Circuito Sankofa

Mestres da década de 1970 transmitem saberes da capoeira por meio da oralidade

Primeira edição do Circuito Sankofa reuniu cerca de 100 participantes e abre uma série de encontros voltados à preservação dos saberes tradicionais da capoeira

Omar Gusmão
12/07/2026 às 11:31.
Atualizado em 12/07/2026 às 11:31

Roda de capoeira promoveu o encontro de gerações e intercâmbio de conhecimentos entre diferentes escolas (Foto: Divulgação)

A história da capoeira no Amazonas ganhou um novo capítulo nesse sábado (11), com a realização da primeira edição do “Circuito Sankofa – Mantendo a Memória Viva da Capoeira no Amazonas”.

Promovido pela Escola de Capoeira Luta de Libertação, o encontro reuniu aproximadamente 100 participantes no Centro Cultural Canto do Canário, no bairro Cidade de Deus, na zona Norte de Manaus, entre mestres, professores, alunos, capoeiristas e convidados, marcando o início de uma programação dedicada à preservação da memória e da tradição dessa manifestação cultural no estado.

Contemplado pelo Edital Multilinguagens da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura - Amazonas, o projeto pretende aproximar as novas gerações dos mestres que ajudaram a consolidar a capoeira no Estado, sobretudo a partir da década de 1970. Ao longo da iniciativa serão promovidos quatro circuitos formativos, com palestras, oficinas, vivências e rodas de capoeira conduzidas por mestres pioneiros, além de homenagens em reconhecimento às suas contribuições para a cultura amazonense.

Idealizador da iniciativa, o mestre Canário conta que a inspiração surgiu durante uma viagem à Bahia, ao participar do evento Rede Capoeira, realizado em Santo Amaro e Cachoeira, em fevereiro deste ano.

"A ideia surgiu quando eu estava participando do Evento Rede Capoeira, em Santo Amaro e Cachoeira, na Bahia, onde os mestres antigos, todos com mais de 80 anos, são homenageados como heróis populares”, conta o mestre.

“Foi então que pensei no conceito 'O futuro no passado', para que os jovens pudessem aprender diretamente com os mais velhos por meio da oralidade. Nada representava melhor essa proposta do que o termo Sankofa, que significa 'volte e pegue'. Todos os mestres que ministram o circuito iniciaram suas trajetórias na década de 1970, como Mestre Gato, Chaguinha, Francisco e Eliberto Barroncas", afirmou.

A palavra Sankofa tem origem na filosofia ancestral do povo Akan, da África Ocidental, atualmente Gana e Costa do Marfim. O conceito remete à importância de retornar às origens para recuperar conhecimentos essenciais e seguir adiante, princípio que orienta toda a proposta do projeto.

Roda de capoeira promoveu o encontro de gerações e intercâmbio de conhecimentos entre diferentes escolas

 Um dos momentos mais aguardados da programação foi a vivência conduzida pelo mestre Francisco Lagarto, fundador do Instituto Corpo Livre. Em uma aula dedicada à trajetória da capoeira nas décadas de 1970, 1980 e 1990, ele compartilhou fotografias históricas, relatos e experiências que ajudaram os participantes a compreender o processo de consolidação da capoeira no Amazonas.

Inclusão

A programação também abriu espaço para o debate sobre inclusão. O contramestre Teco, pessoa com deficiência e baixa visão, conduziu uma palestra sobre acessibilidade nas atividades culturais, seguida por dinâmicas sensoriais que permitiram ao público experimentar parte dos desafios enfrentados por pessoas com deficiência visual no acesso às práticas culturais.

As tradicionais rodas de capoeira reuniram representantes de diferentes grupos e escolas do Estado, promovendo intercâmbio de conhecimentos e reforçando os vínculos entre praticantes de diferentes gerações. O encerramento ficou por conta do Samba da Frente Unida da Capoeira Tradicional no Amazonas, que apresentou um repertório de samba de raiz em um momento de confraternização entre os participantes.

Estiveram presentes mestres que fazem parte da história da capoeira amazonense, entre eles Chaguinha, KK Bonates, Francisco Lagarto, Espiga, Cabecinha D'Angola, B2 e Neto, além de representantes das escolas Quilombo, Voo da Iúna, Senzala Negra, Bote da Cobra Coral, Luta de Libertação e Raízes Livres.

Centro cultural na zona Norte abriga oficinas gratuitas de berimbau e capoeira para jovens da comunidade

 As atividades do Circuito Sankofa serão desenvolvidas no Centro Cultural Canto do Canário, reconhecido como Ponto de Cultura pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa. Desde 2016, o espaço oferece gratuitamente aulas de capoeira, maculelê, samba de roda e oficinas de instrumentos tradicionais, atendendo crianças, jovens e adultos da comunidade.

Ao longo do projeto, cerca de 400 praticantes deverão ser atendidos diretamente. A programação ainda prevê culminâncias no Centro Cultural dos Povos da Amazônia (CCPA), com apresentações públicas, batizados, entrega de graduações, vivências culturais abertas ao público e uma Feira de Economia Criativa voltada a artesãos e capoeiristas.

Próxima edição no CCPA

A próxima edição do Circuito Sankofa já tem data marcada. O encontro será realizado em 1º de agosto, às 14h, no Centro Cultural dos Povos da Amazônia (CCPA), dando continuidade às ações de valorização dos mestres tradicionais e de preservação da memória da capoeira no Amazonas.

Reconhecidas pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, a Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira encontram no projeto uma iniciativa voltada à salvaguarda desse patrimônio no Amazonas, fortalecendo a transmissão oral dos saberes e a identidade cultural da região.

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