No Dia dos Povos Indígenas, Duhigó Tukano, Abrão Mayoruna e Reby Ferreira reafirmam a arte como ferramenta de afirmação cultural e combate a estereótipos históricos
A artista visual Duhigó, da etnia Tukano, posa ao lado de sua obra (Tracey Davies/Divulgação)
Artistas indígenas ocupam espaços, rompem estereótipos e transformam o olhar sobre seus povos. A partir de suas artes e vivências, no Dia dos Povos Indígenas, celebrado no dia 19 de abril, eles reafirmam identidade, memória e protagonismo, ampliando narrativas historicamente silenciadas e propondo novas formas de ver e compreender suas culturas.
Duhigó, que significa “primogênita” na língua Tukano, nasceu na aldeia Paricachoeira, em São Gabriel da Cachoeira (AM). Filha de pai Tukano e mãe Dessana, construiu uma trajetória pioneira ao se tornar a primeira artista visual profissional de sua etnia, após formação em pintura concluída em 2005.
Sua produção traduz a cosmovisão indígena a partir da memória, do cotidiano e da relação profunda com a natureza amazônica, transformando vivência em linguagem artística.
Ela reconhece na arte um caminho de abertura, capaz de ampliar o olhar sobre os povos indígenas e afirmar o valor de suas histórias. “A arte transformou a minha vida, me deu outras oportunidades.
E quando a gente mostra o nosso trabalho, as pessoas começam a ver que a nossa cultura tem valor. Hoje, as obras indígenas estão sendo reconhecidas não só aqui, mas fora do país também”, celebra a artista.
Sua arte se consolida como instrumento de preservação e continuidade, mantendo viva a memória do povo Tukano. Ainda assim, a artista ressalta que o preconceito persiste, muitas vezes alimentado por estigmas.
Abrão Nakua Mayoruna é ator indígena da etnia Matsés, do Vale do Javari, no Amazonas. Integrante do Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas (MEIAM), atua há cerca de dez anos nas artes, com trajetória iniciada no teatro e expandida para o audiovisual.
Estreou profissionalmente na série Aruanas (2018) e participou de produções como Velho Fantástico, Arqueiro da Amazônia e Flores Secas.
A partir dessa trajetória, o ator evidencia as barreiras ainda presentes no mercado artístico, especialmente no acesso a oportunidades que ultrapassem papéis estereotipados.
A artista visual Duhigó, da etnia Tukano, posa ao lado de sua obra
Mayoruna também chama atenção para a necessidade de escuta e respeito às vivências indígenas dentro e fora do audiovisual. “A sociedade ainda carrega muito preconceito em relação aos povos indígenas, muitas vezes ligado à nossa forma de falar. Algumas pessoas dizem que não falamos bem o português, mas não compreendem que temos nossas próprias línguas. O português é uma segunda língua, que aprendemos para nos comunicar fora das nossas comunidades. Por isso, não faz sentido exigir que falemos um português ‘perfeito’. Somos de culturas diferentes, com modos de vida próprios, e isso deve ser respeitado”.
Rebeca Ferreira — a Reby — carrega no próprio percurso as marcas de uma identidade historicamente silenciada. Indígena dos povos Munduruku e Mura, com raízes no Vale do Tapajós (PA), construiu sua trajetória em contexto urbano, em Manaus, transformando essa vivência em atuação política, artística e educativa.
Cofundadora da MI Moda Indígena, atua na interseção entre arte, educação e empreendedorismo, com iniciativas voltadas à formação em comunidades indígenas. O projeto ganhou projeção internacional com participações na London Fashion Week, ampliando o alcance da moda indígena como expressão cultural e ferramenta de geração de renda.
Reby Ferreira na London Fashion Week 2025
Essa trajetória é atravessada por um passado recente de apagamento e silêncio. Ao refletir sobre os desafios da afirmação identitária ao longo das gerações, Rebeca evidencia mudanças importantes, sem desconsiderar as marcas deixadas pelo preconceito.
Hoje, ao ocupar espaços como artista e agente cultural, ela defende protagonismo e autonomia na construção de narrativas. “Todos os indígenas são capazes de contar suas próprias histórias, espiritualidade e ancestralidade. Não precisamos de intermediadores para isso. Somos gratos por todos os apoios e parcerias que recebemos de não indígenas, e ainda precisamos de apoio e recursos. Mas o indígena precisa se esforçar, no âmbito acadêmico principalmente, mostrando que existe uma ponte entre o conhecimento ocidental e o conhecimento ancestral dos povos indígenas”.
Para Reby, a Arte Educação se afirma como ferramenta de resistência e continuidade, ao ampliar o acesso de indígenas a oportunidades e fortalecer o diálogo entre saberes ancestrais e não indígenas, promovendo visibilidade, registro e reconhecimento, longe de estereótipos e da histórica posição de silenciamento.