Experiências de quem vive a festa vermelha e branca revelam o sentido da tradição que ocupa as ruas de Parintins até o amanhecer
O evento é tradicionalmente realizado na virada do dia 30 de abril para 1º de maio (Foto: Daniel Brandão/Divulgação)
Parintins se prepara, mais uma vez, para uma de suas manifestações culturais mais marcantes: a Alvorada do Boi Garantido. Realizado na virada do dia 30 de abril para 1º de maio, o evento reúne milhares de torcedores nas ruas em uma celebração que atravessa gerações e reafirma a força de uma tradição consolidada na cidade. A TV A CRÍTICA vai transmitir a festa a partir das 22h do dia 30 pelo canal aberto e pelo Youtube.
Mais do que um evento festivo, a Alvorada surgiu na década de 1970 para anunciar o primeiro ensaio do boi, realizado no dia 1º de maio. Segundo o diretor musical e membro da Comissão de Artes do Boi Garantido, Enéas Dias, o Paulinho Faria, apresentador na época, e a família Monteverde se reuniam num pequeno carro de som e saíam cantando as toadas pela cidade, começando pelo Curral da Baixa.
Paulinho Faria num dos primeiros registros da Alvorada
“A partir dali começa essa que hoje é uma das maiores festas do calendário de Parintins, uma festa tão esperada quanto o festival. E tem gente que inclusive prefere vir para a Alvorada pelo formato do evento em si. Hoje é um megaevento, com trio elétrico, batucada, vários cantores, itens, banda, e realmente uma grande multidão”, celebra Enéas.
Multidão encarnada percorre as ruas de Parintins durante a Alvorada do Garantido
O trajeto também reflete essa grandiosidade: o cortejo sai da Baixa de São José e segue até a Catedral de Nossa Senhora do Carmo, tomado por uma onda de torcedores encarnados ao longo do percurso. Para ele, é nesse contato direto com o público que a tradição se mantém viva. “Quando a gente fala ‘vamos brincar de boi’, é isso que a Alvorada tem: são as nossas emoções com o pé no chão, nas ruas”.
Na tela da TV
A grandiosidade da Alvorada também se reflete na forma como a festa é acompanhada pela imprensa. Para a apresentadora da TV A CRÍTICA, Naiandra Amorim, viver a experiência é essencial para traduzir sua dimensão. “Para cobrir a Alvorada e ser verdadeira nos comentários, você precisa vivê-la. Já fiz questão de fazer todo o percurso, pertinho da Batucada, e vi o amanhecer em frente à Catedral. É impressionante acompanhar a paixão das pessoas [...] até o dia raiar. Só vivendo para entender”.
Naiandra Amorim e Amaral Augusto comandam a apresentação da Alvorada
A experiência também marcou a repórter Giovanna Andrade em sua estreia na cobertura do evento no ano passado. Um dos momentos mais marcantes, segundo ela, foi a entrevista com uma torcedora idosa. “A Marli, uma senhorinha que estava em um dos camarotes, foi de cadeira de rodas, torcedora do Garantido desde que se entende por gente, e nós tivemos a grata surpresa de ela estar comemorando o aniversário dela ali naquele dia. Não recordo agora a idade, mas acredito que era na casa dos 80 anos. Ela vendo o boizinho dela e falando da sua história com ele. Aquilo me fez perceber o que era a Alvorada do Garantido”.
Estreia de Giovanna Andrade na cobertura da Alvorada 2025
‘Causos’ da madrugada
Entre quem vive a Alvorada ano após ano, as histórias ajudam a traduzir o espírito da festa. Filho do ex-amo do boi Tony Medeiros, o produtor cultural João Medeiros lembra um encontro que rompeu a rivalidade entre torcidas. “Eu encontrei um amigo do meu pai, que é muito Caprichoso, e ele falou: ‘eu sou Caprichoso fanático, mas não vou negar: a Alvorada é a melhor festa de boi de Parintins’.” Ele também relembra um episódio durante o cortejo, transmitido ao vivo pelo rádio para toda a cidade.
Filho do ex-amo do boi Tony Medeiros, o produtor cultural João Medeiros vive a Alvorada desde a infância
“O trio quebrou, e eu fiquei ajudando a empurrar, fiquei podre ‘a diesel’. No meio da animação, fui ficando mais solto, tomando minha ‘água que passarinho não bebe’ e fazendo algumas tolices pelo caminho. Aí meu pai me deu um ralho ali mesmo, e toda a cidade acabou ouvindo. Fiquei pianinho (risos)”.
Viajando em caravana e acompanhando toda a chegada à Ilha da Magia, o analista Erick Carneiro destaca a ansiedade para a Alvorada vermelha e branca, após sete anos sem participar. Durante o percurso, ele conta que a intensidade toma conta da festa. “A gente esquece o tempo, vira batuqueiro, cantor... e já tive situações de perder meus óculos por chegar na Catedral chorando (risos)”. Para ele, a experiência reforça o sentido da tradição. “Estar nisso é manter vivo o festejo criado pelo mestre Lindolfo e contribuir com a história do boi, mesmo que seja no meio do povão”.
Erick Carneiro destaca a ansiedade para a Alvorada vermelha e branca, após sete anos sem participar
Adaptações
A tradição também abre espaço para novas formas de participação. Uma das novidades deste ano é o aluguel de triciclos personalizados, com bebidas incluídas, para quem quer viver a experiência sem se preocupar com a organização. Segundo o empresário Erick Siderval, a ideia surgiu a partir da demanda do público e de experiências anteriores.
“A gente recebeu alguns amigos que queriam curtir a Alvorada, e no ano passado fizemos dois triciclos: um deles para o Vyni, ex-BBB, todo temático. Aí começaram a perguntar como funcionava, como era feito, e surgiu a ideia de criar a ‘experiência Alvorada’”. Ele explica que o serviço oferece pacotes completos, com triciclo decorado e organização do percurso. “O pacote mais simples já vem com bebida para não se preocupar com nada. A gente organiza tudo e combina o local onde o triciclo vai ficar durante o percurso”.
Segundo ele, além da comodidade ao público, a iniciativa movimenta a economia local. “Existe toda uma cadeia de pessoas que ganham com isso, como quem decora o triciclo e os condutores, que vivem desse ofício e acompanham a Alvorada junto com os participantes”. A procura, afirma, superou as expectativas, o que levou à ampliação da oferta. “A gente já esgotou a quantidade de tricicleiros e está contratando mais para atender a demanda”.
Assim, seja a bordo de um triciclo personalizado ou caminhando com o pé no chão pelas ruas de Parintins, a expectativa é de que a Alvorada reúna, mais uma vez, uma multidão, mantendo viva uma tradição que se reinventa a cada ano sem perder sua verdadeira essência.