Educação

Projetos da UEA destacam música como ferramenta de inclusão

Pesquisador defende ampliação do ensino musical e aponta impactos da arte na educação, saúde, identidade cultural e desenvolvimento social

Lucas Vasconcelos
06/06/2026 às 18:49.
Atualizado em 06/06/2026 às 18:49

Atividades musicais estimulam memória, socialização e bem-estar em diferentes faixas etárias (Junio Matos/A Crítica)

Enquanto o debate sobre educação costuma se concentrar em disciplinas tradicionais, pesquisadores e educadores defendem que a música também ocupe espaço estratégico nas políticas públicas voltadas à formação humana.

No Amazonas, projetos desenvolvidos pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA) buscam ampliar o acesso ao ensino musical e demonstrar como a arte pode contribuir para a inclusão social, a valorização cultural e até a promoção da saúde.

À frente do Laboratório de Pesquisa Práticas e Ensino Musical (Lapeam), o professor Fábio Carmo afirma que a música produz impactos que vão muito além da formação artística.

“A música tem um papel transformador extremamente concreto no Amazonas, principalmente porque ela consegue alcançar jovens em contextos onde muitas vezes faltam oportunidades culturais, educacionais e até perspectivas profissionais”, afirma o professor.

Segundo ele, projetos musicais desenvolvidos dentro e fora da universidade têm revelado o potencial da arte como instrumento de pertencimento e desenvolvimento social.

“Ao longo das ações que desenvolvemos, percebemos que a música funciona como ferramenta de inclusão social, fortalecimento da autoestima e construção de identidade cultural”, destaca Fábio.

Desigualdade de acesso

Apesar da riqueza cultural do estado, o acesso ao ensino musical ainda está longe de ser universal.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a oferta de cursos e oficinas de formação cultural permanece desigual no país. Levantamento do instituto aponta que apenas 46,9% dos municípios brasileiros possuem algum tipo de escola, oficina ou curso regular ligado a atividades culturais. Entre as áreas mais presentes estão justamente os cursos de música.

Essa realidade também se reflete no Amazonas. Muitos estudantes chegam aos projetos universitários sem nunca terem tido contato com instrumentos musicais ou formação especializada.

“Uma das principais realidades encontradas é a desigualdade de acesso à formação artística. Muitos jovens possuem enorme potencial criativo, mas não tiveram acesso a instrumentos, professores especializados ou espaços adequados de aprendizagem”, pontuou o professor.

A situação se torna ainda mais desafiadora nos municípios do interior.

“O acesso ainda é bastante desigual, especialmente quando observamos o interior do estado e comunidades mais afastadas dos grandes centros urbanos”, observa.

Entre os principais obstáculos, Fábio cita a falta de infraestrutura, a escassez de profissionais especializados e as dificuldades de permanência dos estudantes nos projetos de formação.

“Muitas vezes o aluno consegue ingressar em um projeto, mas enfrenta dificuldades de transporte, alimentação ou acesso tecnológico para continuar”, explica.

Música além da sala de aula

Professor Fábio Carmo coordena pesquisas e projetos que utilizam a música como ferramenta de inclusão social

Para o pesquisador, a democratização do ensino musical passa necessariamente pela escola.

Ele defende que a música não seja tratada apenas como conteúdo teórico ou atividade eventual, mas como uma prática permanente dentro do ambiente escolar.

“A presença prática da música nas escolas é decisiva nesse processo. Não basta que ela exista apenas no currículo formal; é necessário que os estudantes tenham experiências reais com instrumentos, prática coletiva, criação musical e vivência artística”, afirma.

Quando a música é vivenciada de forma concreta, os benefícios alcançam diferentes dimensões da formação humana.

“A música desenvolve habilidades cognitivas, sociais, emocionais e culturais fundamentais para a formação cidadã”, ressalta.

Identidade amazônica

Outro aspecto destacado pelo pesquisador é o papel da música na valorização da cultura regional.

Segundo ele, muitos jovens chegam aos projetos carregando referências musicais amazônicas sem perceber a importância cultural dessas manifestações.

“Muitos alunos chegam com referências musicais amazônicas muito fortes, mas sem perceber o valor cultural e artístico dessas expressões. O trabalho universitário ajuda justamente a fortalecer esse reconhecimento”, afirma.

A aproximação entre universidade, escolas e comunidades também contribui para preservar tradições culturais e criar novas possibilidades de produção artística.

“Os projetos universitários cumprem um papel essencial de ponte entre a universidade e a sociedade. Quando a música sai apenas do ambiente acadêmico e ocupa escolas, teatros, comunidades, espaços públicos e projetos sociais, ela se torna uma ferramenta de diálogo social”, diz Fábio.

Investimento permanente

Para ampliar  o impacto social da educação musical, Fábio Carmo defende a adoção de políticas públicas de longo prazo.

“Ainda falta continuidade nas políticas públicas culturais e educacionais. Muitos projetos conseguem excelentes resultados, mas enfrentam dificuldades por dependerem de editais temporários ou recursos pontuais”, afirma.

O professor destaca que a riqueza cultural do Amazonas ainda precisa de maior valorização institucional.

“O Amazonas possui uma riqueza cultural imensa que ainda precisa ser mais valorizada institucionalmente. Investir em música e arte significa também investir na preservação da identidade amazônica e na formação de novas gerações mais conscientes culturalmente e socialmente”, conclui.

O desafio das próximas décadas

Além da juventude,   o pesquisador chama atenção para um tema que deve ganhar cada vez mais relevância: o envelhecimento da população brasileira.

O assunto acompanha uma transformação demográfica já observada pelo IBGE. Segundo projeções do instituto, a proporção de idosos no país quase dobrou entre 2000 e 2023, passando de 8,7% para 15,6% da população. A estimativa é que, em 2070, cerca de 37,8% dos brasileiros tenham 60 anos ou mais.

Para Fábio, a música terá papel cada vez mais importante em políticas públicas voltadas à saúde, ao bem-estar e à integração social.

“Com o envelhecimento populacional previsto para as próximas décadas, a música passa a ter também um papel estratégico em políticas de saúde, bem-estar e integração social”, aponta.

As projeções do IBGE indicam ainda que a idade média da população brasileira deve passar de 35,5 anos, registrada em 2023, para 48,4 anos em 2070, reforçando debates sobre saúde, convivência social e qualidade de vida.

Atividades musicais estimulam memória, atenção, coordenação motora e saúde emocional, além de fortalecer vínculos comunitários.

“A música contribui para qualidade de vida, participação comunitária e saúde emocional, ao mesmo tempo em que ajuda na formação de plateia cultural”, observa.
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