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Feitas em Manaus, as telas do país exibem um dilema: o que assistir

Polo Industrial produz milhões de televisores por ano, mas pesquisas mostram que o espectador brasileiro perde quase meia hora rolando catálogos antes de dar o play

acritica.com
03/08/2026 às 15:25.
Atualizado em 03/08/2026 às 15:25

(Foto: Reprodução)

As linhas de montagem do Polo Industrial de Manaus entregaram 13,4 milhões de televisores em 2025, segundo o Painel da Economia Amazonense, elaborado pelo Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam).

Em janeiro de 2026, saíram das fábricas mais 1,17 milhão de unidades, alta de 11% sobre o mesmo mês do ano anterior, movimento puxado pela proximidade da Copa do Mundo. Boa parte das telas que exibem filmes e séries nas salas brasileiras nasce na capital amazonense.

O paradoxo aparece do outro lado do controle remoto. Levantamento da Comscore realizado entre setembro e outubro de 2025 mostra que o espectador brasileiro gasta, em média, 13,6 minutos apenas decidindo o que assistir. Em parte dos casos, esse tempo chega a 28,9 minutos. A tela ficou maior, mais nítida e mais acessível. A decisão, não.

Pesquisadores de comportamento dão nome ao fenômeno: fadiga de escolha. Com catálogos que somam dezenas de milhares de títulos espalhados por várias plataformas, o excesso de opção virou um problema tão concreto quanto a falta dela.

A tela sai pronta da fábrica, a decisão não

O Amazonas ocupa posição singular nessa história. O mesmo estado que concentra a produção nacional de televisores conectados assiste, como o resto do país, à multiplicação de aplicativos dentro desses aparelhos.

O Polo Industrial de Manaus renovou em 2026 seu recorde de empregos formais, com mais de 135 mil vínculos diretos na indústria de transformação, e o setor eletroeletrônico segue entre os que mais abrem vagas, de acordo com o Cieam.

As TVs que saem das fábricas manauaras já chegam ao varejo com sistemas inteligentes embarcados. Isso explica por que a chamada TV conectada deixou de ser tendência e se consolidou como o principal meio de consumo de vídeo no Brasil, conforme a quarta onda do estudo da Comscore sobre o tema.

O aparelho que antes exibia meia dúzia de canais abertos hoje abriga Netflix, Prime Video, Disney+, HBO Max, Globoplay e uma fila de serviços menores disputando o mesmo botão home.

Sete em cada dez brasileiros assinam, e muitos assinam demais

Pesquisa da Nexus divulgada em 2025, com mil entrevistados em todas as regiões do país, indica que sete em cada dez brasileiros consomem conteúdo de plataformas de streaming.

Entre esse público, 27% mantêm um único serviço, 26% pagam de dois a três e 19% acumulam quatro ou mais assinaturas simultâneas. Nas regiões Norte e Centro-Oeste, 24% dos entrevistados declararam manter múltiplas plataformas ao mesmo tempo.

O peso no orçamento acompanha a adesão. A Pesquisa de Assinaturas 2025, conduzida pela Opinion Box em parceria com a Vindi, aponta que os streamings de vídeo lideram o consumo recorrente digital, presentes na rotina de 73% dos assinantes de serviços do tipo. Para 56% dos brasileiros, o gasto mensal com assinaturas em geral fica entre R$ 51 e R$ 200.

Quanto mais plataformas na conta, mais fragmentado fica o catálogo. Um filme estreia em um serviço, migra para outro seis meses depois e some dos dois no ano seguinte. O assinante paga mais e, ainda assim, demora mais para encontrar o que procura.

Quase meia hora de rolagem para quatro horas de tela

Os números da Comscore ajudam a dimensionar o custo desse labirinto. Em 2025, 65% dos espectadores brasileiros assistiram a conteúdos diariamente, com média de 4,3 horas por dia, concentradas entre 19h e meia-noite, faixa que se firmou como o horário nobre do streaming. Os filmes aparecem em 93% do consumo, seguidos pelas séries, com 88%.

Feita a conta, o espectador que perde 28 minutos por noite escolhendo título acumula mais de três horas semanais de rolagem improdutiva. É quase o tempo de dois longas-metragens gasto apenas na vitrine, sem assistir a nada. Para quem trabalha o dia inteiro e reserva a noite para descansar, o desperdício pesa.

O problema não é falta de conteúdo bom. É falta de mapa. As plataformas organizam suas vitrines para reter o usuário dentro do próprio aplicativo, e nenhuma delas tem interesse em avisar que o filme procurado está disponível no concorrente.

"As buscas por 'onde assistir' explodiram junto com a fragmentação dos catálogos, e os portais que organizam essa informação estão entre os que mais ganham audiência no Brasil", afirma Anderson Alves, CEO da QMIX, agência de backlinks.

Plataformas de teste PTV

A resposta do mercado veio de fora das plataformas. Cresceu no Brasil uma camada de sites e portais especializados em organizar o caos dos catálogos: eles listam as estreias da semana, informam em qual serviço cada título está disponível (incluindo as plataformas de testes IPTV e separam lançamentos por gênero, diretor ou franquia.

O relatório do primeiro trimestre de 2026 da consultoria JustWatch, que monitora milhões de usuários mensais, confirma que o mercado brasileiro de streaming nunca esteve tão fragmentado, o que amplia a procura por esse tipo de guia.

Na prática, consultar os melhores teste-IPTV antes de abrir qualquer aplicativo reduz o tempo de busca. Em vez de rolar a vitrine de três ou quatro plataformas em sequência, o espectador chega ao sofá já sabendo o que quer ver e onde o título está hospedado.

Portais do gênero também acompanham datas de estreia nos cinemas e a chegada de produções aos serviços por assinatura, o que evita a frustração de procurar um lançamento que ainda não saiu do circuito.

A lógica é parecida com a dos velhos guias de programação das bancas de revista, adaptada a um cardápio infinitamente maior.

A diferença é que, agora, a curadoria disputa espaço com algoritmos de recomendação que nem sempre acertam, porque priorizam o que a plataforma quer promover, e não necessariamente o que o assinante quer ver.

Ano de Copa muda a rotina da sala

O calendário de 2026 adiciona um ingrediente a esse cenário. A Copa do Mundo historicamente antecipa a troca de televisores por modelos maiores e com recursos mais recentes, e o reflexo já apareceu na indústria amazonense: a produção de janeiro cresceu 11% justamente na esteira da demanda esportiva, segundo o Painel da Economia Amazonense.

Cada TV nova vendida no país é, na prática, mais uma porta de entrada para o streaming. O estudo da Comscore registrou que o conteúdo esportivo já responde por 66% do consumo nas telas conectadas, e a tendência é que o torcedor que compra o aparelho para os jogos continue usando os aplicativos depois do apito final.

Antes de a bola rolar, aliás, parte desse público já se prepara pela internet: a rotina de acompanhar estatísticas, retrospecto e palpites de futebol em sites especializados virou etapa comum do ritual de quem assiste às partidas em casa. O ciclo se repete a cada grande evento: a Copa vende a tela, e a tela cria um novo assinante.

Para Manaus, o movimento tem dupla face. A cidade fatura com a fabricação dos aparelhos e, ao mesmo tempo, vive como consumidora os mesmos dilemas do resto do país na hora de decidir o que exibir neles.

Como gastar menos tempo escolhendo

Algumas mudanças simples de hábito reduzem a rolagem noturna. A primeira é decidir fora do horário nobre: montar uma lista de interesse durante o dia, em poucos minutos, evita a paralisia diante da vitrine às 21h, quando o cansaço torna qualquer decisão mais lenta.

A segunda é acompanhar portais de estreias uma ou duas vezes por semana, em vez de depender apenas das capas que cada aplicativo empurra.

Outra estratégia que ganhou força entre assinantes brasileiros é o rodízio de plataformas: manter um ou dois serviços fixos e alternar os demais conforme o interesse do mês, assinando por trinta dias para ver uma temporada específica e cancelando em seguida. A prática reduz o gasto e, de quebra, encolhe o catálogo a ser vasculhado.

A tela fabricada em Manaus seguirá evoluindo, com mais polegadas, mais definição e mais aplicativos a cada geração. O tempo do espectador, não.

Entre a fábrica e o sofá, a diferença entre uma boa noite de cinema em casa e meia hora perdida no menu está em saber onde procurar antes de apertar o botão.

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