Afirmação foi feita por Mônica Albuquerque, vice-presidente de Conteúdo Original do Disney+ Brasil
O investimento em produções brasileiras para o streaming começa a ser acompanhado por uma discussão que vai além da estreia de novas séries: como transformar histórias locais em propriedades capazes de alcançar diferentes públicos, formatos e mercados? No Disney+, essa perspectiva envolve desde a possibilidade de adaptações para narrativas verticais até estratégias de internacionalização do conteúdo nacional.
Em entrevista, Mônica Albuquerque, vice-presidente de Conteúdo Original do Disney+ Brasil, afirma que a plataforma considera diferentes possibilidades de desdobramento para suas produções. Entre os exemplos está Amor da Minha Vida, série que terá uma segunda temporada e cujo universo também desperta discussões sobre a possibilidade de explorar outros formatos.
“A gente pensa em todas as possibilidades de desdobramentos, inclusive para outros formatos. Amor da Minha Vida, por exemplo, a gente se pergunta se não renderia alguma coisa em vertical. Não temos essa resposta ainda, mas temos a pergunta. É uma das coisas que vamos avaliar na segunda temporada, um potencial até de novo formato”, explica Mônica.
A executiva também aponta a internacionalização como parte do planejamento das produções brasileiras. Segundo ela, a empresa trabalha com uma expectativa de crescimento do conteúdo nacional na plataforma, com a meta de alcançar uma estreia brasileira por mês a partir da metade de 2027, considerando produções de ficção e não ficção.
“Todas as séries originais brasileiras vão ser pensadas com esse prisma, esse desejo da internacionalização, por um motivo muito simples: a gente está recebendo um investimento grande nessa área de produções originais. Temos uma meta, a partir da metade do ano que vem, de ter uma estreia de um conteúdo brasileiro por mês na plataforma, entre ficção e não ficção”, afirma.
Para Mônica, a experiência de mercados como Turquia, Coreia do Sul e Espanha demonstra possibilidades de circulação internacional de conteúdos produzidos fora dos principais centros tradicionais do audiovisual. Nesse cenário, Brasil e México recebem investimentos na América Latina com a perspectiva de ampliar o alcance de suas produções.
“A expectativa da empresa é que os conteúdos brasileiros vão performar, vão funcionar e vão viajar. A gente já viu isso acontecendo em outros países, como Turquia, Coreia e Espanha. Existe essa expectativa e essa visão de que os conteúdos brasileiros e mexicanos têm esse potencial, porque são conteúdos de muita qualidade, muito criativos. Então, eles podem ter essa trajetória global”, destaca.
Novas formas de contar histórias
Além da circulação internacional, as narrativas verticais e os conteúdos de curta duração estão entre os formatos observados pela plataforma. Embora ainda não exista uma decisão sobre investimentos específicos nesse segmento, Mônica afirma que o Disney+ acompanha o crescimento do consumo e da produção desse tipo de conteúdo.
“Nesse momento, a gente está mais perguntando e estudando do que com uma decisão tomada. Temos percebido um movimento de consumo grande, mas também um movimento de produção interessante acontecendo. São questões que fazem parte desse momento da indústria audiovisual, em que há muita experimentação e muita novidade chegando”, explica.
A executiva considera que os formatos curtos podem se consolidar como uma alternativa de narrativa para diferentes gêneros, não necessariamente restritos às novelas verticais. A avaliação também acompanha o reconhecimento desse modelo pela indústria, como a criação de uma categoria de formato curto no Emmy Internacional.
“Provavelmente, essa é uma das tendências de formatos que veio para ficar. Se isso se configurar, certamente em algum momento a gente deve fazer algum gênero nesse formato. Não sei se é uma novela, mas o formato curto tem tido um resultado interessante. Qual história, qual gênero, aí acho que vai um pouco da decisão estratégica de cada um, porque vários gêneros podem ser contados nesse formato. Você pode ter humor, até mesmo ação”, afirma.
Conexão emocional
Ao comentar a recepção de Amor da Minha Vida, Mônica relaciona o desempenho de uma série à capacidade de estabelecer identificação com o espectador. Para ela, a qualidade da produção precisa estar acompanhada de uma conexão que faça o público reconhecer experiências, sentimentos e situações de sua própria vida na narrativa.
“A receita do sucesso de qualquer série está na conexão que ela consegue fazer com a emoção do espectador, seja uma memória afetiva, seja uma expectativa de ver a vida do outro para entender a sua mesma. O sucesso está sempre na qualidade do que está sendo apresentado, mas também em conseguir fazer essa conexão. Quando a gente gera esse elo, gera também uma identificação. E, quando você se identifica com alguma coisa, aquilo passa a ser relevante na sua vida”, analisa.
A executiva também observa que o tempo se tornou um dos elementos mais valiosos para a audiência contemporânea. Nesse contexto, conquistar a atenção do público exige oferecer uma experiência que justifique a escolha de assistir a determinada história.
“Um dos maiores desafios que a gente tem na vida contemporânea é o tempo. A gente corre muito, tem pouco tempo. Então, quando alguém decide dar o tempo dele para assistir alguma coisa, espera receber alguma coisa em troca. O segredo do sucesso é conseguir gerar algum tipo de conexão que justifique ter recebido aquele tempo, que é algo tão valioso para as pessoas hoje, e que isso tenha valido a pena”, afirma.
Na segunda temporada, essa relação com o público deve ser aprofundada a partir dos conflitos que surgem depois do início de uma história de amor. Se a primeira fase apresentou o começo da relação e suas expectativas, os novos episódios avançam para os desafios da continuidade, acompanhando o amadurecimento individual dos personagens e da própria relação.
“Apesar de a primeira temporada ter sido basicamente o início de uma relação, o conto de fadas e tudo mais, a gente já via alguns conflitos que se aprofundam agora na segunda temporada, quando vamos para o ‘depois do felizes para sempre’. Os personagens crescem individualmente e a relação entre eles também cresce e, portanto, o desafio de manter uma relação também cresce. Quando a gente vai para esse lado humano, consegue ter um resultado legal”, conclui.