ritual e identidade

Encontro de pajés marca noite de ancestralidade no 3° Bar do Boi em Manaus

Evento celebra gerações, revive rituais e leva emoção à galera azul e branca no Sambódromo

Vanessa Alcântara
03/05/2026 às 09:04.
Atualizado em 03/05/2026 às 17:19

(Foto: Jeiza Russo)

O Sambódromo de Manaus se transformou, neste sábado (2), em um grande território de celebração do resgate indígena e ancestral. Em mais uma edição do Bar do Boi Caprichoso, a nação azul e branca viveu uma noite dedicada ao tema “Misticismo e Revolução”, em um espetáculo que uniu rituais, memória e emoção, tendo como ponto alto o encontro inédito entre três gerações de pajés.

No palco, grandes nomes do Caprichoso conduziram o público em uma verdadeira viagem pelas raízes do boi. Artistas como Ornello Reis, Júlio Persil, Márcio do Boi, Edmundo Oran, Diego Brelaz e Paulinho Viana, ao lado da Marujada de Guerra, Corpo de Dança Caprichoso (CDC) e Raça Azul, relembraram toadas antológicas que atravessam gerações, reforçando a identidade azul e branca e transformando o espetáculo em um mergulho na memória afetiva da torcida.


Encontro de gerações

No comando da noite, o apresentador Edmundo Oran ajudou a conduzir não apenas o espetáculo, mas também o sentimento coletivo de reencontro com a história do Caprichoso. Para ele, o evento carrega um significado que ultrapassa o entretenimento e se firma como um momento de conexão com a memória cultural do boi, especialmente ao reunir artistas que marcaram diferentes fases da trajetória azulada.

Ao destacar a presença de nomes históricos dividindo o mesmo palco, Edmundo destacou a importância desse encontro como um marco simbólico dentro da temporada.

(Foto: Jeiza Russo)

“Hoje é um encontro de gerações. A gente tem ícones do Caprichoso, como o Waldir Santana, que defendeu o item por três décadas, o Netto Simões e o Erick Beltrão, que representa essa nova fase. É uma noite de ancestralidade, de relembrar momentos marcantes da arena”, afirmou.

Além da grandiosidade do espetáculo, ele também antecipou o tom emocional da noite, marcado pela força das lembranças e pela conexão afetiva entre artistas e público.

“Vai ser um show padrão Caprichoso, com repertório pra cima, mas também com muita emoção. Acredito que vai ter choro no palco, por conta das lembranças que esses artistas carregam”, completou.

Resgate da memória do boi

A proposta de revisitar as raízes do Caprichoso ganhou força com a presença de artistas que ajudaram a construir a identidade musical e cênica do boi ao longo dos anos. Entre eles, o cantor e compositor Renato Freitas, ex-levantador de toadas, que retornou ao palco carregando não apenas sua trajetória, mas também a responsabilidade de representar uma geração que marcou época.

(Foto: Jeiza Russo)

Para Renato, o momento vivido no Bar do Boi não é apenas uma apresentação, mas um exercício de memória coletiva, uma forma de reaproximar o público atual das origens do espetáculo e das histórias que ajudaram a consolidar o Caprichoso.

“É uma noite muito especial. A gente está celebrando a ancestralidade, resgatando tradições e trazendo de volta um pouco daquilo que marcou a nossa época no Boi”, afirmou.

Para ele, o encontro entre artistas de diferentes períodos, reforça o valor dessa troca como um elo entre passado e presente.

“Trazer artistas de outras gerações para interagir com o torcedor de hoje cria uma mistura muito bonita. É um encontro que une passado e presente”, disse.

Momento histórico dos pajés

O ponto mais aguardado da noite ganhou forma no encontro entre os pajés, um momento que, por si só, já carrega forte carga simbólica dentro do espetáculo bovino. Ao som da toada Templo de Monan, Waldir Santana, Netto Simões e Erick Beltrão dividiram o mesmo palco, materializando uma linha do tempo viva do Caprichoso diante dos olhos da torcida.

A cena reuniu não apenas três artistas, mas três formas de interpretar o ritual, três momentos distintos da história do item 12. O resultado foi um espetáculo que misturou técnica, espiritualidade e emoção, reverberando intensamente entre a galera azul e branca.


A origem: o legado de Waldir Santana

Com mais de três décadas dedicadas ao item, Waldir Santana subiu ao palco carregando o peso de quem participou diretamente da construção do que hoje se entende como o ritual do Caprichoso. Referência para as gerações seguintes, ele representa a base estética e simbólica do pajé dentro da arena.

Waldir Santana, pajé histórico do Caprichoso, com mais de 30 anos dedicados ao item 12, emocionou ao dividir o palco com novas gerações.

Visivelmente emocionado ao dividir o palco com nomes de outras gerações, Waldir destacou o caráter único do momento, marcado pelo reconhecimento e pela celebração da trajetória construída ao longo dos anos.

“É uma noite ímpar, muito especial. Estamos falando de misticismo, da valorização do item pajé. E é a primeira vez que a gente se encontra para dividir o mesmo palco”, afirmou.

Ao relembrar sua caminhada, ele chamou atenção para a evolução do espetáculo, especialmente nos aspectos técnicos e visuais, sem perder o vínculo com a essência cultural.

“Eu fui um dos que começaram a construir isso dentro do Caprichoso. De lá pra cá, houve muitos avanços, mas tudo isso continua sendo cultura e sabedoria”, disse.

Mais do que revisitar o passado, Waldir ressaltou a importância de manter viva essa história, especialmente para quem está chegando agora ao universo do boi.

“Os mais novos precisam conhecer essa trajetória. E, pra mim, é uma honra estar aqui, vivo, podendo contar essa história”, completou.

A transição: marca de Netto Simões

Entre a tradição e a modernidade, Netto Simões representa um momento de transição importante dentro do Caprichoso. Durante sua passagem como pajé, entre 2017 e 2019, ele ajudou a redefinir a forma de construir o item, trazendo uma abordagem mais cênica e baseada em pesquisa de movimentos inspirados na natureza e nos povos originários.

(Foto: Jeiza Russo)

Sua presença no palco, ao lado de Waldir e Erick, reforça esse papel de ponte entre gerações, conectando diferentes formas de interpretar o ritual sem romper com suas raízes.

“Essa é uma noite mágica. Estar ao lado de ícones como o Waldir Santana e também do Erick Beltrão é uma responsabilidade enorme”, afirmou.

Ao explicar sua construção artística, Netto destacou que o trabalho do pajé exige mais do que performance, envolve simbologia, estudo e conexão com elementos que dão sentido ao ritual.

“O maracá é essencial. É ele que conduz ao mundo espiritual, que chama os espíritos. É símbolo de força, luta e transcendência”, destacou.

De volta ao palco após um período afastado, ele também revelou a dimensão emocional desse reencontro com o público.

“Sentir novamente o calor da nação azul e branca é algo que eu nem consigo descrever”, disse.

O presente: a modernidade de Erick Beltrão

Representando a fase atual do Caprichoso, Erick Beltrão leva ao item uma leitura que dialoga com o presente, sem romper com a tradição. Sua atuação reúne influências das gerações anteriores, mas também carrega uma identidade própria, marcada pela inovação e pela defesa das pautas ligadas aos povos originários.

Ao dividir o palco com Waldir e Netto, Erick reconhece a construção coletiva do personagem e o impacto dessas referências em sua trajetória.

Erick Beltrão, pajé atual do Caprichoso, representa a nova geração com atuação que une tradição e inovação no item 12.

“É de suma importância dividir o palco com essas duas feras que contribuíram muito com o Festival de Parintins. Me sinto honrado em viver esse momento ao lado deles”, afirmou.

Para ele, o desafio está justamente em equilibrar herança e renovação dentro do espetáculo.

“Eu trago um pouco de cada um, mas também coloco a minha marca, que é a inovação. Falar do Waldir e do Netto é falar de quem ajudou a construir o meu personagem”, destacou.


A emoção que conecta

No meio da galera, onde o espetáculo pulsa com mais intensidade, a relação com o boi se revela de forma mais intimista. Ali, entre passos marcados e olhos atentos as apresentações, o sentimento de pertencimento ganha forma.

Para o torcedor e dançarino José Mateus, essa conexão vem de longe, nasce na infância e se transforma ao longo dos anos, acompanhando a própria trajetória de vida.

“O ritual é uma forma de contar as lendas do nosso boi. Isso sempre me aproximou da dança. Me lembra quando eu era criança, acompanhando meus primos”, contou.

José Mateus, torcedor e dançarino, representa a conexão da galera com o Caprichoso desde a infância.

Ele também pontua que as noites temáticas têm um papel importante na renovação do público, aproximando diferentes gerações.

“Essas noites aproximam tanto quem já acompanha há muito tempo quanto quem estava afastado. É um espetáculo à parte”, disse.

(Foto: Jeiza Russo/ A CRÍTICA)

A força da torcida azulada 

Mais do que presença, a torcida organizada imprime identidade ao evento. Coordenador da Raça Azul em Manaus, Elias Albuquerque, o Leitinho, acompanha de perto essa mobilização e destaca o papel do Bar do Boi como espaço de encontro e reafirmação cultural.

Para ele, a noite dedicada aos pajés tem um significado especial dentro da temporada, justamente por reunir memória, tradição e emoção em um mesmo momento.

“Hoje é uma noite super especial. É o encontro das gerações, uma mistura de rituais e uma homenagem aos nossos pajés. É uma festa que o torcedor não pode perder”, afirmou.

Elias Albuquerque, o Leitinho, coordena a Raça Azul em Manaus e destacou a força da torcida na temporada bovina.

Ao falar da relação do público com o item, ele ressalta o vínculo afetivo construído ao longo dos anos.

“Cada torcedor tem o seu pajé preferido. Todos têm seu encanto e o público reconhece essa importância dentro do espetáculo”, completou.


Próximas datas

A temporada bovina azulada segue nas próximas semanas. As próximas edições do Bar do Boi Caprichoso em Manaus acontecem nos dias:

  • 23 de maio (sábado) – Especial de Aniversário do Bar do Boi
  • 13 de junho (sábado) – “Alçar as Velas”, último evento antes do Festival de Parintins

Os currais serão realizados no Sambódromo, com entrada gratuita e início às 21h.

Transmissão

A experiência também ultrapassa os limites do Sambódromo. As apresentações dos ensaios dos bumbás são transmitidas pela TV A Crítica, que leva os currais para todo o país por meio do canal no YouTube e de outras plataformas digitais. A cobertura faz parte da programação especial de preparação para o Festival de Parintins 2026, com transmissões aos sábados, a partir das 22h, ampliando o alcance da cultura amazonense para além da arena.

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