Séries

‘Só mais um episódio’

O fenômeno do ‘binge-watching’ transformou o entretenimento em experiência social

Gabriel Machado
24/05/2026 às 15:33.
Atualizado em 24/05/2026 às 15:37

Debate suscita reflexões sobre o que é lazer espontâneo ou regulação emocional (Divulgação)

A prática de assistir vários episódios de uma série em sequência, conhecida como ‘binge-watching’, consolidou-se nos últimos anos como um dos principais hábitos de consumo audiovisual. Impulsionada pelas plataformas de streaming e pela oferta de temporadas completas lançadas de uma só vez, a maratona de séries ganhou espaço na rotina de milhões de pessoas. Mas, ao mesmo tempo em que oferece imersão e entretenimento imediato, o comportamento também reacende debates sobre ansiedade, compulsão, sono e até pertencimento social.

Embora o consumo acelerado tenha se tornado comum, a forma de assistir ainda divide opiniões. O advogado Leonardo Ramada, por exemplo, prefere acompanhar episódios semanais. Para ele, a experiência prolonga o envolvimento com a narrativa.

“Há uma maior expectativa. Quando acompanho uma série inteira de uma vez só, tenho uma grande propensão ao tédio e logo vou perdendo a vontade de assistir”, afirmou ao BEM VIVER TV. Ainda assim, admite ter aberto exceções: a última série que maratonou foi “The Boys”. “Comecei a assistir depois do lançamento da primeira temporada e simplesmente não conseguia parar de ver”, completou.

O advogado Leonardo Ramada prefere acompanhar episódios semanais

 A também advogada Bárbara Gato diz gostar dos dois formatos, embora reconheça que cada um desperta sensações diferentes.

“Amo quando consigo maratonar uma série em um final de semana, mas fico triste porque geralmente acaba muito rápido e depois sinto falta. Ao mesmo tempo, adoro quando os episódios são lançados semanalmente, porque consigo passar a semana pensando sobre a série”, relatou.

A última maratona dela foi da série “Off Campus”, concluída em apenas um fim de semana.

Expectativa

O retorno dos lançamentos semanais, adotado por diversas plataformas, também trouxe de volta um velho componente do entretenimento: a expectativa. Em tempos de redes sociais funcionando em tempo real, acompanhar episódios rapidamente passou a ser, para muitos, uma forma de escapar dos spoilers.

Bárbara admite que evita até certos ambientes virtuais para preservar a experiência.

“Eu evito entrar no X e em grupos de amigos no WhatsApp que estejam assistindo à série para não pegar spoilers”, confessou.

Bárbara Gato admite que evita certos ambientes virtuais para preservar a experiência e evitar spoilers

 Para Leonardo, porém, a ansiedade entre um episódio e outro não está necessariamente ligada ao medo de estragar a surpresa, mas à curiosidade gerada pela trama.

“Sinto ansiedade de assistir logo, mas não pelo medo de spoiler e, sim, para matar a expectativa gerada entre um episódio e o outro”, afirmou.

Ele acredita, inclusive, que os lançamentos graduais fortalecem o debate coletivo. “O assunto rende muito mais, pois há tempo para analisar e assimilar aquilo que foi assistido, evitando aquele efeito de consumo desenfreado”.

Saúde mental

Segundo a psicóloga Isabella Limongi, esse movimento conversa diretamente com um fenômeno conhecido como FOMO (Fear of Missing Out), o medo de estar perdendo algo.

“O consumo deixa de ser apenas entretenimento e vira também participação cultural e social. O cérebro interpreta a possibilidade de exclusão social como algo relevante, aumentando a ansiedade e a vigilância”, explicou.

Em outras palavras, o desejo de assistir rápido nem sempre vem apenas da vontade de acompanhar a história, mas também da necessidade de pertencimento.

Segundo a psicóloga Isabella Limongi, o binge-watching conversa como o fenômeno FOMO (Fear of Missing Out), o medo de estar perdendo algo

 Além da pressão social, a especialista aponta que o binge-watching também ativa mecanismos de recompensa imediata no cérebro. Os roteiros modernos, repletos de ganchos entre episódios, estimulam a sensação do “só mais um episódio”, dificultando a interrupção.

“Muitas pessoas usam séries para aliviar ansiedade, diminuir solidão, interromper pensamentos difíceis ou descansar emocionalmente. O problema surge quando isso vira a principal estratégia emocional da pessoa”, alertou.

Isso não significa, necessariamente, que maratonar séries seja prejudicial. Para a psicóloga, o ponto de atenção está no impacto desse hábito sobre a vida cotidiana. Alteração do sono, procrastinação, perda de produtividade, isolamento social, irritação quando interrompido e sensação de culpa após longas sessões estão entre os sinais de alerta.

“O principal critério não é a quantidade de episódios em si, mas o impacto na rotina e a perda de controle sobre o comportamento”, ressaltou.

Enfim, o binge-watching parece refletir uma característica do próprio tempo presente: o desejo de consumir tudo agora, sem pausas, mas também a necessidade de pertencimento em um universo cada vez mais conectado. Como resume Isabella: “Quando o entretenimento começa a funcionar mais como regulação de ansiedade do que como lazer espontâneo, vale a pena observar a função e o espaço que ele está ocupando na sua vida”.

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica - Empresa de Jornais Calderaro LTDA.© Copyright 2026Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por