Cultura e Tecnologia

IA: Avanço ou ameaça?

Personagem digital Tilly Norwood reacende debate sobre ética, direitos autorais e substituição de atores humanos

Gabriel Machado
04/10/2025 às 12:12.
Atualizado em 04/10/2025 às 12:26

Sindicatos e artistas consideram que a questão sobre Tilly Norwood extrapola a inovação tecnológica e toca diretamente em temas como ética e representatividade. (Foto: Divulgação)

A criação de Tilly Norwood, a primeira atriz gerada completamente por inteligência artificial, provocou intenso debate em Hollywood. Desenvolvida pela empresa Xicoia, da artista Eline Van der Velden, Tilly foi anunciada como talento de IA, com perfis ativos em redes sociais, e rapidamente despertou reações de sindicatos de atores, profissionais da indústria e do público em geral.

O sindicato norte-americano de atores, o SAG-AFTRA, chegou a emitir um comunicado afirmando que “Tilly Norwood não é uma atriz, é um personagem gerado por um programa de computador treinado com base no trabalho de inúmeros profissionais, sem permissão ou remuneração”. Para a entidade, ela “não tem experiência de vida da qual tirar inspiração, nenhuma emoção”.

A polêmica se intensificou diante das declarações da própria Van der Velden, que defendeu o projeto como uma ferramenta artística e não como substituição do trabalho humano. Segundo ela, a personagem deve ser vista como “uma obra criativa, uma peça de arte”, comparável a formas como animação ou CGI. Ainda assim, sindicatos e artistas consideram que a questão extrapola a inovação tecnológica e toca diretamente em temas como ética, representatividade e preservação do trabalho humano no audiovisual.

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Jornalista Camila Henriques vê o surgimento de uma atriz de IA como algo repleto de riscos.

“É muito problemático esse movimento com essa atriz de IA e essas notícias de que tem agência disputando o passe dela. Vai tirar papéis de atrizes, e nesse caso é uma mulher, a gente sabe que papéis para as mulheres já são mais difíceis de encontrar, principalmente bons papéis”, afirmou ao BEM VIVER TV deste fim de semana.

 Para ela, ainda que a tecnologia seja irreversível, a atuação humana é insubstituível, porque a matéria-prima desse ofício é a emoção genuína.

Camila ressalta também que o uso da inteligência artificial pode abrir precedentes preocupantes, como a recriação de atores já falecidos ou o rejuvenescimento digital quando haveria alternativas tecnológicas menos invasivas. “Isso é muito assustador. O Cinema desenvolve tecnologias revolucionárias há décadas, então, render-se à inteligência artificial para algo que não falta gente talentosa para suprir é muito problemático”, completou Henriques.

Atriz Julia Kahane se mostra preocupada com o impacto financeiro e estrutural que personagens como Tilly podem trazer para a indústria.

“Estamos presenciando o começo da ponta do iceberg e eu acredito que isso é muito mais profundo. Tem gente sendo enganada achando que realmente é uma atriz e outras pessoas ficam curiosas”, observou. Para a artista, essa indiferença pode normalizar a substituição de artistas por figuras digitais.

 Kahane também se mostra preocupada com o impacto financeiro e estrutural que personagens como Tilly podem trazer para a indústria. Produções com IA representam economia significativa para os estúdios, que poderiam reduzir custos com equipe, gravações e cachês. “É com certeza uma ameaça para a gente, por isso que a gente tem que tomar atitudes agora, literalmente agora”, alertou.

Outra questão levantada por Julia envolve direitos autorais e o uso da imagem dos artistas. Ela lembra que o patrimônio de um ator está justamente em sua identidade - voz, rosto e legado - e que, sem uma legislação robusta, existe o risco de apropriações indevidas. A advogada Raquel Lemos, citada pela atriz, já defendeu em palestras que é urgente regulamentar o uso de IA na indústria, justamente para evitar que artistas percam controle sobre o que os torna únicos.

Tanto para Henriques quanto Kahane, a polêmica em torno de Tilly Norwood não se limita à inovação tecnológica, mas abre espaço para reflexões mais amplas sobre ética, representatividade e mercado de trabalho. A jornalista acredita que a saída passa por transparência e regulação, com regras claras para proteger artistas e impedir abusos. Já a atriz defende que os profissionais se antecipem e busquem se resguardar juridicamente, registrando suas imagens e obras, além de encontrar formas de conciliar a tecnologia com a arte humana.

“Eu acredito que isso é muito danoso, obviamente, porque a gente sabe que a gente está, no fundo, começando a ser substituído por uma máquina novamente, perdendo o nosso espaço humano… Já tem milhares de vídeos, personagens e pessoas, personas sendo criadas que parecem muito reais. O público não se importa mais se é real ou não”, conclui Kahane.

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