Histórias em Manaus mostram como a dança tem auxiliado na recuperação emocional e na reconstrução da autoestima
Lilian Abreu encontrou na dança um caminho de reconstrução emocional e retomada da vida (Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA)
A dança tem se mostrado uma poderosa aliada na recuperação emocional e na reconstrução de vidas. Em Manaus, histórias de pessoas que enfrentaram momentos extremos de dor revelam como o movimento do corpo pode se tornar um caminho de cura.
Foi o que aconteceu com a assessora pedagógica Lilian Abreu, de 47 anos. Após enfrentar um quadro severo de depressão, ansiedade, burnout e fobia social, ela se afastou do trabalho e chegou a ser encaminhada para aposentadoria por invalidez, depois de um período de isolamento e sofrimento intenso.
Mesmo com acompanhamento médico, uso de medicação e a tentativa de diferentes alternativas terapêuticas e atividades físicas, a melhora era limitada. Foi ao revisitar memórias da juventude, quando teve contato com a dança, que surgiu a ideia de tentar voltar a praticar a atividade que um dia tanto lhe fez feliz.
Após cerca de 10 meses de prática, houve uma virada de chave, e hoje Lilian já não considera mais a aposentadoria e se prepara para retomar a vida profissional. “Eu quero voltar a trabalhar, voltar a ser ativa. Meu médico disse que eu fui fora da estatística. E eu tenho certeza de que a dança teve um papel fundamental nisso, porque me fez sentir vontade de viver de novo”, afirma Lilian.
Dança como ferramenta de transformação
Para o dançarino e produtor cultural Rodrigo Picanço, proprietário do estúdio em que Lilian encontrou acolhimento, o contato com alunos em diferentes contextos emocionais faz parte da rotina, e histórias como a de Lilian não são isoladas dentro dos espaços de dança. Segundo ele, o ambiente construído dentro das aulas contribui diretamente para esse processo, ao promover não apenas aprendizado técnico, mas também vínculos e experiências coletivas que fortalecem as pessoas.
Se, para Lilian, a dança representou uma saída de um quadro profundo de adoecimento emocional, para a gestora Carol Almeida, de 58 anos, ela foi o caminho para atravessar o luto e ressignificar perdas que aconteceram em sequência e de forma intensa em um período de dois anos.
A retomada da dança, aliada ao acompanhamento terapêutico, marcou o início de um novo momento para Carol. Ao se reconectar com as danças regionais, que sempre fizeram parte de sua identidade amazônida, ela encontrou não apenas uma atividade, mas um espaço de expressão e pertencimento.
“A dança sempre esteve presente na minha vida, principalmente as regionais, mas eu tinha deixado de lado por causa da rotina, da carreira, da família. Quando voltei, foi como um reencontro comigo mesma. Hoje, a dança é expressão, é identidade, é pertencimento. Ela me trouxe leveza, alegria e uma sensação muito forte de estar viva de novo”, disse.
A dança se transforma em espaço de acolhimento, pertencimento e recomeço para pessoas de diferentes idades. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA
Sem idade para começar
Segundo o professor de dança Josian Ramos, que dá aula de ritmos regionais para Carol, é notório o impacto da dança, principalmente entre mulheres que buscam, na dança, não apenas aprendizado, mas qualidade de vida e bem-estar emocional.
Carol Almeida participa de aula de ritmos regionais ministrada pelo professor Josian Ramos, em Manaus; dança se tornou ferramenta de superação emocional e reconexão pessoal
Para ele, a principal barreira ainda é o medo de começar, muitas vezes ligado à ideia de que é preciso ter habilidade ou idade ideal, o que, segundo o professor, não se sustenta na prática. “Mesmo que seja sozinho em casa, comece. Depois, faça uma aula para sentir como a dança pode transformar vidas. Ela vai além de movimentos, é se permitir, se entregar e deixar o corpo falar. Não tem certo ou errado, cada um tem seu ritmo. Não tem idade, é para quem quiser, é para todos”, concluiu.