Manauara Clandestina é considera uma das artistas visuais mais promissoras do país
(Foto: Divulgação)
Entre imagens que atravessam fronteiras e ideias que se reinventam, a 16ª edição da Bienal de Gwangju transforma a cidade sul-coreana em um território de experimentação artística entre os dias 5 de setembro e 15 de novembro.
Inspirada no verso do poeta Rainer Maria Rilke — “Você deve mudar sua vida” —, a mostra reúne artistas de diferentes partes do mundo para refletir, por meio da arte contemporânea, sobre as urgências e transformações do presente.
Entre os nomes presentes está a artista Manauara Clandestina, considerada uma das artistas visuais mais promissoras do país. Em entrevista ao BEM VIVER TV, Manauara falou sobre a importância deste momento em sua trajetória.
"O que sem dúvida é um marco importante porque é o meu primeiro trabalho com grande espaço na Ásia, é também o primeiro pavilhão brasileiro na Bienal de Gwangju, que é uma das mais respeitadas também mundialmente, então para mim sem dúvida é um momento bem importante", afirma a artista.
Mais do que uma exposição, a bienal se configura como um espaço de deslocamento simbólico. Em suas salas, corredores e instalações, o visitante é convidado a atravessar narrativas que tensionam memória, identidade e futuro. Em Gwangju, cidade marcada por sua própria história de resistência, a arte ganha contornos políticos e sensoriais, ampliando a percepção sobre o tempo em que vivemos.
Neste ano, o Brasil marca presença de forma inédita com um pavilhão exclusivo. Intitulada ‘Devorações do Amanhã – Brasil’ em rebento, a exposição reúne 35 artistas de diferentes gerações que, a partir do conceito de antropofagia, revisitam heranças culturais para projetar futuros possíveis.
Entre camadas de memória e invenção, o país apresenta ao mundo uma narrativa própria, feita de mistura, ruptura e reinvenção de um Brasil que se constrói tanto a partir de suas raízes quanto de suas travessias.
A presença na bienal, no entanto, ultrapassa o campo institucional. Para Manauara, o deslocamento geográfico se entrelaça com experiências íntimas e afetivas, criando uma camada sensível que atravessa sua produção artística.
“Para além de uma participação na BNA, a importância desse momento é reencontrar também meu irmão Henrique, que vive num território português há alguns anos já, e poder ter esse momento com ele de prática de arte, de prática de ateliê. Enfim, tem sido muito especial. Com isso, resgatar as memórias da infância, as memórias da nossa criação no interior do Amazonas também, na região de Nhamundá, por conta do trabalho dos nossos pais, que são missionários evangélicos", relata.
SOBRE A EXPOSIÇÃO
Para a Bienal de Gwangju, a artista apresentará a instalação Cobra Grande (2026).
Segundo informações da própria artista, o trabalho nasce do deslocamento de Henrique, de sua aproximação recente com as práticas artísticas e da decisão de ambos de transformar essa travessia familiar em processo criativo.
Concebida ao longo de um percurso que conecta a AiR 351, em Cascais, à residência Tropismo, em Seul, e ao Pavilhão do Brasil na 16ª Bienal de Gwangju, a obra incorpora o próprio trânsito entre territórios como parte de sua matéria e linguagem. Nesse sentido, o trabalho propõe uma cartografia afetiva da migração, em que memória, trabalho e deslocamento se entrelaçam em uma mesma trama.
A obra também dialoga diretamente com o nome artístico da criadora, que carrega em si uma narrativa de pertencimento e deslocamento.
"O nome Manauara Clandestina surge no meu momento também de transição de gênero. Na verdade, enquanto eu ainda não tinha decidido um novo nome, a rua me deu esse nome de Manauara. E depois, entendendo tudo, como funciona a imigração mesmo dentro do próprio país, me tornar imigrante dentro do meu próprio país, saindo de Manaus para São Paulo sozinha, me torno clandestina também", relata.
Ao falar sobre sua trajetória, Manauara revela um percurso que atravessa diferentes linguagens e espaços, da igreja às noites urbanas, dos palcos alternativos às grandes bienais internacionais. Sua história evidencia uma construção artística marcada pela experiência, pelo corpo e pela vivência.
"A minha trajetória começou bem antes das participações na Bienal, fazendo performance na noite e, antes disso, trabalhando com arte na igreja mesmo. Nesse momento eu tô indo para a minha quarta Bienal: eu fiz a Bienal das Amazônias com a sede em Belém, eu fiz Bienal de Veneza, na Itália, fiz a Bienal de São Paulo agora do último ano também e agora tô indo para minha quarta, no caso, que é a Bienal de Gwangju, na Coreia. Fica próxima inclusive de Seul", finaliza.
Entre deslocamentos físicos e simbólicos, a artista constrói uma poética que tensiona fronteiras, sejam elas geográficas, sociais ou identitárias. Em Gwangju, sua obra não apenas ocupa um espaço expositivo, mas inscreve uma narrativa amazônica no mapa global da arte contemporânea, reafirmando que toda travessia também é, inevitavelmente, um gesto de criação.