COLUNA CLAQUETE

Filmes desvendam as muitas faces da maternidade além do amor incondicional

Produções como “O Quarto de Jack”, “Madre” e “Mães Paralelas” exploram dor, resistência, perda e os diferentes significados de ser mãe no cinema.

Michael Dogulas
09/05/2026 às 18:55.
Atualizado em 09/05/2026 às 18:56

'Mães Paralelas' evidencia o olhar do diretor Pedro Almodovar sobre a maternidade (Foto: Reprodução/INTERNET)

Ah, a maternidade no cinema! Por muito tempo, fomos bombardeados com a imagem da mãe perfeita, aquela figura etérea que paira sobre os filhos com um sorriso angelical e um amor incondicional que desafia qualquer lógica. Aquela que assa biscoitos, canta canções de ninar e, invariavelmente, tem um conselho sábio para qualquer dilema. É uma visão reconfortante, sim, mas que, convenhamos, pouco se conecta com a realidade multifacetada e, por vezes, caótica de ser mãe.

Felizmente, a sétima arte, em sua busca incessante por desvendar a alma humana, tem se aventurado por caminhos menos óbvios, mostrando que a maternidade é um universo de possibilidades, de dores, de alegrias e, acima de tudo, de escolhas corajosas e nem sempre populares.

A maternidade como resistência

Tomemos como ponto de partida o impactante “O Quarto de Jack”. O filme nos joga de cabeça na realidade Joy, uma jovem mãe que, sequestrada e mantida em cativeiro, cria um mundo inteiro para seu filho, Jack, dentro de um pequeno quarto. A maternidade aqui é um ato de resistência, de invenção e de sacrifício extremo. Joy não é a mãe de comercial de margarina; ela é a mãe que mente para proteger, que se reinventa para sobreviver e que, mesmo diante do trauma mais profundo, encontra forças para nutrir esperança em seu filho.

‘O Quarto de Jack’ vai mostrar história de mãe que vive em cativeiro

 É uma maternidade que nasce da adversidade, que se molda à dor e que, no fim das contas, nos lembra que o amor materno pode ser a mais poderosa das armas contra a escuridão, uma força capaz de redefinir o que significa ser livre.

O filme nos força a questionar os limites do instinto materno e a capacidade humana de adaptação. Joy não apenas protege Jack fisicamente, mas constrói para ele uma realidade, uma narrativa que mantém são em um ambiente insano. A relação entre mãe e filho é a espinha dorsal da história, mostrando como o vínculo pode ser forjado nas circunstâncias mais adversas, transformando um cativeiro em um universo particular.

Dor, perda e obsessão

Em uma abordagem completamente diferente, o drama espanhol “Madre”, de Rodrigo Sorogoyen, nos apresenta uma maternidade dilacerada pela perda e pela busca incessante. Elena, a protagonista, vive o pesadelo de ter seu filho de seis anos desaparecido em uma praia. Anos depois, ela se agarra a qualquer fio de esperança, a qualquer semelhança, a qualquer sombra que possa remeter ao seu pequeno. O filme é um mergulho profundo na psique de uma mãe que se recusa a aceitar o fim, que transforma a dor em uma obsessão que beira a loucura.

Filme espanhol 'Madre' relata a vida de uma mulher que perdeu o filho

 É uma maternidade que desafia a lógica, que se recusa a seguir o luto convencional e que nos faz questionar até onde uma mãe pode ir em nome de um amor que se recusa a morrer.

“Madre” é um retrato cru e visceral da maternidade em sua forma mais vulnerável e desesperada. A busca de Elena não é apenas por seu filho, mas por um sentido para sua própria existência, que foi roubado junto com a criança. O filme explora a linha tênue entre a esperança e a ilusão, entre o amor e a obsessão, mostrando como a ausência pode moldar uma vida de forma irreversível.

As múltiplas formas de ser mãe

E então, chegamos ao mestre Pedro Almodóvar e seu “Mães Paralelas”. Aqui, a maternidade é desconstruída, reconstruída e, por vezes, subvertida. Duas mulheres, Janis e Ana, se encontram em um quarto de hospital prestes a dar à luz. Seus destinos se entrelaçam de forma inesperada, revelando segredos, mentiras e uma complexidade emocional que só Almodóvar consegue tecer com tanta maestria.

O filme aborda a maternidade sob diversas perspectivas: a mãe solo, a mãe que questiona a verdade biológica, a mãe que busca a própria história e a mãe que, mesmo em meio ao caos, encontra uma forma de amar e de se conectar. É uma maternidade que foge do idealizado, que abraça a imperfeição e que celebra a força feminina em suas múltiplas manifestações.

“Mães Paralelas” é um convite a refletir sobre a memória e a construção da identidade materna. Almodóvar, com sua paleta de cores vibrantes e seus personagens intensos, nos mostra que a maternidade pode ser um ato político, uma forma de resgatar o passado e de construir um futuro.

O filme questiona a ideia de que existe apenas uma forma correta de ser mãe, celebrando a diversidade de experiências e a capacidade das mulheres de se apoiarem e de formarem novas famílias, independentemente dos laços de sangue.

Muito além do clichê

Esses filmes, cada um à sua maneira, nos lembram que a maternidade no cinema é um terreno fértil para explorar as nuances da condição humana. Longe dos clichês açucarados, encontramos mães que lutam, que erram, que amam de formas inesperadas e que, acima de tudo, nos fazem pensar. Eles nos convidam a ir além da superfície, a questionar o que esperamos de uma mãe e a celebrar a complexidade de um papel que é, ao mesmo tempo, universal e profundamente pessoal.

No final das contas, o cinema, com sua capacidade de nos transportar para outras realidades, nos oferece uma galeria rica e diversa de mães. Elas nos ensinam que não existe uma fórmula mágica para ser mãe, mas sim uma infinidade de caminhos, todos válidos e cheios de significado. Seja na clausura de um quarto, na busca desesperada por um filho perdido ou na teia de segredos e verdades, a maternidade se revela em sua forma mais autêntica: um ato de amor, de coragem e de humanidade que, por mais imperfeita que seja, é sempre digna de ser contada. E é essa complexidade que nos prende à tela, nos fazendo rir, chorar e refletir sobre a vida.

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