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Música eletrônica em Manaus ganha força com nova geração de DJs

Coletivos, produtores e artistas impulsionam a cena eletrônica na capital amazonense, ocupam novos espaços e reforçam a importância da cultura para a economia criativa local.

Luyza Rodrigues
27/06/2026 às 17:32.
Atualizado em 27/06/2026 às 17:33

Lucas Pacheco conhecido como PACH, afirma que as pessoas estão conhecendo um ambiente acolhedor, sem preconceitos e uma comunidade apaixonada que vai aos eventos pela música (Foto: Divulgação)

Quem circula pelas noites de Manaus já percebeu uma mudança no cenário da cidade. Jovens vestidos com produções elaboradas, óculos escuros e acessórios marcantes ocupam festas ao som de batidas eletrônicas que misturam diferentes vertentes musicais e transformam espaços urbanos em pistas de dança.

O ambiente pode até lembrar tradicionais destinos da música eletrônica, como Ibiza, na Espanha, mas o fenômeno acontece na capital amazonense. Nos últimos anos, a cena eletrônica local passou a ocupar centros culturais, praças, bares, casas noturnas e espaços alternativos, impulsionada pelo trabalho de DJs, produtores culturais e coletivos independentes que vêm conquistando um público cada vez maior.

Entre os artistas que acompanham essa transformação está o DJ Lucas Pacheco, conhecido como PACH. O artista ganhou destaque recentemente ao publicar, em seu canal no YouTube, um set de brasilidades gravado na Rua da Copa, no bairro Alvorada. Para ele, o crescimento da cena é resultado do esforço coletivo de quem trabalha com música eletrônica em Manaus.

"Dá para perceber que a maioria dos coletivos e produtores de eventos de música eletrônica faz isso por amor e porque realmente faz parte da cena, já que muitas vezes não há um retorno financeiro tão grande. Mesmo assim, a cena está acontecendo em Manaus. O público está aumentando aos poucos e os eventos do nicho também", afirma.

Segundo PACH, após um período em que a música eletrônica perdeu espaço para outros gêneros, o segmento voltou a crescer impulsionado por uma nova geração de artistas e frequentadores.

"Hoje você vê a música eletrônica ocupando espaços onde antes isso não acontecia, como centros culturais, shoppings, praças e o próprio Mercado de Origem, que virou um dos pontos dos grandes eventos eletrônicos. Além disso, casas noturnas onde esse gênero não era predominante passaram a abrir espaço para ele. No fim, quem ganha é o público apaixonado pela música eletrônica."

Legado que atravessa gerações

Embora esse crescimento pareça recente, a música eletrônica faz parte da história cultural de Manaus há décadas. Entre os anos 1980 e o fim dos anos 2000, casas noturnas como Shake Club, Crocodilo's Club e Spectron ajudaram a consolidar a cidade como um importante polo da cena eletrônica na Região Norte, reunindo DJs, produtores e um público fiel.

A comunicadora e criadora de conteúdo cultural Barbará Tassinari conta que a relação dela com a música eletrônica começou ainda na infância, influenciada pelos pais, frequentadores dessas casas noturnas.

"A música eletrônica sempre esteve presente aqui na cidade de Manaus, mas ela vem passando por transformações, assim como qualquer outra coisa. Os meus pais iam ao Shake Club e hoje a gente frequenta outras festas porque a música eletrônica passa por transformações. A gente teve grandes festas que aconteceram, que foi até nomeado como Rave na Amazônia com o produtor e DJ César Dantas, que é um dos pioneiros aqui em Manaus. E é muito legal ver a transformação do coletivo."

Fortalecimento da cena eletrônica

Apesar do crescimento da música eletrônica em Manaus, quem vive do segmento ainda enfrenta desafios para consolidar a atividade como parte da cadeia produtiva da cultura. Para artistas e produtores, a expansão da cena só foi possível graças à persistência de quem continua promovendo eventos, formando novos profissionais e criando espaços para o gênero.

Produtor cultural, DJ residente do Coletivo de Música Eletrônica e Artes do Amazonas e integrante da festa Banana Frita — que reúne artistas de diferentes vertentes e completa cinco anos em 2026 —, Leozera afirma que o fortalecimento da cena é resultado do esforço coletivo dos trabalhadores da cultura.

"O que mais contribui para esse fortalecimento é a insistência dos trabalhadores de cultura e dos DJs em continuar tocando e movimentando esse cenário. Se profissionalizar e entender como funciona o mercado e o circuito de festivais tem sido uma das saídas. Mas tudo isso só pode se tornar uma construção concreta com a participação e o fomento do poder público", afirma.

Comunicadora e criadora de conteúdo, Barbara Tassinari, e Dj Thai

 Segundo ele, a falta de políticas públicas específicas para o setor dificulta a consolidação de uma estrutura permanente para a música eletrônica em Manaus.

"Manaus tem um dos maiores festivais da Região Norte, o Sou Manaus (Festival Passo a Paço), que promove dias de apresentações em superestruturas e com grande orçamento. Mas os DJs que não aceitam tocar apenas nos intervalos entre os shows não são contratados. O único DJ que teve um espaço justo não era manauara, nem brasileiro. Então não há como o público entender a importância dos artistas locais se o poder público municipal não oferece oportunidades. É uma construção conjunta."

Leozera destaca ainda que existe uma discussão em andamento sobre o reconhecimento institucional do gênero. Tramita na Câmara Municipal de Manaus o Projeto de Lei nº 293/2026, que propõe declarar a música eletrônica como manifestação cultural e patrimônio imaterial do município.

"Isso pode ser o início de uma discussão sobre o papel decisivo do Estado no fortalecimento da música eletrônica manauara e da economia criativa que gira em torno dela", ressalta.

Profissionalização impulsiona o crescimento

Para a DJ Thay, a valorização dos artistas depende também do investimento contínuo na carreira.

"O que faz com que alguém seja mais valorizado é continuar sempre estudando e investindo para não se acomodar, adquirindo novos conhecimentos, fazendo network e, claro, não diminuir o valor do seu trabalho, pois sempre tem alguém que paga o valor que queremos."

Na avaliação de PACH, o aumento da quantidade de festas e eventos fortalece toda a cadeia da música eletrônica. Além de ampliar o público, cria oportunidades para que DJs produzam novos projetos, gravem apresentações e levem o trabalho desenvolvido em Manaus para outras regiões do país e até do exterior.

"Com a frequência maior de eventos, os DJs locais conseguem investir mais em seus projetos, criar seus próprios eventos e gravar apresentações. Eu mesmo gravei um set na Rua 3, na Alvorada, tocando apenas brasilidades. Assim como eu, vários DJs da cidade têm sets incríveis nas plataformas digitais e muitos também produzem músicas que acabam sendo tocadas por grandes artistas ao redor do mundo."

O artista destaca que o crescimento da cena é resultado do trabalho coletivo de produtores, DJs e organizadores que atuam em diferentes vertentes da música eletrônica.

"Manaus tem grandes nomes que ajudam a construir essa cena. O DJ BessMaze, por exemplo, está à frente da label Aurora, foi professor de muitos DJs da cidade e é um dos grandes ícones da música eletrônica local. A Madame C, residente do Flutuante Abaré, já é conhecida até por pessoas que estão fora da bolha da música eletrônica. O DJ Sone vem recebendo suporte de grandes DJs internacionais, que tocam suas produções. Saturno, Gadelha e Bruno Pimenta estão à frente da Ama Produções, realizando eventos de altíssimo nível. O Bl4ck Hole e o Hybrid Machines fortalecem a cena trance em Manaus. O Vândalo é um dos responsáveis pelo crescimento do techno. Eike, Raul e Lavor representam a cena house, enquanto o DJ Keoma, além de produtor e DJ, é o responsável pela Conexão Eletrônica, a maior página dedicada à música eletrônica em Manaus."

Para os artistas, a consolidação da cena eletrônica mostra que o gênero vai muito além das pistas de dança. Com diferentes estilos, produtores, coletivos e públicos, a música eletrônica segue ampliando seu espaço na cultura manauara e fortalecendo a economia criativa da cidade.

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