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Cinema mais ou menos: nem obras-primas nem desastres, produções cumprem seu papel

Hoje, dizer que um filme é “mediano” quase soa como uma ofensa. Se não é uma obra-prima, precisa ser uma porcaria; se não entra para a história, parece não merecer sequer duas horas da nossa atenção. A cultura da avaliação transformou qualquer experiência em julgamento, e o “mais ou menos” passou a carregar uma espécie de culpa.

Michael Douglas
30/08/2026 às 09:26.
Atualizado em 30/08/2026 às 09:26

Havaí 5.0, uma obra mediana que cumpre o papel de entreter (Foto: Reprodução)

Essa semana peguei assistindo alguns episódio de Hawai 5.0, uma série policial de dez temporadas que acompanha uma equipe de detetives que soluciona inúmeros crimes sempre com a beleza natural do Havai como pano de fundo. É uma obra que está longe de ser memorável, ter atuações dignas de um Emmy, cenas marcantes, mas ainda sim diverte e, acima de tudo, entretém. E as vezes, depois de um dia, uma semana, tão corrida, a gente só precise de uma serie assim, ‘meia boca’.

Hoje, dizer que um filme é “mediano” quase soa como uma ofensa. Se não é uma obra-prima, precisa ser uma porcaria; se não entra para a história, parece não merecer sequer duas horas da nossa atenção. A cultura da avaliação transformou qualquer experiência em julgamento, e o “mais ou menos” passou a carregar uma espécie de culpa.

Existe, porém, uma diferença importante entre uma obra mediana e uma obra ruim. O filme mediano pode ter problemas evidentes de roteiro, escolhas previsíveis, atuações irregulares ou uma direção sem grande personalidade, mas ainda assim encontrar maneiras de funcionar. Ele pode entregar uma boa ideia, construir uma cena eficiente, apresentar uma personagem simpática ou simplesmente manter o interesse até os créditos finais. Sua existência não depende de uma excelência absoluta.

Uma obra pode cumprir aquilo a que se propõe e, ao mesmo tempo, deixar a sensação de que poderia ter ido mais longe. Essa contradição não é um defeito de julgamento; é, muitas vezes, a descrição mais honesta de uma experiência.

A defesa da mediania também passa pelo direito de consumir cinema sem transformar cada sessão em uma obrigação intelectual. Há dias em que a pessoa está cansada demais para acompanhar uma narrativa complexa, interpretar cada símbolo ou procurar uma grande revelação sobre a condição humana. Às vezes, ela quer rir, ver uma estrela de cinema, acompanhar uma franquia, ou passar duas horas em uma sala escura, longe das notificações e das exigências do mundo. Um filme pode oferecer exatamente isso. A experiência não se torna menor porque não reorganiza a vida de quem assiste. O entretenimento também é uma forma legítima de relação com as imagens.

A expectativa de que toda obra precise ser “essencial” cria uma pressão estranha sobre o espectador e sobre os próprios filmes. Cada lançamento chega acompanhado de discursos sobre importância, urgência, relevância e impacto, como se fosse necessário justificar o investimento de tempo antes mesmo de a sessão começar. A consequência é uma espécie de inflação das palavras: tudo precisa ser revolucionário, definitivo ou imperdível. Uma história convencional, feita com competência e sem pretensão de mudar o meio, passa a ser tratada como fracasso. O cinema perde parte de sua liberdade quando só permite que sejam celebradas as obras que conseguem se apresentar como acontecimentos.

O cinema e a televisão também são construídos por essa imensa faixa de obras menores, comerciais, irregulares, esquecíveis, divertidas, estranhas, ambiciosas demais ou simplesmente honestas. Ao lado de Parasita, O Poderoso Chefão, 2001 e Cidade de Deus, existe uma quantidade incontável de produções que movimentam equipes, formam profissionais, testam linguagens e mantêm o público interessado em voltar.

São filmes que talvez não inaugurem uma tendência, mas ajudam a sustentar uma indústria e a criar espaço para que outras experiências aconteçam. A história audiovisual não avança apenas por meio dos grandes monumentos. Ela também se apoia em tentativas imperfeitas, fórmulas reaproveitadas e projetos que fazem algumas coisas
bem enquanto erram em várias outras.

Reconhecer o valor das obras medianas não significa abandonar o senso crítico nem fingir que todos os filmes são igualmente bons. Ainda podemos apontar um roteiro preguiçoso, reclamar de uma temporada que se alongou demais ou admitir que uma produção desperdiçou uma ideia interessante. A questão está em compreender que avaliação
e experiência não são a mesma coisa. Uma obra pode receber uma nota seis e, ainda assim, ocupar um lugar especial na memória de alguém. Pode ser esquecível para a história do cinema e inesquecível para quem a viu no momento certo. Essa diferença entre importância cultural e importância pessoal torna a relação com as imagens mais ampla e mais humana.

Talvez o problema esteja na nossa necessidade de hierarquizar tudo, organizar cada gosto em rankings, transformar qualquer conversa em disputa e decidir rapidamente o que merece ser amado ou descartado. A nota, a lista e o algoritmo prometem orientar o espectador, mas também podem estreitar o campo da curiosidade. Entre a obra-prima e o desastre existe uma área enorme, habitada por filmes que divertem numa noite, séries que acompanham uma rotina, personagens que fazem companhia e histórias que chegam até nós sem pedir reverência. Defender essas obras é defender também uma relação menos ansiosa com a cultura. Afinal, talvez uma sessão não precise ser memorável para ter valido a pena; às vezes, basta ter sido exatamente a distração de que aquele dia precisava.

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