Evento reúne artistas para discutir misoginia e ampliar a visibilidade da produção literária de mulheres
O sarau se consolida como um espaço estratégico de fortalecimento da presença feminina na cena literária e cultural da região ao promover encontros (Divulgação)
Em um cenário ainda marcado por desigualdades de gênero no campo literário, o coletivo Enluaradas promove, no dia 29 de julho de 2026, às 19h, o I Sarau Enluaradas, no Teatro Gebes Medeiros (Av. Eduardo Ribeiro, 937, Centro). Com a proposta de reunir vozes femininas da Amazônia, o evento surge como um espaço de reflexão e expressão artística, colocando em pauta o tema “Escritoras na Amazônia: misoginia, silenciamento e resistência no campo literário”. A iniciativa busca não apenas evidenciar os desafios enfrentados por mulheres escritoras, mas também fortalecer a produção autoral feminina e ampliar o debate sobre representatividade na literatura regional.
Segundo Rita Alencar Clark, escritora e coordenadora do Coletivo Enluaradas, o sarau tem o proposito de viabilizar vozes da literatura amazonense. “o I SARAU ENLUARADAS já estava sendo programado desde o início do ano, mas como as agendas das escritoras estão sempre lotadas, decidimos pelo mês de julho e conseguimos agendar o evento no Teatro Gebes Medeiros (antigo Ideal Clube). O nosso propósito maior é dar visibilidade e voz à literatura contemporânea escrita por mulheres no Amazonas, uma vez que essa pauta é recorrente em todos os festivais, bienais e festas literárias, atualmente. Não podemos nos dar ao luxo de ficarmos em silêncio, se queremos ser ouvidas e vistas temos que falar e nos expor", destaca.
No contexto amazônico, onde a produção literária ainda enfrenta desafios relacionados à circulação, visibilidade e reconhecimento fora do eixo hegemônico do país, promover espaços de debate e valorização torna-se ainda mais urgente. O sarau, nesse sentido, reafirma a potência criativa das mulheres da região e evidencia a diversidade de vozes que constroem a literatura contemporânea local.
Renomadas
“Em Manaus há muitas escritoras talentosas lidas, premiadas e respeitadas aqui no Norte, como Marta Cortezão (nossa idealizadora do Enluaradas), Tainá Vieira, Rakel Caminha, Myriam Scotti, Marcia Antonelli, Deborah Bacelar, Silvia Grijó, Ecila Mabelini, Lucila Bonina, Grace Cordeiro, Letícia Cardoso, Nívea Chagas e muitas outras poetas, contistas, romancistas, roteiristas, artistas do audiovisual como Maíra Dessana, que estará captando material para um futuro documentário, enfim, artistas maravilhosas que merecem exposição”, ressalta Rita Alencar Clark, ao destacar a relevância de iniciativas que ampliem o alcance e o reconhecimento dessas produções.
Entre os principais desafios enfrentados pelas mulheres na literatura amazônica estão o apagamento histórico, a dificuldade de acesso ao mercado editorial e a limitada circulação de suas obras para além da região. Soma-se a isso a persistente desigualdade de gênero, que impacta diretamente nas oportunidades de publicação, visibilidade e reconhecimento no cenário literário nacional. Outro entrave significativo é a ausência de políticas públicas consistentes que incentivem e sustentem a produção literária local, o que leva muitas autoras a recorrerem a caminhos independentes para publicar e divulgar seus trabalhos, enfrentando custos elevados e menor alcance de distribuição. Para Rita Alencar Clark, esses desafios estão diretamente ligados à centralização do mercado editorial no Sudeste.
“A própria distância dos ditos ‘centros’ editoriais e literários, Rio/São Paulo. A nossa literatura é vista, ainda, como periférica e a forma de interferirmos nesse ‘status quo’ é nos propondo a publicar de forma independente, seja através de editais de chamamento, seja por conta própria. A verdade é que não temos, ainda, políticas públicas que deem sustentação ao trabalho dos escritores e das escritoras na nossa região. Na grande maioria das vezes publicamos nossos livros em editoras independentes e parceiras (do Sul/Sudeste) e que nos acolhem e, principalmente, fazem a divulgação do livro nos eventos de Literatura no eixo sudestino. Daí a necessidade de ir às feiras como a Flip em Paraty, por exemplo. Lá nós sempre somos convidadas para mesas temáticas e rodas de conversa. Querem saber de nós, da nossa escrita tão especial. Esse ano eu não poderei ir, mas três escritoras potentes, que fazem parte do Coletivo e da nossa luta regional, estarão na Flip 2026: Sandra Godinho, Myriam Scotti e Elaine Andreatta. Elas lançarão livros e farão mesas temáticas”. Na prática, o sarau se consolida como um espaço estratégico de fortalecimento da presença feminina na cena literária e cultural da região ao promover encontros, circulação de obras e, sobretudo, a construção de redes de apoio entre autoras.