Dirigido por Bernardo Ale Abinader, o filme reúne elenco local e explora temas ligados à fé, identidade e cultura amazônica
O longa valoriza o olhar amazônico com equipe e elenco da região (Felipe Martins/Divulgação)
As gravações do longa-metragem O Barco e o Rio, dirigido e roteirizado pelo cineasta manauara Bernardo Ale Abinader, começaram na última semana em Manaus e marcam uma nova fase da produção, inspirada no curta homônimo que ganhou repercussão nacional. O filme que deu origem ao título foi reconhecido em festivais importantes, incluindo o Festival de Gramado, onde conquistou cinco prêmios, entre eles os de melhor curta-metragem e melhor direção, abrindo caminho para o desenvolvimento do longa.
Apesar de manter o mesmo título, o novo filme não é uma adaptação direta. A versão atual apresenta uma narrativa diferente, com novos caminhos e abordagens.
A trama acompanha Vera, uma mulher evangélica que decide se desfazer de um barco carregado de lembranças dolorosas ligadas à mãe. O que inicialmente seria uma tentativa de romper com o passado toma outro rumo quando ela é convencida pelo marido, o pastor Sebastião, a transformar a embarcação em uma missão itinerante de evangelização, que percorrerá rios da Amazônia.
A proposta leva a personagem a seguir viagem movida pela crença de que pode ajudar outras pessoas.
A jornada conduz a personagem por um percurso de transformação ao longo dos rios da Amazônia, eixo central da narrativa. “Então a Vera faz essa viagem e, nessa viagem pelos rios da Amazônia, ela passa por grandes transformações. O filme é sobre isso”, resume o diretor. Ao mesmo tempo, o longa amplia esse percurso individual para temas mais amplos, como moralismo, machismo e a cultura ribeirinha da região.
O elenco reúne nomes da cena local, com destaque para Isabela Catão no papel de Vera, ao lado de Abrão Mayoruna, Alice Toledo e Caroline Nunes, que compõem o núcleo central da trama. Protagonista do longa, Catão destaca o mergulho na construção da personagem.
Entre os destaques do elenco está Léo Bittencourt, ator manauara radicado no Rio de Janeiro que retorna à cidade natal para seu primeiro trabalho cinematográfico local, integrando a trama que acompanha duas famílias religiosas em deslocamento pelos rios da região, convivendo de forma intensa ao longo da narrativa. Para Bittencourt, o projeto também tem um significado pessoal e profissional. “Fazem 13 anos que saí de Manaus, mas o lugar onde formei minha essência foi aqui. Estou tendo a oportunidade de fazer parte da história do cinema manauara”, afirma.
No filme, Abrão Mayoruna interpreta Sebastião, um pastor ribeirinho de origem indígena que percorre comunidades levando a palavra religiosa, enquanto carrega o desejo de formar uma família — elemento que atravessa sua trajetória na narrativa. O ator chegou ao projeto após um processo de teste com o diretor. “Foi a partir desse teste com o Bernardo que ele acabou gostando da personagem. Está sendo incrível interpretar o Sebastião, principalmente por se tratar de um filme feito aqui no Amazonas, com atores e com o diretor daqui da região, o que é muito importante”, afirma.
As gravações, iniciadas na última semana, seguem por diferentes localidades ribeirinhas nos arredores de Manaus, como as comunidades do Catalão e São Pedro, e devem atingir a metade do cronograma nos próximos dias. O processo tem exigido uma logística complexa, especialmente pelo deslocamento entre as locações, o que impacta diretamente o tempo de filmagem. “Fazer cinema na região amazônica tem um custo, que é o custo amazônico… e, dentre várias questões, uma delas é o tempo”, destaca o diretor.
Ainda sem previsão oficial de estreia, o longa deve chegar ao público a partir de 2027 ou, no máximo, em 2028, após a finalização das gravações e do processo de montagem. Para o cineasta, apesar dos desafios logísticos, filmar na região também revela potências únicas para o cinema brasileiro.
Segundo o diretor, a produção também representa um avanço na consolidação de um cinema feito por quem vive na região. “Poder fazer esse filme com equipe e elenco daqui, com protagonistas daqui, é uma grande conquista e algo muito importante para a gente construir o nosso próprio olhar sobre a Amazônia”, conclui.