acordo com elas, o foco será expandir para além dos horizontes da Ufam, buscando parcerias com empresas e indústrias que possam aproveitar o potencial da biotecnologia e investir na bioeconomia, apontada como o futuro da economia do estado.
Segundo as coordenadoras, o trabalho conjunto entre o Instituto de Ciências Biológicas (ICB), faculdade da qual à qual o curso está vinculado, o Centro de Apoio Multidisciplinar (CAM), que sedia as aulas e as pesquisas, além da Biblioteca Setorial Sul e vários departamentos da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação (Proeg) foi essencial para que o conceito máximo na avaliação do governo federal.
Quais foram os principais fatores que levaram a esse resultado?
Lorena: Existem várias especificidades nesse caminho, mas, de maneira geral, foi um processo de revisão e de amadurecimento que o curso passou nos últimos anos, com envolvimento do corpo docente, dos setores administrativos. Isso foi feito nesses dois últimos anos com muita reunião, muita deliberação, muita mudança na gestão do curso, revisão de algumas normativas. A gente foi atualizando isso dentro da gestão e trazendo um pouco de modernidade, um pouco de inovação em alguns pontos, melhorando a comunicação dentro do curso, melhorando a articulação administrativa dentro da instituição. Então, o resultado, eu acho que é fruto de um trabalho coletivo que vem acontecendo dentro do curso nos últimos, especialmente, dois anos, a gente pode dizer.
Isabelle: Eu acho que o sucesso de a gente ter conseguido foi exatamente o apoio de diferentes instâncias. A professora Lorena foi muito certeira em ver os pontos em que o curso tinha falhas, mapeou isso muito bem, conseguiu criar muitos instrumentos de avaliação que permitiram essa comunicação melhor com os professores, e isso se refletiu exatamente na avaliação do MEC. Eles observam o curso em várias instâncias, então ela conseguiu ir mapeando essas fragilidades do curso, implementar coisas novas e a gente conseguiu obter essa nota.
Há quanto tempo vocês estão à frente do curso?
Lorena: Dois anos e dois meses, mais ou menos.
Então desde que entraram conseguiram renovar o curso?
Lorena: A consolidação do curso já faz tempo, ele existe desde 2009. Então, há muitos agentes do passado e do presente que contribuem com a qualidade do curso, naturalmente. Mas, essa parte de gestão realmente eu acho que houve uma renovada nesses últimos dois anos.
O que esse resultado obtido por vocês significa, na prática, tanto para a Ufam quanto para o público externo?
Lorena: Para a Ufam é motivo de orgulho, de reconhecimento da qualidade e da excelência dos alunos, do corpo docente, da gestão. É muito bom essa motivação, as pessoas aqui ficam alegres, querem correr mais atrás de oportunidades, de levar o nome do curso para fora. Para a gente, é muito importante ter esse gás, os alunos ficam muito mais motivados. A gente tem feito muitos movimentos internos de refletir a avaliação do MEC, fizemos uma leitura coletiva desse relatório para ver também os pontos de melhoria. É nota 5, mas tem sempre um ponto ou outro que eles chamam atenção, que ainda tem oportunidade de melhoria. Externamente, eu penso que a gente tem uma janela de oportunidade de atrair mais pessoas para essa área, que é muito importante para o estado, para a região amazônica, porque a biotecnologia depende da biodiversidade, diretamente.
Quais desafios vocês enfrentaram, como foi a trajetória até conseguir a nota máxima?
Lorena: Toda instituição pública tem desafios que são bem comuns, porque tudo que depende de recurso dentro de instituição pública é mais lento de ser obtido. Se você precisa melhorar uma infraestrutura, não vai acontecer em curto prazo, geralmente os prazos são grandes. Então, esses desafios ainda permanecem, a gente ainda precisa lutar por alguns outros avanços em termos de infraestrutura, eu acho que esse é o principal. Segundo, é que as legislações do MEC, do ensino superior, elas têm avançado e mudado muito em pouco tempo. O curso sempre tem que estar o tempo todo atendendo uma coisa nova. Então, a questão do tempo para decidir, para ter resultado, é um pouco mais lento por várias normativas que a gente segue.
Há outros desafios?
Lorena: Motivar os alunos, também. O pós-pandemia nas instituições trouxe um outro cenário. O aluno chega desmotivado, ele não entende muito bem o que aquele curso vai trazer em termos de retorno profissional, financeiro. Então, também teve engajamento da comunidade do curso, foi algo desafiador, mas a nota vem como uma celebração, trouxe isso que a gente buscava.
Isabelle: Instituições públicas têm dificuldade de verbas. Muitas vezes a gente manter um trabalho de excelência é complicado. Você traz alunos para o laboratório e não tem reagente, não tem equipamento. Como você consegue permitir que eles tenham acesso a ensino de qualidade com essas deficiências? Então, os professores inovam muito nesse sentido, mas, claro, se a gente tivesse mais investimento na universidade pública, com certeza isso iria refletir em um quadro melhor nesse sentido de formação, principalmente no curso de biotecnologia, que é extremamente prático.
A melhoria do curso foi uma atividade totalmente interna ou houve alguma colaboração externa à Ufam?
Lorena: Externa não, mas a gente tem alguns elementos aqui que enriquecem muito o nosso curso. Por exemplo, a Ufam tem um centro de incubadora de empresas, o CDTECH [Centro de Desenvolvimento Empresarial e Tecnológico], e a gente tem startups de base biotecnológica aqui. A gente consegue citar pelo menos três empresas que estão instaladas aqui, incubadas aqui, com egressos do curso, ou do nosso curso, ou da PPGBiotec, porque aqui também tem um programa de pós-graduação em biotecnologia que se comunica bem com o curso, que consegue também absorver um pouco de alunos e trazer um pouco dessa inovação para os nossos eventos, para palestra, para uma aula, vem como convidado para uma aula. Isso também enriquece um pouco essa ponte com o mercado, com esses setores biotecnológicos. Mas ainda é dentro da Ufam, o próximo passo que a gente está querendo é ir para fora, buscar convênios, melhorar essa ponte do curso com as indústrias que estão aqui. A bioeconomia está crescendo muito, tem editais abertos de fluxo contínuo para a bioeconomia.
A biotecnologia desenvolvida no Amazonas se diferencia muito da de outros locais?
Lorena: A Amazônia é uma região estratégica global, a gente sabe o valor dela. E eu acho muito diferente, no sentido de qualidade, de percepção de contexto, uma pessoa que trabalha, que usa a biodiversidade da Amazônia sendo daqui, do que quem vem de fora, faz acesso a isso ou usa. Acho um diferencial, um privilégio, que a gente possa falar de biodiversidade na biotecnologia estando na Amazônia. Acho que a gente está um passo à frente de outros cursos que, com certeza, passam pela Amazônia. Porque a biodiversidade é a base da biotecnologia. Os professores, quando vão propor um projeto, propor um experimento, usam recurso natural daqui. Vão trabalhar com o processo fermentativo? São os frutos daqui, são leveduras extraídas de amostras daqui. A gente já trabalha com a Amazônia, é o quintal da Ufam.
Isabelle: Exatamente isso. Toda a biodiversidade a gente tem aqui, e tem alunos que vêm de outros estados porque querem ter o privilégio de estudar na Amazônia. Isso é fantástico, principalmente a nível de pós-graduação. Isso traz um reconhecimento muito bom para a gente e para os nossos alunos, porque eles veem: “eu estou no cerne da biotecnologia e eu preciso aproveitar”. Agora, é claro que, falando um pouco de desenvolvimento de tecnologias, comparando aos grandes centros no Sul e Sudeste, eles têm um pouco mais de tecnologias, mas temos visto que as agências de fomento, principalmente a Fapeam, têm investido para melhorar isso, assim como o CNPq e outras instâncias que tentam valorizar os pesquisadores alocados nessa região.
Quais áreas têm maior potencial para a biotecnologia trabalhar aqui?
Lorena: A gente tem uma linha bem forte dentro do curso, que são os micro-organismos amazônicos, tanto como base para extrair moléculas que possam virar medicamentos, potenciais cosméticos, enzimas que podem otimizar processos industriais, como sistema biológico para fazer, por exemplo, uma engenharia genética. Um dos fundadores disso dentro da Ufam é o professor Spartaco Astolfi Filho, e ele ainda está aqui. Tem muita pesquisa no grupo dele que absorve muito a comunidade do nosso curso envolvendo genéticos, biologia molecular, engenharia genética. Acho que esse é um ponto forte, os micro-organismos amazônicos, as tecnologias que são trabalhadas no curso passam por isso.
Isabelle: Falando de micro-organismos, uma das linhas de pesquisa que os professores estão envolvidos é a biorremediação.
Como funciona?
Isabelle: Então, por exemplo, uma área estratégica como o nosso Amazonas, uma região cheia de rios, o nosso transporte praticamente é todo fluvial. Nessa questão, tem muito derramamento de diesel que não é monitorado, e a gente tem visto que há micro-organismos aqui da região que degradam esse diesel. A gente cultiva no laboratório isso, você coloca uma fonte mínima de carbono, só põe diesel e ele degrada tudo. Então, eles estão produzindo enzimas, proteínas que a biotecnologia consegue enxergar e, de repente, pode utilizar isso como um produto biotecnológico no futuro para limpar o ambiente.
E isso tudo pode ser inserido no Polo Industrial de Manaus? Existem empresas interessadas?
Lorena: Esse trabalho agora que a gente precisa começar a galgar, porque ficamos muito aqui cuidando de coisas administrativas, pedagógicas, agora a gente quer, ainda mais com esse conceito cinco, que é um bom atrativo, fazer essa ponte com as empresas. A demanda pode vir daqui, mas pode vir deles também, porque é importante a gente entender o que o mercado precisa e, de repente, direcionar aqui dentro das pesquisas que os alunos fazem, em todos os níveis. Isso já acontece em nível de pós-graduação dentro da Ufam, mas na graduação, como os alunos estão em formação, isso é um pouco mais sutil, mas seria bom.
O Centro de Bionegócios da Amazônia tem buscado usar a bioeconomia como uma nova matriz econômica do estado. A biotecnologia pode ser inserida nessa questão?
Lorena: Com certeza. Estrategicamente, a biotecnologia é um bom caminho para a bioeconomia, porque a gente agrega valor ao recurso natural sem extingui-lo da natureza, não precisa extrair predatoriamente. A gente pensa em soluções inteligentes, sustentáveis, a partir do que a gente conhece da biodiversidade, e a bioeconomia passa por isso. A gente tem soluções inteligentes para usar o recurso natural, a biotecnologia faz isso o tempo todo, parte do conhecimento de base da biodiversidade, leva para o laboratório, reproduz, propaga, faz algo sintético, similar ao que é natural, para não esgotar o recurso.
Isabelle: Inclusive, os nossos alunos fazem estágio no CBA, trabalham com os pesquisadores. A gente tem, querendo ou não, essa parceria. Tem os alunos da Empresa Júnior, os alunos da LiNA Biotech que trabalham com os pesquisadores.
Lorena: É bom citar que o nosso curso tem uma Empresa Júnior que se chama Pallas Biotech que já faz essa primeira formação profissional dentro da graduação ainda. Eles não são formados, mas conseguem prestar pequenos serviços para a comunidade, para empresas, pequenas consultorias dentro do que eles têm de formação nas disciplinas, eles conseguem profissionalizar. Ela está bem forte dentro do nosso curso e a gente está procurando fortalecer ainda mais.