O fenômeno do ‘binge-watching’ transformou o entretenimento em experiência social
Debate suscita reflexões sobre o que é lazer espontâneo ou regulação emocional (Divulgação)
A prática de assistir vários episódios de uma série em sequência, conhecida como ‘binge-watching’, consolidou-se nos últimos anos como um dos principais hábitos de consumo audiovisual. Impulsionada pelas plataformas de streaming e pela oferta de temporadas completas lançadas de uma só vez, a maratona de séries ganhou espaço na rotina de milhões de pessoas. Mas, ao mesmo tempo em que oferece imersão e entretenimento imediato, o comportamento também reacende debates sobre ansiedade, compulsão, sono e até pertencimento social.
Embora o consumo acelerado tenha se tornado comum, a forma de assistir ainda divide opiniões. O advogado Leonardo Ramada, por exemplo, prefere acompanhar episódios semanais. Para ele, a experiência prolonga o envolvimento com a narrativa.
“Há uma maior expectativa. Quando acompanho uma série inteira de uma vez só, tenho uma grande propensão ao tédio e logo vou perdendo a vontade de assistir”, afirmou ao BEM VIVER TV. Ainda assim, admite ter aberto exceções: a última série que maratonou foi “The Boys”. “Comecei a assistir depois do lançamento da primeira temporada e simplesmente não conseguia parar de ver”, completou.
O advogado Leonardo Ramada prefere acompanhar episódios semanais
A também advogada Bárbara Gato diz gostar dos dois formatos, embora reconheça que cada um desperta sensações diferentes.
A última maratona dela foi da série “Off Campus”, concluída em apenas um fim de semana.
O retorno dos lançamentos semanais, adotado por diversas plataformas, também trouxe de volta um velho componente do entretenimento: a expectativa. Em tempos de redes sociais funcionando em tempo real, acompanhar episódios rapidamente passou a ser, para muitos, uma forma de escapar dos spoilers.
Bárbara admite que evita até certos ambientes virtuais para preservar a experiência.
“Eu evito entrar no X e em grupos de amigos no WhatsApp que estejam assistindo à série para não pegar spoilers”, confessou.
Bárbara Gato admite que evita certos ambientes virtuais para preservar a experiência e evitar spoilers
Para Leonardo, porém, a ansiedade entre um episódio e outro não está necessariamente ligada ao medo de estragar a surpresa, mas à curiosidade gerada pela trama.
Ele acredita, inclusive, que os lançamentos graduais fortalecem o debate coletivo. “O assunto rende muito mais, pois há tempo para analisar e assimilar aquilo que foi assistido, evitando aquele efeito de consumo desenfreado”.
Segundo a psicóloga Isabella Limongi, esse movimento conversa diretamente com um fenômeno conhecido como FOMO (Fear of Missing Out), o medo de estar perdendo algo.
Em outras palavras, o desejo de assistir rápido nem sempre vem apenas da vontade de acompanhar a história, mas também da necessidade de pertencimento.
Segundo a psicóloga Isabella Limongi, o binge-watching conversa como o fenômeno FOMO (Fear of Missing Out), o medo de estar perdendo algo
Além da pressão social, a especialista aponta que o binge-watching também ativa mecanismos de recompensa imediata no cérebro. Os roteiros modernos, repletos de ganchos entre episódios, estimulam a sensação do “só mais um episódio”, dificultando a interrupção.
Isso não significa, necessariamente, que maratonar séries seja prejudicial. Para a psicóloga, o ponto de atenção está no impacto desse hábito sobre a vida cotidiana. Alteração do sono, procrastinação, perda de produtividade, isolamento social, irritação quando interrompido e sensação de culpa após longas sessões estão entre os sinais de alerta.
Enfim, o binge-watching parece refletir uma característica do próprio tempo presente: o desejo de consumir tudo agora, sem pausas, mas também a necessidade de pertencimento em um universo cada vez mais conectado. Como resume Isabella: “Quando o entretenimento começa a funcionar mais como regulação de ansiedade do que como lazer espontâneo, vale a pena observar a função e o espaço que ele está ocupando na sua vida”.