A sétima arte em terras tupiniquins é uma crônica de resiliência e identidade
(Foto: Reprodução)
Celebramos, no 19 de junho, o Dia do Cinema Brasileiro, uma data que, por si só, já carrega uma ironia deliciosa e profundamente simbólica. Afonso Segreto, um italiano com alma de desbravador, retornava ao Rio de Janeiro em 1898, munido de equipamentos e filmes, pronto para registrar a entrada da Baía de Guanabara. A bordo do navio, ele capturou as primeiras imagens em movimento em solo nacional, um feito que o jornal Gazeta de Notícias prontamente celebrou como a "certidão de nascimento" de nossa cinematografia. O que ninguém sabia, e que só se revelaria mais tarde, é que o filme, devido a um descuido do inexperiente cinegrafista, nunca veria a luz do dia. É o começo perfeito para uma história de paixão e percalços, uma saga que se recusa a ser definida por seus tropeços iniciais.
A história de Afonso Segreto, com seu filme perdido, é um prelúdio quase poético para a jornada do cinema em nosso país. Ela ilustra, com uma clareza cristalina, a dificuldade inerente de fazer arte por aqui, e também a perseverança e a força que impulsionam essa arte contra todas as expectativas. Hernani Heffner, da Cinemateca do MAM, aponta com sabedoria que a data marca uma ausência, um filme que não existiu, e, paradoxalmente, solidifica o pioneirismo e a obstinação. A sessão inaugural, que deveria ter a presença de autoridades como Prudente de Morais e Rui Barbosa, acabou exibindo vistas estrangeiras, deixando o público frustrado. Um começo, digamos, com um toque de tragicomédia, bem ao estilo brasileiro.
Apesar do contratempo inicial, Afonso Segreto se tornou, de fato, o primeiro realizador cinematográfico do país, registrando mais de 100 filmes entre 1898 e 1903, embora a maioria tenha se perdido no tempo. Seu irmão, Paschoal Segreto, também desempenhou um papel crucial como exibidor e produtor, consolidando as bases do entretenimento na Belle Époque carioca. A família Segreto, esses irmãos Lumière tropicais, foram pioneiros do cinema e de uma cultura de divertimento que moldou o Rio de Janeiro. A influência italiana, muitas vezes ofuscada pela francesa, encontra nos Segreto um reconhecimento merecido, mostrando que nossa cultura é um caldeirão de sabores e sotaques.
O que, afinal, torna o cinema brasileiro "brasileiro"? A resposta é tão multifacetada quanto o nosso próprio povo. Ele se distingue pela forma como aborda suas narrativas, muitas vezes com uma crueza e uma poesia que só a nossa realidade pode oferecer. A maneira de fazer cinema no Brasil difere do restante do mundo pela sua capacidade de transformar o cotidiano em épico, o regional em universal, e o drama em uma reflexão sobre a condição humana. É um cinema que fala com a alma, que nos faz rir e chorar, que nos confronta com nossas mazelas e celebra nossas belezas, tudo isso com um sotaque inconfundível e uma ginga que só o Brasil possui.
Atualmente, o cinema brasileiro vive uma fase de efervescência e reconhecimento internacional, com duas indicações consecutivas ao Oscar. "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, conquistou a estatueta de Melhor Filme Internacional em 2025, um feito histórico que ressoa como um grito de vitória. Em 2026, "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, chegou com quatro indicações, empatando com o recorde de "Cidade de Deus". Essas conquistas são troféus e a validação de um trabalho árduo, de uma visão artística singular e da capacidade de nossas histórias de transcender fronteiras, provando que a qualidade e a relevância de nossa produção cinematográfica são inegáveis.
Essa identidade "brasileira" do cinema se manifesta na diversidade de seus temas, na riqueza de suas paisagens e na profundidade de seus personagens. É um cinema que confronta suas próprias contradições, suas alegrias e suas dores. Ele nos convida a uma imersão em realidades que, por vezes, são desconhecidas até para nós mesmos, mas que, ao serem projetadas na tela, revelam a complexidade e a beleza de ser brasileiro.